Poderia ser o anti-Iraque

Nicholas Dungan
Em Nova York

A situação iraniana em constante mudança é um teste para a determinação da aliança transatlântica. Se o Ocidente de fato permanecer unido, sua forma de lidar com o Irã poderá ser um sucesso histórico - o "anti-Iraque". Historicamente, americanos e europeus vêem as ameaças globais de forma diferente. Para os americanos, a ameaça é agressão, baseado em sua experiência na Segunda Guerra Mundial.

A lição que os americanos extraíram daquela guerra é levar a sério as declarações extravagantes de tiranos, resistir ao totalitarismo e usar a força a tempo. Para os europeus, a ameaça é autodestruição, com base em sua experiência na Primeira Guerra Mundial. A lição que os europeus extraíram daquela guerra é negociar as diferenças, dar uma chance à paz e proteger a civilização ocidental.

Além disso, há dentro dos Estados Unidos duas escolas concorrentes de política externa - uma atlanticista, internacionalista, realista; a outra é jacksoniana, idealista, os Estados Unidos em primeiro lugar - um cabo-de-guerra de autores de políticas puxando em direções contrárias. Depois do 11 de Setembro, os Estados Unidos recorreram ao seu destino manifesto, ao conosco ou contra nós, à auto-imagem de diplomacia armada e declararam "guerra ao terror". Os aliados dos Estados Unidos na Europa esperavam precisamente o oposto - que a exposição dos Estados Unidos ao terrorismo em seu próprio solo, algo que a Europa conhece há séculos, aproximaria um pouco mais as avaliações européias e americanas de ameaças.

Diferente da experiência com o Iraque há quatro anos, não deve ser permitido que a questão do Irã divida o Ocidente. Se enfrentada inadequadamente, a questão iraniana poderá injetar uma nova dose de veneno nas relações Ocidente-Ocidente que exigiria uma geração para ser dissipada. Isto representaria uma miríade de oportunidades perdidas para as potências ocidentais buscarem seus interesses conjuntos em um mundo globalizado. Se enfrentada adequadamente, o Irã poderá provar ser uma cooperação exemplar Ocidente-Ocidente.

Historicamente, o Irã é o anti-Iraque. O Iraque foi criado por uma canetada pela Liga das Nações em abril de 1920 a partir das ruínas do império Otomano, enquanto o império Persa se mantém um Estado unido desde Ciro, o Grande, em 550 a.C. Uma fraqueza crônica da Pérsia era sua submissão freqüente à influência de outros impérios. Assim, o Irã desconfia dos Estados Unidos como potência global e ao mesmo tempo busca o reconhecimento americano da legitimidade iraniana.

Militarmente, o Irã é novamente o anti-Iraque. A ameaça nuclear iraniana, apesar de não iminente, é claramente genuína e vista como tal por todas as grandes potências. Nem a ameaça está confinada a um míssil armado com ogiva nuclear que o Irã poderia lançar dentro do Oriente Médio; igualmente sérios são os riscos de um míssil voltado contra a Europa, uma bomba nuclear suja detonada em uma cidade européia ou americana, ou a proliferação nuclear entre organizações terroristas. Politicamente, o Irã é o anti-Iraque porque, diferente da mão de ferro de Saddam Hussein, o apoio ao presidente Mahmoud Ahmadinejad em uma sociedade iraniana mais pluralista está longe de ser firme.

Ahmadinejad despontou como o perdedor nas eleições municipais de dezembro de 2006 e é criticado por grandes segmentos da população e da estrutura de poder por sua retórica internacional ultrajante e pelo aumento da inflação e do desemprego. Diplomaticamente, o Irã é o anti-Iraque porque o restabelecimento das relações com o Irã é o primeiro passo para um acordo abrangente no Oriente Médio, especialmente com o fortalecimento da mão do Irã causado pelo vácuo de poder no Iraque.

A recente visita de Ahmadinejad à Arábia Saudita aponta para a esperança de uma superação da divisão xiita-sunita; a presença do Irã na conferência regional sobre a segurança no Iraque ao lado dos Estados Unidos pode acelerar sua inclusão em um diálogo mais amplo - e acalmar os nervos em Israel. Mas estrategicamente, o Irã será o anti-Iraque apenas se os membros da parceria transatlântica -com os Estados Unidos e a França à frente- se mantiverem uniformemente firmes e uniformemente flexíveis, falarem com uma só voz e continuarem desenvolvendo e executando as políticas juntos.

*Nicholas Dungan é presidente da Fundação Franco-Americana George El Khouri Andolfato

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