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24/11/2006

Uma mania de superpotência

International Herald Tribune
Amelia Gentleman
em Nova Déli
O jornal "The Times of India" elaborou um belo logotipo que é impresso no alto de cada artigo a respeito da próspera economia e da crescente importância internacional da Índia: uma pequena roda de fiar, o símbolo nacional, ao lado das palavras "A Conquista do Mundo pela Índia".

Às vezes os artigos apresentados como reflexões sobre a incontida ascensão do país são persuasivos - os sucessos empresariais da Índia, os aumentos dos preços das ações, as vitórias no Booker Prize. Mas na maioria das vezes eles são surpreendentemente insignificantes.

Em um artigo de primeira página nesta semana, a mais recente evidência do aumento do poder da Índia foi a notícia de que uma garota de origem indiana foi eleita Miss Grã-Bretanha. O slogan "A Conquista do Mundo pela Índia" foi impresso próximo a uma foto da beldade Preeti Desai.

O "The Times of India", o jornal indiano de língua inglesa de maior tiragem, segue a tendência nacional. O desejo de ressaltar até mesmo os pequenos feitos como prova de que ninguém segura o crescimento da Índia se tornou um esporte nacional. Uma convicção obsessiva de que a Índia está destinada a ser um portento internacional se dissemina rapidamente.

Nos últimos anos tem havido uma mobilização no sentido de se afirmar um incipiente status de superpotência da Índia. Os bancos prevêem que a Índia se tornará a terceira maior economia do mundo nas próximas duas décadas, e um relatório da CIA avisa que o século 21 será da Índia. Todo dignatário estrangeiro que visita o país faz uma pausa para prestar um tributo à constante ascensão econômica e à glória internacional da Índia.

Os únicos indivíduos que demonstram aversão a essas previsões de que a Índia está prestes a se tornar uma superpotência são os líderes mais experientes do país. Na última semana as duas figuras mais importantes da política indiana advertiram sobre os perigos da preocupação obsessiva do país com a sua posição global. Sonia Ghandi, a líder do partido governista no Congresso, e o primeiro-ministro Manmohan Singh se dedicaram a destruir as hipérboles e a conter a disseminação da complacência.

"Não fiquemos demasiadamente obcecados com essa idéia de adquirirmos 'status de superpotência'", aconselhou Ghandi aos delegados presentes em uma conferência intitulada (com uma exuberância condizente com o espírito dos tempos) "Índia: A Próxima Superpotência Global?". Ela continuou: "Eu me sinto um pouco desconfortável com a própria palavra 'superpotência'. Para muitos de nós, o termo evoca imagens de hegemonia, agressão política, conquista, poder militar, divisão e conflito".

Ela disse que está boquiaberta com a onda atual de auto-congratulação, e perguntou: "Será que não nos sentimos suficientemente confiantes?". E aqui ela tocou no cerne da questão - um desejo exagerado de se gabar do sucesso indica insegurança e postura defensiva.

Gandhi pareceu embaraçada com o clima de triunfalismo quanto à transformação econômica da Índia, tendo observado que embora a Índia seja um "país de prosperidade estonteante", essa é também uma nação de "pobreza desumanizante".

É claro que é politicamente vital que Ghandi faça lembrar a todo momento o destino dos excluídos, já que uma importante eleição está para ser realizada no miserável Estado de Uttar Pradesh. No entanto, as suas palavras estão também repletas de bom senso: a Índia jamais desfrutará de uma posição de poder no mundo caso seja incapaz de alimentar a sua população apropriadamente, argumentou ela.

"Várias parcelas da nossa população ainda são incapazes de desfrutar sequer dos elementos mais básicos de uma qualidade de vida decente", enfatizou Ghandi. "Os sucessos que registramos não devem gerar falsas ilusões de grandeza e poder. Eles não podem nos envolver em um casulo de auto-satisfação que nos isole da vida cotidiana da vasta maioria da população".

Singh abordou o tema, afirmando que o seu governo está trabalhando para "construir um futuro melhor para a nação, não devido a um desejo de nos tornarmos uma 'superpotência global', mas porque queremos viver em paz e com dignidade". Com a sua honestidade costumeira, ele expôs os vários obstáculos a esses sonhos de glória de superpotência - a estrutura educacional, um sistema de saúde pública falido e uma carência de recursos energéticos vitais.

O debate sobre as aspirações da Índia de se tornar superpotência se intensificaram nesta semana com a chegada do presidente Hu Jintao, da China, em visita de Estado. Embora o grupo dos torcedores mais otimistas da Índia gostem de sugerir que a ascensão da Índia é comparável à da China, os realistas enfatizam que não existem termos de comparação.

"Nós não estamos engajados em uma corrida com a China, porque eles já ganharam a corrida", disse na última segunda-feira Jairam Ramesh, o ministro do Comércio. Ele também está tentando refrear a histeria quanto ao status de superpotência, argumentando que ainda que a Índia se tornasse a maior economia mundial, isso não representaria um feito estupendo.

"Se um país de um bilhão de habitantes não é capaz de se tornar a terceira maior economia mundial, então precisamos examinar as nossas cabeças. O que conta é a renda per capita", disse ele, reiterando que a nova riqueza não está distribuída pela vasta maioria da população. "Não vamos delirar com essa idéia de o século 21 pertencer à Índia. Em um nível macro pode até ser, mas não em termos de qualidade de vida ou de salários".

Será que essas palavras de cautela terão algum efeito sobre o clima que prevalece no país?

Aparentemente não. Ao anunciar que a Índia espera mandar um astronauta à Lua nos próximos dez anos, um dirigente da Organização Indiana de Pesquisa Espacial declarou com prazer: "Uma missão tripulada bem sucedida à Lua daria à Índia o status de superpotência".

Ao revelar a proposta de construção da maior torre do mundo perto de Nova Déli, um arquiteto anunciou: "Tudo isso diz respeito a status. É uma questão de glorificação. Já é hora de as pessoas começarem a perceber que nós somos também uma grande nação". A toada da mania de superpotência continua.

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