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21/11/2006

Com morte da modelo, distúrbios alimentares voltam à cena

International Herald Tribune
Kimberly Conniff Taber
em Paris
A morte da modelo brasileira de 21 anos de complicações relacionadas à anorexia reanimou o debate sobre a indústria da moda e distúrbios alimentares, enquanto várias cidades em torno do mundo estão considerando proibir modelos extremamente magros nas passarelas.

Para especialistas em saúde, as imagens de modelos severamente abaixo do peso são apenas um elemento na gestação de distúrbios alimentares como anorexia e bulimia. Os fatores determinantes são biológicos e psicológicos, dizem.

Ana Carolina Reston, que pesava apenas 40 kg quando morreu em São Paulo, no dia 14 de novembro, foi a segunda modelo nos últimos meses a sucumbir de um distúrbio alimentar. Em agosto, Luisel Ramos, do Uruguai, morreu de falência cardíaca durante uma exibição de moda, levando Madri a proibir modelos severamente abaixo do peso de participarem da semana da moda da cidade neste outono.

Essa medida foi aplaudida universalmente por pessoas envolvidas no tratamento da bulimia e da anorexia, e a indústria da moda está enfrentando pressão para seguir o mesmo em outras partes. Na semana passada, Giorgio Armani instou os estilistas a pararem de usar modelos magérrimas. Mas os especialistas em distúrbios alimentares advertem que o foco na moda parece implicar que as doenças são primariamente causadas pelo desejo de se parecer com um modelo.

"Essa é uma simplificação grosseira da questão", disse Eric Van Furth, presidente da Academia de Distúrbios Alimentares, uma organização internacional com base em Nortbrook, Illinois, e diretor clínico do Centro Nacional de Distúrbios alimentares em Leidschendam, Holanda. Enfatizar a passarela "ajuda a trivializar e estigmatizar as doenças e pode impedir as pessoas de procurarem ajuda", disse Furth.

Furth e outros especialistas dizem que diversos fatores podem contribuir para a anorexia, que é caracterizada por perda excessiva de peso e alimentação insuficiente, e a bulimia, o ciclo perigoso de comer compulsivamente e vomitar. De acordo com Susan Ice, diretora médica do Centro Renfrew de tratamento de distúrbios alimentares na Filadélfia, esses fatores podem incluir genes, influências ambientais, baixa auto-estima, perfeccionismo, temperamento obsessivo, ansiedade, variáveis familiares e, freqüentemente, um "evento catalisador", como sofrer violência ou perder um ente amado. "Apenas uma dessas coisas não é suficiente", disse Ice. "Em todas as meninas que vi, o desenvolvimento (da doença) foi ligeiramente diferente."

Muitos pesquisadores da área usam a metáfora de uma arma para explicar o que provoca um distúrbio alimentar. De acordo com essa descrição, primeiramente cunhada por Cynthia Bulik, da Universidade da Carolina do Norte, os genes carregam a arma e o ambiente puxa o gatilho.

Aimee Liu, autora de "Gaining: The Truth About Life After Eating Disorders" (ganhando: a verdade sobre a vida após distúrbios alimentares), a ser publicado pela Warner Books em fevereiro, expandiu a metáfora. Os genes criam a arma, disse ela em entrevista telefônica; a indústria da moda, imagens de celebridades, relacionamento com os pais e outros fatores ambientais carregam a arma. O estresse emocional puxa o gatilho. "Não tem nada a ver com a aparência", disse ela. "A aparência é um instrumento, um mecanismo usado pelo distúrbio alimentar."

Alguns especialistas advertem que, enquanto proibir modelos emaciadas pode enviar uma mensagem positiva às jovens em risco, também pode levar as pessoas a pensarem que os distúrbios são "comportamentos de escolha". "A pessoa não se torna anoréxica porque quer", disse Gerard Apfeldorfer, psiquiatra de Paris especializado em distúrbios alimentares e autor de vários livros sobre o assunto.

Há um corpo de pesquisa crescente que reforça os componentes genéticos e biológicos do quebra-cabeça. Um estudo de 2005 conduzido pela Universidade da Carolina do Norte e pela Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh identificou seis traços principais que parecem estar ligados aos genes associados com anorexia e bulimia: compulsividade, idade da primeira menstruação, ansiedade, índice de massa corpórea mínimo, preocupação com erros e obsessões relacionadas à comida.

Um estudo de gêmeos com anorexia desenvolvido pela Universidade da Carolina do Norte e pelo Instituto Karolinska em Estocolmo e publicado pela revista Archives of General Psychiatry em março concluiu que o componente genético pode ser responsável por mais da metade do risco de desenvolver um distúrbio alimentar. Um estudo internacional de US$ 10 milhões (em torno de R$ 22 milhões) está em curso para procurar genes específicos que provoquem a suscetibilidade à anorexia.

A pesquisa, envolvendo até 400 famílias, está sendo patrocinada pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA. Independentemente dos fatores genéticos envolvidos, as influências culturais claramente podem ter um papel nos distúrbios alimentares. Com a mídia saturada de imagens de Lindsay Lohan, Keira Knightley e outras estrelas magras como um palito, as meninas são bombardeadas com mensagens de que ser magra está na moda. "Elas nunca ficam satisfeitas com sua aparência", disse Lynn Grefe, diretora executiva da Associação Nacional de Distúrbios Alimentares, um grupo sem fins lucrativos com base em Nova York e Seattle. Mas a chave, segundo os especialistas, é que as sementes de um distúrbio alimentar estão lá antes do comportamento obsessivo dominar. Se os distúrbios "fossem somente culturais", disse Grefe, "todos nós que lemos revistas da moda teríamos um". Deborah Weinberg

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