Na Alemanha, mísseis testam corações e mentes

John Vinocur
em Berlim

Após um ano de quarentena, Gerhard Schröeder, atualmente um item caro da lista de pagamento da Gazprom na Europa, está tentando se reerguer e voltar para a política alemã. Para isso, está usando como plataforma críticas ao projeto de escudo de defesa americano contra as bombas iranianas.

Schröeder está sintonizado com os fortes sentimentos anti-americanos na Alemanha e com a oposição veemente de seu empregador, Vladimir Putin, ao radar antimíssil e aos interceptadores que serão empregados na Polônia e a República Tcheca. Sua mensagem é a seguinte: os EUA estão "tentando estabelecer uma política ridícula de cerco contra a Rússia que pode ser tudo, menos de interesse para a Europa."

É o "chanceler da paz redux", ou a volta incremental de Schröeder à atenção pública sobre um cavalo velho, ainda repetindo que é erro dos EUA.

Nas duas últimas semanas, ele alegou que Putin tinha sido vitimado e descreveu sua própria visão alemã das intenções "politicamente perigosas" dos EUA em um discurso em Dresden. Na quinta-feira (22/3), fez uma aparição pública em Berlim seguida de outro discurso em uma reunião do Partido Social Democrata em Hamburgo, no final de semana.

Em suma: Schröeder acredita ter superado tanto a afronta de sua derrota para Angela Merkel em outubro de 2005, em grande parte auto-infligida, quanto as questões pegajosas da situação de um ex-chanceler que trabalha para um gasoduto de um presidente russo cada vez mais autoritário, a quem ele chamou de "genuíno democrata".

Ou seja, Schröeder vê a discussão alemã se o país deve se voltar na direção dos EUA ou da Rússia na questão do escudo de mísseis como oportunidade para sua volta. O jornal Sueddeutsche Zeitung, amigável a Schröeder, diz que ele busca um perfil social democrata melhor do que o do atual líder do partido, Kurt Beck.

Angela Merkel, que não foi clara sobre o assunto, agora enfrenta a possibilidade de Schröeder expor seu blefe. Ela poderia ignorá-lo, mas assim Schröeder não seria questionado, e falaria com a voz mais forte da Alemanha, do lado da Rússia. Isso enquanto todos os partidos de oposição do Bundestag, além dos sociais democratas da coalizão, também se alinham contra o escudo.

Até agora, Merkel parece pensar que pode evitar tomar uma posição dizendo que é um assunto para a Otan e para a UE - apesar de o resto da Europa não demonstrar tremores sobre o escudo e de ser mais um dilema alemão do que uma possibilidade de divisão européia.

No caso de Merkel o problema não é simples.

De um lado, ela tem que levar em consideração a profunda impopularidade dos EUA em seu país. Se ela responder a Schröeder, Merkel estará enfrentando um mestre neste território, um homem de quem ela disse: "Está totalmente claro que ele serviu (como candidato e chanceler) um antiamericanismo latente e muito presente" na Alemanha.

Se dissesse a Putin diretamente que os temores da Rússia sobre um sistema defensivo mínimo são uma polêmica hipócrita, Merkel estaria indo contra o reflexo alemão. A tradição alemã de promover relações sem confrontos com a Rússia claramente pesa agora nos índices de popularidade dos políticos - e freqüentemente tem um papel em uma postura de vista grossa.

Na semana passada, Gerd Koenen, co-vencedor do Prêmio da Feira de Livros de Leipzig para Compreensão Européia por seu livro "Der Russland-Komplex", advertiu sobre as ilusões alemãs em relação à Rússia e disse que Putin, como Lênin e Stalin, novamente tornou a Alemanha um objeto das "ambições de poder mundiais renovadas" da Rússia. Um jornal citou as observações de Koenen como um tapa em Schröeder.

Mesmo assim, há um desequilíbrio na luta pelos corações e mentes alemães. Do lado atacante, há a linha dura de Beck, Schröeder e de seu ex-chefe de gabinete Frank-Walter Steinmeier, agora ministro de relações exteriores. Quase ninguém de importância nacional lidera um contra-ataque.

Exemplo - Steinmeier no Bundestag: "Deixe-me dizer que a superioridade militar, por si só, não pode forçosamente estabelecer amizade ou paz. Por esta razão, eu gostaria de pedir aos EUA que pensassem cuidadosamente sobre o preço que teriam de pagar se tivessem que forçar os países a concordarem com bases de mísseis, especialmente levando em conta que as armas de longo alcance iranianas das quais devem nos proteger ainda não existem."

Forçosamente? Ao indicar que poloneses e tchecos seriam forçados pelos EUA a aceitar o escudo enquanto omite as recentes ameaças dos russos a eles, Steinmeier reforça o argumento de Moscou.

Steinmeier e Schröeder foram questionados, mas por um escalão de poder de fogo mais baixo, que não tem igual ressonância dentro da opinião pública alemã.

A melhor resposta a eles veio de Hans Ulrich Klose, democrata social e vice-diretor do comitê de relações exteriores do Bundestag, que disse em programa de rádio: a idéia de que os interceptores poderiam ameaçar a Rússia é "militarmente, em minha opinião, absurda".

De fato, a posição particular de Merkel sobre o escudo, como dizem dentro de seu partido, é que é uma boa idéia que poderia proteger a Alemanha do Irã.

Ainda assim, há uma grande distância entre o ponto de vista de Merkel e ela defendê-lo abertamente. A realidade é que os alemães não ouvem a mais alta autoridade nacional cristã democrata falar do escudo. De fato, os cristãos democratas dizem que Merkel continua a ver o relacionamento transatlântico como vital e que ela quer criar "uma nova proximidade" entre os EUA e a Europa pela criação de uma área orgânica de comércio comum.

Mas Merkel também é descrita como "líder a sua própria maneira". Isso significa que ela está convencida de que os alemães não querem brigas no governo. Ou seja, que seus objetivos de longo prazo serão mais bem servidos se não der mais substância a um confronto interno alemão sobre o escudo.

A Alemanha liderada por Merkel continua insistindo que quer assumir maior responsabilidade européia e mundial. Diante do ressurgimento de Schröeder como advogado da Rússia em modo de ataque antiamericano, surge a questão se a política de imprecisão de Merkel corresponde ao papel de liderança no centro das aspirações da Alemanha. Deborah Weinberg

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