A Polônia está esperando pela sua liberdade

Adam Michnik*

Por muitos anos, a denominação de Europa Central esteve ausente do vocabulário americano. Uma simples expressão era utilizada no lugar: o bloco soviético.

A integração à União Européia da Polônia, da Hungria, da República Tcheca, da Eslováquia, dos Estados bálticos, e mais recentemente da Bulgária e da Romênia provoca mudanças não só na dimensão simbólica da língua, como também nos planos geopolítico e espiritual. Ainda dentro do bloco soviético, nós já negociávamos em favor da União Européia, da qual a idéia tomou forma jurídica pela primeira vez 50 anos atrás, no domingo passado (25/03).

A história polonesa em relação à Europa é bastante diferente das histórias francesa ou alemã, espanhola ou portuguesa. Em setembro de 1939, o nosso país foi vítima de uma dupla agressão: do Terceiro Reich de Hitler no dia 1º daquele mês, e da União Soviética de Stalin no dia 17.

Num fim de tarde de janeiro de 1940, os habitantes da Polônia ocupada puderam ouvir um discurso de Winston Churchill nos seus aparelhos de rádio ilegais. "No conflito amargo e cada vez mais exigente que nós temos pela frente", disse Churchill, "nós estamos decididos a não medir esforços, e a não nos deixar sobrepujar por nada em nossa missão a serviço da causa comum. Que as grandes cidades de Varsóvia, de Praga, de Viena expulsem o desespero, mesmo em meio à sua agonia. A sua liberação é certa. Chegará o dia em que os sinos da alegria voltarão a dobrar por toda a Europa; o dia em que as nações vitoriosas, fortes de um domínio não só sobre aquelas que elas derrotaram como também sobre si mesmas, planejarão e construirão com espírito de justiça, dentro da tradição e em toda liberdade, uma comunidade de muitas mansões onde haverá lugar para todos".

Para aqueles dentre nós que, durante os nossos anos de oposição democrática ao poder comunista, passaram pelas provas das atividades subterrâneas e das prisões, este dia feliz chegou há quatro anos, quando, num referendo nacional, os poloneses decidiram por uma maioria decisiva aderir à União Européia. Um sonho que fora mantido vivo durante anos tornou-se realidade.

Qual era o conteúdo deste sonho? Democracia em vez de ditadura; pluralismo em vez de monopólio; leis em vez de um Estado de não direito; a liberdade da imprensa em vez da censura; a diversidade no lugar da conformidade; fronteiras abertas e não cercas de arame-farpado; a tolerância em vez de uma ideologia dominante; a criatividade no lugar da obediência cega; a possibilidade de instaurar o bem-estar social e o desenvolvimento em vez da pobreza e do retrocesso. E, por fim, no que vem a ser mais importante ainda, nós sonhávamos com um direito do homem à dignidade, e com o fim da sujeição de cada pessoa à condição de propriedade do Estado.

Durante o referendo sobre o ingresso da Polônia na UE, quatro anos atrás, este sonho revelou ser bem mais convincente para os poloneses. Mas agora que o sonho está ao nosso alcance, a Polônia e outros países da Europa do Leste optaram por voltar as costas para ele. Dos três partidos que integram o governo de coalizão que ascendeu ao poder nas eleições nacionais polonesas, um ano e meio atrás, o mais importante, o Partido da Lei e da Justiça, estava dividido internamente em relação à questão do ingresso da Polônia na União Européia. Os outros dois se mostraram abertamente céticos. Lamentavelmente, a lista de realizações e sucessos desses partidos no exercício das suas funções no governo é desprezível de tão escassa, e a simples idéia de comentar alguns dos seus aspectos específicos desperta um sentimento de vergonha.

Em vez de tirar proveito do seu estatuto de membro da UE para impulsionar o país para frente, o governo de coalizão polonês está olhando, e se movimentando para trás. Num discurso no Parlamento europeu, um político integrante de um dos partidos da coalizão fez o elogio das ditaduras de Antonio Salazar no Portugal (1932-1968) e de Francisco Franco na Espanha (1939-1975); ele também publicou uma brochura de teor abertamente anti-semita. Durante um verão muito seco, um grupo de deputados da coalizão fez um apelo ao Parlamento para rezar por chuva. Um grupo similar propôs que o Parlamento votasse no sentido de declarar Jesus Cristo o Rei da Polônia. Os bispos poloneses criticaram duramente este ato peculiar de devoção.

A mais recente idéia do governo de coalizão polonês é a da "purificação", o que significa procurar e então banir da vida pública todas as pessoas que tiverem atuado como colaboradoras secretas dos serviços de segurança entre 1944 e 1990. A busca deverá durar mais de 17 anos e diz respeito a cerca de 700.000 pessoas, inclusive juristas, gerentes de banco, membros de diretorias, empregados civis, pesquisadores e jornalistas. Cada cidadão tem por obrigação declarar se ele foi ou não um colaborador. Se alguém se negar a fazer tal declaração ou mentir ao fazê-la, ele será proibido de trabalhar no seu campo profissional por 10 anos.

A lei da purificação foi recebida com um tiroteio de críticas e se encontra no processo de ter a sua validade questionada junto ao Tribunal Constitucional. Muitas pessoas já declararam que elas não se submeterão a este procedimento humilhante, que lhes relembra dos votos de lealdade exigidos pelas autoridades comunistas durante a lei marcial dos anos 1980. Eu sempre considerei absurdo julgar quem quer que seja apenas com base em relatórios de polícia e denúncias - e mais absurdo ainda acreditar que num país onde tudo era mentira, os serviços de segurança fossem a única instituição guiada por um respeito evangélico pela verdade. E não fiquei nem um pouco surpreso ao ver que aqueles que haviam sido identificados como colaboradores foram exonerados mais tarde por tribunais independentes.

A coalizão no governo emprega uma combinação peculiar de retórica conservadora à George W. Bush e de práticas políticas à Vladimir Putin. Os seus ataques contra os veículos de comunicação independentes, a redução do papel da sociedade civil, a centralização do poder e a exageração dos perigos externos e internos tornam os estilos políticos dos atuais líderes da Polônia e da Rússia muito similares. Enquanto isso, na política externa da Polônia, as relações com a Rússia e a Alemanha são marcadas por uma preocupação com eventos da Segunda Guerra mundial, que inclui o campo de concentração de Auschwitz e o massacre pelos soviéticos de oficiais poloneses na floresta de Katyn.

Essas obsessões conduzem ao isolamento da Polônia e equivalem a ressuscitar os demônios da história européia.

Estou escrevendo a respeito da Polônia, mas o que digo se aplica da mesma forma a muitos países da Europa pós-Yalta (1945). Em todo lugar, o fenômeno do populismo ficou em evidência. A Eslováquia está sendo governada por uma coalizão populista étnica que vem a ser tão exótica quanto o governo polonês, e que inclui um partido que propôs expulsar a minoria húngara.

Na Hungria, o primeiro-ministro admitiu que na tentativa de convencer a população do valor de promessas que o governo não poderia cumprir, "nós mentimos dia e noite". A oposição populista de direita rebateu, chamando-o de "traidor, porco comunista!".

Na Lituânia, o ex-presidente, que sofreu um processo de impeachment por corrupção, tornou-se cada vez mais popular com uma abundância de promessas vazias durante a sua campanha para tornar-se prefeito de Vilnius. O presidente da República Tcheca, por sua vez, andou fazendo declarações sucessivas contra a União Européia.

O populismo pode tomar a forma de um pós-comunismo nostálgico ou de um anticomunismo com uma face bolchevista; ele pode também combinar essas duas tendências. A sua característica comum é o medo da mudança e a fuga da liberdade. Os que perderam com a transição rumo ao abandono do comunismo estão tendo a sua revanche sobre os seus vencedores. É possível que a indiferença demonstrada por aqueles que conduziram a transição para com os dramas dos perdedores tivesse preparado o caminho para o sucesso eleitoral dos populistas. Mas, depois das eleições, os populistas estão descobrindo o quanto é difícil corresponder às expectativas daqueles que acreditam que receberão uma dádiva dos céus.

Mas, mesmo que tais coisas estejam ocorrendo, os resultados concretos da incorporação da Polônia à União Européia têm sido quase que plenamente positivos.

O dinheiro da União injetou energia na economia polonesa e desenvolveu a sua infra-estrutura - ou seja, modernizou a Polônia. Para os poloneses, os outros países da União permanecem abertos: eles encontram trabalho aqui, estudam acolá, aprendem sobre o mundo. A União é uma aventura maravilhosa para os poloneses.

Todas as pesquisas de opinião indicam um firme apoio à União e um descontentamento crescente com o governo de coalizão.

Para os seus novos países-membros, a União Européia não é apenas um fornecedor de recursos materiais, mas também um modelo no que diz respeito às suas tradições democráticas e à sua cultura política fundamentada no pluralismo e na tolerância. O seu elenco de valores - enraizados nas tradições do Cristianismo e no Iluminismo, com o seu pensamento democrático e antitotalitário - é bem conhecido. Cabe aos novos membros da UE fazer bom uso desses valores, e proporcionar à União o que eles têm de melhor.

Isso porque a Europa é ela mesma uma obra em progresso, e a Polônia e os outros países recém incorporados têm muito para contribuir para o seu desenvolvimento, caso eles optarem por fazê-lo. Entre as novas questões para as quais a União vem buscando respostas estão o lugar do cristianismo na vida pública e os limites do multiculturalismo no que diz respeito à presença do Islã. Assim, da mesma forma, a política externa da Europa está em processo de alteração contínua, particularmente no que diz respeito às suas relações com os Estados Unidos e a Rússia.

Para um polonês, é evidente que uma aliança euro-atlântica forte traz esperanças para a consolidação da liberdade das nações. É por isso que a Polônia deveria ajudar a superar as fobias antiamericanas na Europa, no interesse da União e no seu próprio. A política externa da União Européia - especialmente em relação à Rússia e a outros Estados que pertenciam à ex-União Soviética - pode ser enriquecida pela experiência polonesa, mas somente se o governo polonês se dispuser a compartilhar essa experiência. Será que ela vai querer? Não tenho certeza.

Entretanto, mesmo com uma má liderança, a Polônia permanece democrática e soberana. Os tempos da ditadura ensinaram aos poloneses que eles precisam defender a sua liberdade, e isso é o que eles sabem fazer melhor. Eles provarão isso na próxima eleição. E a União Européia continuará sendo a aliada desta liberdade.

*Adam Michnik, o editor em chefe do diário polonês "Gazeta Wyborcza" e autor de "Cartas da Liberdade" Agora que o sonho da União Européia está ao seu alcance, o país pode pôr tudo para perder Jean-Yves de Neufville

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