"Vale Solar" em terra nublada

Andréas Tzortzis
em Frankfurt an der Oder, Alemanha

Até a chegada da empresa de energia Conergy, o esqueleto vazio de uma fábrica de chips de silício nesta cidade na fronteira com a Polônia era apenas outro monumento às promessas econômicas fracassadas da Alemanha Oriental.

A fábrica foi abandonada depois que um consórcio da Intel com investidores de Dubai se retirou, mas agora está zumbindo de atividade novamente. Operários de capacete azul estão acrescentando um segundo andar e instalando máquinas modernas de limpeza de silício. Quando estiver terminada, no início do verão, a nova planta de produção de placas cristalinas, células e módulos solares da Conergy, também será uma das mais modernas do mundo. "É como ganhar na loteria", disse Martin Patzelt, prefeito da cidade. "Uma situação em que todos saem ganhando."

Apesar de pouco famosa por um clima ensolarado, a Alemanha atualmente é o maior mercado solar do mundo, responsável por 55% da produção global de energia solar, de acordo com a Solarbuzz, empresa de consultoria e pesquisa.

Como resultado, o país também está criando um "vale solar" de empresas verdes, fomentado por um programa de subsídio do governo cujo sucesso inspirou iniciativas similares desde a França até à Grécia. Empresas de energia solar alemãs e estrangeiras estão estabelecendo plantas de produção em um ritmo veloz para responder à demanda de painéis e módulos solares em torno do mundo.

No entanto, alguns analistas estão advertindo contra a euforia em torno da fonte de energia que ainda tem que provar sua eficácia de custo sem apoio do governo, especialmente em um país nublado como a Alemanha. "Os consumidores calculam muito e, se deixar de ser vantajoso para seus bolsos, partirão", disse Matthias Fawer, analista de sustentabilidade do Banco Sarasin de Zurique.

Com o Ato de Energias Renováveis, medida importante aprovada em 2000, a Alemanha comprometeu-se a dobrar a percentagem de energia renovável em seu fornecimento total de energia até 2010. Também foi criado um mercado para energias renováveis como solar e eólica, com a ajuda de um programa generoso de preços.

Fundos da União Européia destinados a regiões em dificuldade econômica ajudaram a direcionar muitas das novas fábricas para a antiga Alemanha Oriental. Nos últimos cinco anos, 21 empresas de produção ou pesquisa em células solares, inclusive líderes globais com base na Alemanha, como Q-Cells e SolarWorld, estabeleceram operações na região, em áreas conhecidas desde a reunificação por suas dificuldades com o desemprego, violência de direita e fuga de jovens trabalhadores para ambientes mais prósperos. "A lei alemã tornou possível o nosso sucesso, e agora somos capazes de dar algo em troca", disse Stefan Heyn, gerente de projeto da Conergy para a operação de Frankfurt.

No total, a indústria solar teve vendas de 3,8 bilhões de euros, ou cerca de R$ 7,5 bilhões, na Alemanha no ano passado, e está crescendo a um ritmo de cerca de 20% ao ano. A indústria emprega mais de 53.000 pessoas na Alemanha e espera acrescentar 5.000 vagas neste ano, de acordo com a Associação Solar Alemã.

Isso torna o setor solar, junto com o automotivo e de alta tecnologia, "definitivamente uma das maiores indústrias no Leste. É certamente o de maior crescimento", disse Ralf Segeth, especialista em energias renováveis do Conselho Industrial de Investimento, financiado pelos seis Estados da Alemanha Oriental e pelo governo federal.

A proximidade de importantes institutos de pesquisa em tecnologia como o Fraunhofer Institute, que tem vários escritórios na Alemanha Oriental, ajudou a atrair empresas envolvidas na produção de placas cristalinas, células e módulos solares, disse Carsten Körnig, diretor da Associação Solar Alemã.

Nos próximos dois anos, sete empresas vão montar instalações de produção em Brandenburgo, Saxônia e Berlim, gerando milhares de novos empregos em um país onde o índice de desemprego girou em torno de 10% de 1994.

Ainda assim permanecem preocupações sobre a viabilidade de longo prazo da energia solar. Este tipo de energia renovável continua sendo um dos mais caros, e funis na produção do silício global no ano passado aumentaram os preços e reduziram a demanda, de acordo com um estudo do Banco Sarasin. "Os últimos dois anos desapontaram, porque todos esperavam que os preços fossem cair", disse Fawer, analista do Sarasin.

Sob a lei alemã, operadores das redes de eletricidade devem pagar aos fornecedores de energia solar, sejam residências privadas ou fazendas solares, 50 centavos por kilowatt hora. O custo é 30 centavos acima do preço para formas de energia tradicionais. A tarifa fixa é garantida pela lei até 2020, mas deve cair 5% por ano.

Fawer disse que a pressão do governo para reduzir o preço da energia solar, para que se aproxime do das outras formas de energia, vai aumentar quando os legisladores revirem o ato neste ano. Mas ele e outros analistas da indústria não vêem muito risco de a indústria perder o apoio do governo que ajudou a criá-la.

"A Alemanha é líder em tecnologia, e empregos foram criados. De um ponto de vista político, é importante", disse Fawer. Mas as empresas solares na Alemanha, um país que teve em média 1.789 horas de sol no ano passado, comparadas com 2.800 horas na Espanha, estão conscientes que seu futuro pode estar no exterior. A SolarWorld, Q-Cells e outras estão investindo em empresas menores e fábricas no Sul da Europa e nos EUA.

No entanto, apesar de expandirem para fora da Alemanha, executivos da indústria solar continuam insistindo que não vão abandonar suas instalações de produção e pesquisa no Leste do país.

Frankfurt an der Oder, nos próximos meses contará, além da Conergy, que tem sede em Hamburgo, com a empresa americana First Solar, com sede em Phoenix, Arizona, e uma empresa local, Oder Sun. Quando estiverem funcionando, estima-se que cerca de 1.500 empregos serão criados em uma cidade em que 5.645 pessoas estão desempregadas.

Patzelt, o prefeito, disse que há muito em jogo para a região mudar de idéia. Depois do fracasso do projeto da Intel, ele enxugou os processos municipais, como licenças de construção e conexões de água, e formou uma agência que responde diretamente às necessidades de cada investidor. "Nós vimos que precisávamos contar com nossas próprias forças", disse Patzelt em entrevista. "Para reagir mais rapidamente tivemos que nos reorganizar."

Mais de 2.000 pessoas lotaram o salão no qual a First Solar, Conergy e outras montaram balcões durante uma feria de empregos em Frankfurt an der Oder, em dezembro. Outras 3.000 esperavam do lado de fora.

Quando atingir plena capacidade no próximo ano, a fábrica da Conergy em Frankfurt vai produzir 1,2 milhão de módulos solares por ano. A cidade, ao que parece, já está colhendo frutos. "Muitos estão tentando conseguir emprego aqui neste momento", disse Sylvia Lehmann, moradora recentemente contratada pela Conergy. "O ambiente melhorou enormemente."

Körnig, diretor da Associação Solar Alemã, disse que havia razão para se acreditar que os bons tempos continuarão. "Há muitas sinergias diferentes nesses pontos de concentração de empresas de energia solar", disse. "Haverá trocas permanentes entre elas. Por que partiriam?" Como a Alemanha Oriental se tornou um centro improvável de energia alternativa Deborah Weinberg

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