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23/12/2006
Tempos bons e tempos difíceis: o que dizer aos filhos

Sharon Reier

A sinceridade a respeito de uma alteração no rendimento familiar pode reduzir a ansiedade e ajudar na aquisição de valores morais. No livro de 1943, "Mama's Bank Account" ("A Conta Bancária da Mamãe"), uma mãe norueguesa imigrante ensina a sua família a agir com sabedoria e a fazer sacrifícios de forma a evitar que tenham que esvaziar uma conta que ela mantém em um banco no centro de São Francisco. Vinte anos depois, a sua filha descobre que a conta era imaginária. Ao explicar o engodo, a mãe diz: "A sensação de insegurança e o medo não são bons para as crianças".

A maioria dos pais se identifica com essa mamãe no que diz respeito ao desejo de criar filhos confiantes e seguros de si. Mas os pais de hoje, ao contrário daqueles das gerações anteriores, precisam equilibrar esse objetivo com as pressões de uma cultura de hiperconsumismo - que encoraja muitas crianças a se sentirem privadas de algo caso não tenham o último PlayStation, um par do tênis da moda ou férias caras em uma estação de esqui - e lidam com a possibilidade de passar por altos e baixos em suas vidas financeiras.

À medida que 2006 chega ao fim, com notícias de ganhos recordes em Wall Street, aumento dos mercados financeiros mundiais e crescimento dos lucros das corporações, muitas famílias sentem-se livres para partir para a ostentação. Mas para várias famílias cujos chefes trabalham para companhias que estão promovendo cortes de despesas, ou aquelas cujas rendas dependem do mercado imobiliário residencial ou de outros setores que estão fragilizados, o Ano Novo quase que certamente trará sacrifícios que não são fáceis de explicar à próxima geração - especialmente em uma cultura afluente que tende a medir o valor de uma pessoa pelo salário que ela ganha.

E embora a filantropia praticada pelas celebridades e as grandes doações feitas por pessoas influentes possam estar estimulando o idealismo e a preocupação com o meio-ambiente, os valores materialistas não estão em queda. Na verdade, eles são reforçados nas economias nas quais os empregos são mais precários e os indivíduos são cada vez mais encorajados a depender do seu poder de ganhar dinheiro, e não do Estado, para garantirem os seus futuros.

Em nenhum outro lugar isso é mais evidente do que nos Estados Unidos, onde, segundo o último censo, 75% dos alunos de primeiro ano das universidades descreveram que o seu objetivo principal é "ficar bem financeiramente". Esse número pode ser comparado aos 79% que em 1970 garantiram que a sua meta era desenvolver uma filosofia de vida significativa.

"A questão é como explicar aos seus filhos a idéia de dinheiro e como ele entra e sai, e a forma como isso influencia o nosso comportamento", diz Tim Kasser, professor da Faculdade Knox, em Illinois, e autor do livro "The High Price of Materialism" ("O Alto Preço do Materialismo"). Há muita coisa a se considerar, especialmente para as famílias que têm dificuldade em conversar com franqueza sobre qualquer tópico difícil.

Mas os especialistas concordam que ser sincero com os filhos sobre o fato de um determinado ano ser bom ou ruim, sob o ponto de vista financeiro, é fundamental para incutir neles os valores que se deseja, e não os valores que eles obterão junto à cultura popular ou aos seus colegas.

"Muitos pais não se sentem confortáveis em conversar sobre sexo, e outros sobre dinheiro", diz Kasser. "Mas se você não falar sobre essas coisas, os filhos ficarão mais fascinados pelo assunto, e procurarão aprender a respeito disso em outro lugar."

E nos dias de hoje há muito o que aprender. Segundo Brian Young, psicólogo e professor da Universidade de Exeter, na Inglaterra, que estuda as crianças e o materialismo, existe uma confusão crescente para as crianças novas a respeito da diferença entre trabalho e diversão, que remete a questões monetárias. Por exemplo, para uma criança pequena, um pai ou uma mãe que trabalha em um computador parece estar se divertindo com jogos eletrônicos.

E a confusão aumenta porque o dinheiro, no mundo digital de hoje, pode parecer tão imaginário e imensurável quanto a conta bancária da mamãe do livro. As cédulas se materializam dos caixas eletrônicos como em um passe de mágica. Os pais pagam por muita coisa passando um cartão de crédito em uma máquina. Mas as crianças raramente, ou nunca, vêem os pais tentando equilibrar o orçamento doméstico. Os psicólogos dizem que à medida que o dinheiro se torna um conceito cada vez mais abstrato, a busca por aquilo que ele é capaz de comprar se transforma em um fim em si mesmo, em vez de se constituir em um meio para um fim que é ter uma vida feliz.

É claro que o materialismo existe desde a época das pirâmides, e provavelmente foi fundamental para a sobrevivência do ser humano, no que diz respeito à invenção de ferramentas. Mas embora existam evidências de que o materialismo é intrínseco à natureza humana, há também uma escola crescente de pesquisa em psicologia que vê uma correlação negativa entre a ênfase no materialismo e vários indicadores de felicidade, de satisfação de vida e de interação comunitária. "Não sabemos ainda ao certo se o materialismo causa problemas emocionais e comportamentais, ou se são os problemas emocionais e comportamentais que provocam o materialismo", diz Eirini Flouri, professora de psicologia e de desenvolvimento humano da Universidade de Londres. Ela reconhece que os estudos demonstraram "uma correlação positiva entre materialismo e depressão, neurose, problemas psicológicos e uma relação inversa entre materialismo e auto-estima".

Tudo isso aponta para a necessidade de os pais discutirem a questão do dinheiro, e especialmente as grandes mudanças de situação financeira, abertamente com os filhos, a fim de reduzir a ansiedade associada à mudança. Kasser diz que não é incomum que os filhos fiquem pensando se não seriam eles, de alguma forma, os responsáveis pela situação difícil da família, da mesma forma que os filhos de pais separados às vezes se culpam pela separação.

Sharon Danes, economista especializada em família e professora da Universidade de Minnesota, sugere que os pais abordem o problema de frente, explicando as coisas de forma simples - especialmente para os filhos pequenos, que enxergam o mundo em preto e branco.

"Não tente explicar coisas como hipoteca ou dívidas", diz Young. "Você pode dizer: 'A mamãe tem um emprego no qual às vezes as pessoas ganham muito e às vezes pouco dinheiro. Tem gente que ganha a mesma quantia sempre. Mas nós levamos uma vida mais interessante. Às vezes é melhor estar em uma montanha russa do que em um carrinho de mão". As crianças mais velhas são capazes de compreender as nuances da situação e podem até tentar encontrar soluções. "Você pode dizer a elas que as coisas mudaram, que durante algum tempo não será capaz de adquirir as coisas que costumava comprar", diz Danes. A seguir, faça com que a conversa se concentre em como cada membro da família ajudará durante os períodos difíceis: quem vai abrir mão de que benefícios extras, quem é capaz de ganhar um dinheirinho a mais ou ajudar com determinadas tarefas , de forma que os pais possam procurar outras fontes de salário. "Os filhos devem entender que os pais também precisam sacrificar certas coisas, e que eles, também, precisam lutar", diz Danes.

Alguns filhos aceitarão as notícias com mais dificuldade do que outros, e a idade tem muito a ver com isso. "Quando a criança tem três ou quatro anos, a sua existência responde ao aqui e ao agora", diz Young. "Se ela quer alguma coisa, ela quer neste momento". Porém, essa capacidade de se concentrar em algo por um curto período pode ajudá-la a se ajustar. "Se existe uma mudança nas circunstâncias, por exemplo, se normalmente ela vai de carro para a escola, e no dia seguinte não tem mais carro, a criança pode ficar chateada, mas ela aceitará a nova situação", afirma Young.

No entanto, quando a criança é um pouco mais velha, ela começa a aprender mais a respeito do seu status no mundo. "Ela entenderá a natureza simbólica do dinheiro. Ela saberá que os ricos têm certas coisas, e os membros da classe média têm outras".

De acordo com os especialistas, um ajuste quanto ao status é mais fácil caso a família esteja habituada a discutir as questões abertamente, e já tenha uma noção clara do lugar ocupado pelo dinheiro. É útil entender que os filhos aprendem a partir do comportamento dos pais. "Você compara o que você tem com aquilo que outros têm?", indaga Danes. "Ou, se ambos os pais trabalham, você já deu coisas aos seus filhos por se sentir culpada por estar passando pouco tempo com eles? A mensagem equivocada é: 'Os objetos podem substituir o amor e o tempo passado com os pais'". Quando a família não é mais capaz de comprar esses objetos, as crianças podem tirar proveito dessa sensação de culpa - ou encontrar formas de conseguir o que querem sem a aprovação dos pais. Christian Thomas, um especialista em computadores da França, ficou surpreso ao constatar que depois que ele e a ex-mulher se recusaram em princípio a comprar produtos de marca, o filho de 15 anos conseguiu o cobiçado par de tênis Nike pedindo-o de presente ao avô. Se existe um fator marcante nos momentos difíceis, é o fato de eles apresentarem uma oportunidade para ajudar os filhos a examinar os seus valores e os traduzirem em atitudes concretas com relação ao dinheiro.

Neale Godfrey, ex-presidente do First Women's Bank e autora de "Money Doesn't Grow on Trees" ("Dinheiro Não Nasce em Árvores") e outros livros sobre crianças e dinheiro, diz: "Uma das grandes lições é estabelecer uma diferenciação entre necessidades e desejos. E a principal lição que se deve ensinar aos filhos é a de que os recursos são finitos".

Um método para isso - bom para famílias de todas as classes sociais - é fazer com que os filhos coloquem o dinheiro recebido como presente, mesadas e remuneração por tarefas em quatro jarras. Godfrey diz que 10% devem ser colocados na primeira jarra, para contribuições e presentes. O resto do dinheiro é dividido igualmente entre as três jarras: uma para gastos de curto prazo, como lanches com amigos e downloads de músicas; objetivos de médio prazo, como patins de gelo ou um jogo de computador, e os de longo prazo, como um curso universitário. Godfrey diz que o seu método ajuda a impedir que a criança acredite tenha um direito automático a ganhar tudo. "A criança que diz, 'Se eu não ganhar aquela calça jeans de marca vou morrer', vai pensar duas vezes caso tenha que abrir mão de alguma coisa para conseguir a calça", diz Godfrey.

Tradução:

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