Estratégias eleitorais francesas confundem especialistas dos EUA

Katrin Bennhold
Em Paris

Uma equipe de estrategistas de campanha eleitoral dos EUA chegou à capital francesa esta semana com alguns conselhos não solicitados para os candidatos à eleição presidencial.

Ségolène Royal, a elegante socialista que quer ser a primeira mulher a habitar o Palácio do Eliseu? Ela jamais deveria ter posado de biquíni. "Você quer parecer uma comandante-em-chefe, especialmente como mulher", disse Barbara Comstock, que ajudou George W. Bush a se eleger presidente. "O único candidato que poderia sair bem fotografado de biquíni nos EUA é Barack Obama", ela acrescentou.

Nicholas Sarkozy, o ex-ministro do Interior linha-dura e principal candidato da centro-direita? Deveria parar de tentar atenuar sua imagem de durão. "As pessoas não votam nele porque está sorrindo", disse Michael Murphy, que ajudou a colocar o republicano Arnold Schwarzenegger na mansão do governador da Califórnia. Comstock, Murphy e seus colegas foram convidados a Paris pela Fundação Franco-Americana para conhecer as estratégias de Internet empregadas pelos diversos candidatos.

Com o primeiro turno da disputada eleição francesa daqui a pouco mais de uma semana, sua viagem de quatro dias também foi uma vívida ilustração do choque transatlântico de culturas políticas, e não somente porque três dos seis americanos eram negros e dois eram mulheres.

A primeira escala foi na sede do Partido Socialista, na margem esquerda do Sena. Depois de uma longa apresentação de um assessor de Royal sobre sua principal idéia, a "democracia participativa" (ilustrada por um gráfico em cartolina mostrando conexões da web com o título "Ségolène"), David Mercer, um angariador de fundos para Hillary Clinton, levantou a mão e perguntou: "Como a senhora vai traduzir isso em votos?"

O porta-voz deu um sorriso indeciso e disse que não acreditava em pesquisas de opinião, que mostram Royal atrás de Sarkozy há três meses. Jamal Simmons, que trabalhou na campanha de Bill Clinton em 1992, parecia perplexo: "Mas quais grupos de eleitores o senhor tem visado nos últimos dez dias? Eleitores urbanos? Rurais? Que faixas etárias?" Outro sorriso indeciso: "Estamos falando para toda a população francesa", disse o porta-voz, Arnaud Montebourg, explicando que Royal havia compilado cem propostas presidenciais de milhões de contribuições na web e em debates em prefeituras.

"São 99 em excesso", Murphy resmungou mais tarde. "O que o senhor precisa é de uma mensagem." Essas cenas se repetiram na sede da campanha de François Bayrou, o novato de centro que desafia os outros dois prometendo curar uma França fraturada.

Os três candidatos publicaram livros nos últimos dois meses, mas nenhum deles usou grupos de opinião no estilo americano? "É uma maneira muito diferente de conduzir campanhas", disse Mercer. "E por que eles estão tão calmos?", ele acrescentou, olhando o pessoal da campanha de Bayrou tomando café do lado de fora, sob o sol da manhã.

Houve descrença quando os americanos souberam que havia três candidatos trotskistas, um comunista e um ativista antiglobalização, e total incredulidade quando souberam que os 12 candidatos haviam recebido o mesmo tempo de exposição na TV nas últimas duas semanas da campanha: 45 minutos cada. O conteúdo dos anúncios de televisão também é regulamentado: os candidatos não podem atacar seus adversários ou mostrar símbolos franceses como a bandeira ou o palácio presidencial.

"E vocês usam mensagens de texto em sua campanha?", Simmons perguntou a um membro da equipe de Sarkozy. Eles usavam, mas foi proibido em 4 de janeiro. "Há muitas regras neste país", comentou Whitfield Ayres, um republicano que trabalhou nas campanhas para o Senado de Bill Frist e Lamar Alexander, do Tennessee.

Mas o maior choque cultural talvez seja o que se refere a dinheiro. Os candidatos franceses podem gastar no máximo o equivalente a US$ 22 milhões antes do primeiro turno em 22 de abril, e uma parte substancial desse dinheiro vem do Estado. Nos EUA, os candidatos tendem a abdicar dos subsídios do Estado, que vêm com limites estritos, e preferir doações privadas que não são submetidas a um teto. Hillary Clinton levantou US$ 26 de milhões só no primeiro trimestre deste ano, uma fração da soma que provavelmente gastará até a eleição em novembro de 2008. "Se você me impede de gastar dinheiro em um anúncio na televisão está violando minha liberdade de expressão", disse Ayres. "Além disso, angariar dinheiro para nós é um símbolo de popularidade - é uma maneira de se qualificar para uma eleição."

Na França os candidatos devem obter 500 assinaturas de políticos eleitos para qualificar-se à disputa eleitoral. "Esse é o nosso símbolo de popularidade", disse Olivier Piton, oficial de assuntos públicos na embaixada francesa em Washington, que acompanhou o grupo americano a Paris.

As duras restrições financeiras e regras de publicidade eleitoral na França podem ter um lado positivo, contribuindo para um uso melhor da Internet. O site de Sarkozy, em particular, impressionou os visitantes americanos com seus 17 canais de vídeo apresentando tudo, desde os discursos do candidato até uma seção no estilo YouTube com vídeos caseiros de seus seguidores cantando. "Esta é a estratégia de web-TV mais elegante que vi", disse Murphy, que imediatamente mandou o link para seus colegas em Washington. "E está um clique à frente de nós. E, sim, vamos roubá-la." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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