Sarkozy e Royal tentam atrair eleitores que podem inclinar a balança

Katrin Bennhold
Em Paris

Uma proposta heterodoxa circulou na segunda-feira na sede do Partido Socialista em Paris: François Bayrou, o candidato centrista que perdeu para Ségolène Royal no primeiro turno das eleições presidenciais, poderia ser seu primeiro-ministro se ela ganhar no segundo turno, em 6 de maio?

AFP 
Principal alvo das campanhas de Sakozy e Royal é a conquista dos eleitores de Bayrou

Do outro lado da cidade, no elegante quartel-general em estilo americano da campanha do rival de Royal, Nicolas Sarkozy, os assessores estavam atarefados montando uma estratégia sobre quais altas personalidades do movimento de Bayrou poderiam ser ministros em um governo Sarkozy.

Em ambas as campanhas, os assessores de Sarkozy e de Royal começaram a cortejar agressivamente os 6,8 milhões de eleitores que atenderam ao chamado centrista de Bayrou. Esses eleitores, uma mistura colorida de centristas empedernidos, socialistas desiludidos e conservadores temerosos de Sarkozy, provavelmente poderão decidir quem será o próximo presidente da França.

Bayrou não deverá apoiar nenhum de seus adversários. Mas antes de uma entrevista coletiva na quarta-feira, em que ele poderá anunciar a formação de um novo partido, assessores da esquerda e da direita lutavam para encontrar um terreno comum com seu movimento.

O porta-voz de Royal, Arnaud Montebourg, que dias atrás acusou Bayrou de "não ter programa nem idéias", insistiu na segunda-feira que os socialistas defenderam "exatamente" a mesma idéia de "compromisso político duradouro" que Bayrou empunhou em sua campanha.

François Fillon, que poderá ser o primeiro-ministro de Sarkozy caso ele vença, disse que um governo gaullista deveria ter "um pólo esquerdista" e um "pólo centrista", uma sugestão que se parece muito com a idéia de Bayrou de um governo de união nacional.

Royal, que perdeu de Sarkozy por 5 pontos percentuais no primeiro turno, é quem mais precisa do centro. Uma parte da estratégia de sua equipe é utilizar mais os socialistas que gozam de confiança em círculos centristas, como Dominique Strauss-Kahn, um reformista e ex-ministro das Finanças, ou Jacques Delors, um ex-presidente da Comissão Européia, com quem ela se reunirá nesta terça-feira.

Outra parte é intensificar os apelos para se votar contra Sarkozy, cuja personalidade mostrou-se um poderoso grito de batalha para os socialistas.

Também foi o principal motivo pelo qual cinco candidatos de esquerda eliminados no domingo pediram com relutância que seus seguidores agora apóiem Royal.

Segundo Sophie Bouchet-Petersen, redatora dos discursos de Royal, o slogan "Qualquer coisa menos Sarkozy" também poderá funcionar com alguns eleitores de Bayrou. Mas o verdadeiro desafio, segundo ela, seria lhes dar uma razão para votar em Royal, e não apenas contra Sarkozy. "Precisamos nos concentrar nos valores fundamentais que compartilhamos", disse Bouchet-Petersen. "A aspiração por mudanças dos eleitores de Bayrou é muito próxima da nossa."

Em vez de salientar as propostas econômicas de esquerda que sua campanha apresentou até domingo, Royal vai se concentrar nas partes de seu programa que mais se parecem com o de François Bayrou. Nesta segunda-feira (23/4), socialistas importantes estavam trabalhando em uma lista de propostas que poderão ser a base para a cooperação com o lado de Bayrou. Essa lista será enviada para o candidato centrista por escrito ou anunciada publicamente por Royal nos próximos dias, disse um oficial.

Uma proposta da lista é a reforma institucional, como dar mais poder ao Parlamento e acrescentar uma dose de proporcionalidade à eleição legislativa, um dos principais temas de campanha de Bayrou. Outra é tornar o setor público mais eficiente e o Estado "imparcial", e não refém das influências corporativas ou da mídia, outra questão de que Bayrou falou com freqüência.

Mas, como acontece muitas vezes no Partido Socialista, as altas fileiras estavam profundamente divididas sobre a estratégia, com alguns pedindo abertamente uma aliança com Bayrou e outros descartando-a categoricamente.

"É uma oportunidade histórica para o Partido Socialista criar a democracia social, fazer uma aliança aberta com Bayrou", disse Bernard Kouchner, ex-ministro da Saúde socialista que vem defendendo essa aliança há semanas. "Mas seremos suficientemente audaciosos para propô-la? E Bayrou a aceitará? Não sei."

Laurent Fabius, um ex-primeiro-ministro, disse que uma aliança está fora de questão porque o partido de Bayrou está demasiado à direita. Os primeiros comentários de Royal depois de sua vitória contra Bayrou no domingo refletiram essa ambigüidade. Ela prometeu "dar a mão a todos ao meu redor que acreditam que não apenas é possível, mas urgente, deixar para trás um sistema que não funciona mais".

Mas foi um discurso demorado que não se comparou ao pronunciamento rápido de seu rival uma hora antes, que marcou claramente o início de sua nova campanha para o centro. "Eu só quero uma coisa", disse Sarkozy. "Unir a população francesa atrás de um novo sonho francês, o de uma República fraterna onde todos encontrem seu lugar, onde ninguém mais tenha medo do outro, onde a diversidade será vivida não como uma ameaça, mas como um prêmio. Essa França fraterna me deu tudo. Eu lhe devo tudo. E quero continuar retribuindo tudo", disse Sarkozy, que é filho de um imigrante húngaro e cuja campanha no primeiro turno muitas vezes se caracterizou pela linguagem dura sobre lei, ordem e imigração.

Jean-Louis Borloo, o ministro de Relações Sociais, sugeriu que os centristas deveriam ser "maciçamente representados" em um governo Sarkozy. A estratégia gaullista não é apenas um chamariz. Mais da metade dos 29 centristas no Parlamento foram eleitos em circunscrições onde os gaullistas não elegeram deputados.

Dois meses antes das próximas eleições parlamentares, em junho, Bayrou declarou como prioridade estabelecer seu novo movimento na Assembléia Nacional. Como disse na segunda-feira um importante membro do partido de Sarkozy, "se eles quiserem manter seus assentos no Parlamento, seria aconselhável nos ajudarem".

Na equipe centrista de Bayrou, enquanto isso, os oficiais pareciam felizes e desafiadores. Sophie Bege, que vai concorrer como centrista na eleição parlamentar em junho, desafiou os gaullistas a eleger seus candidatos. "Poderá até ser uma vantagem para nós, porque mostra que somos realmente independentes", ela disse. Bege vai enfrentar um rival da esquerda e um da direita em sua circunscrição em Vichy. "De repente temos muitos novos amigos", disse Marielle de Sarnez, a diretora da campanha de Bayrou, em uma entrevista no rádio na manhã de segunda-feira. "Mas não estamos à venda." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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