O ar quente do "circo itinerante" da UE

Dan Bilefsky
Em Bruxelas

A peregrinação mensal do Parlamento europeu, de sua sede em Bruxelas ao seu segundo posto, em Estrasburgo, produz 20.000 toneladas de dióxido de carbono por ano, o que equivale aos gases de efeito estufa produzidos por 13.000 vôos de ida e volta entre Londres e Nova York, de acordo com um estudo a ser divulgado nesta quarta-feira (25/4).

O estudo, encomendando pelo grupo Verde do Parlamento, mostra que o traslado para a sessão plenária mensal da assembléia em Estrasburgo - envolvendo 3.000 membros da equipe, lobistas, autoridades, jornalistas e 15 caminhões de documentos - gera emissões equivalentes ao dióxido de carbono produzido anualmente por 4.000 lares londrinos ou por toda a população das ilhas Turks e Caicos, nas Índias Ocidentais.

O relatório chega semanas depois de a União Européia comprometer-se a cortar emissões de gases de efeito estufa em 20% até o ano 2020. Ele minará a base moral da UE para falar de mudança climática enquanto as principais autoridades ambientais vêm pressionando os cidadãos europeus a evitarem viagens desnecessárias para ajudar a reduzir a produção de gases de efeito estufa.

O transporte rodoviário é responsável por cerca de um quinto de todas as emissões e dióxido de carbono da UE. O relatório, conduzido pelo professor John Whitelegg, da Universidade de York, também vai reforçar a oposição crescente à dupla localização do Parlamento em Bruxelas e Estrasburgo, que custa aos contribuintes da UE mais de 200 milhões de euros, ou cerca de R$ 540 milhões, por ano e tornou-se símbolo do desperdício da União.

Uma vez por mês, em uma noite de sexta-feira, um comboio de 15 caminhões contendo 4.000 caixas metálicas e de papelão cheias de documentos sai da sede do Parlamento em Bruxelas e percorre os 450 km até Estrasburgo.

Mais de um milhão de pessoas do bloco recentemente assinaram uma petição pedindo a anulação desse sistema de duas sedes. "É simplesmente inaceitável que tanto dióxido de carbono esteja sendo emitido desnecessariamente neste circo itinerante anacrônico", disse Caroline Lucas, do grupo Verde do Parlamento do sudeste da Inglaterra, que encomendou o relatório. "O estudo mostra que os custos ambientais desse carrossel mensal desnecessário são mais altos que os produzidos por algumas nações, inclusive alguns dos países que mais correm riscos com o aumento do nível do mar causado pela mudança climática."

O Parlamento europeu tem uma ampla sede em Bruxelas, onde fica três semanas por mês. Mas, como resultado de um tratado de 1992, quatro dias por mês seus 785 membros mantêm sessões em Estrasburgo, uma cidade francesa na fronteira com a Alemanha. Para chegar à cidade, que não tem as mesmas facilidades de conexões aéreas e de trem que Bruxelas, alguns membros do Parlamento, vindos de Glasgow, por exemplo, viajam duas horas para Edimburgo, pegam um vôo de 90 minutos para Frankfurt e de lá são levados por uma minivan parlamentar em mais duas horas de viagem.

Um membro de Galway, no Oeste da Irlanda, teria que dirigir uma hora para o aeroporto mais próximo, tomar um vôo de 40 minutos para Dublin, voar para o aeroporto Baden-Karlsruhe, na Alemanha, e tomar um ônibus de uma hora para Estrasburgo.

Além do custo em tempo, há o custo de manter os nove prédios do Parlamento em três cidades: Bruxelas, Estrasburgo e Luxemburgo. A manutenção custa 206 milhões de euros (em torno de R$ 550 milhões) a mais por ano do que se a assembléia estivesse em um único lugar, de acordo com autoridades do Parlamento europeu que monitoram os custos. Pior, o palácio de vidro do parlamento em Estrasburgo fica vazio na maior parte do ano, observam as autoridades.

O relatório estima que a viagem mensal entre Bruxelas e Estrasburgo produz ao menos 20.268 toneladas de emissões de dióxido de carbono por ano. Em comparação, as nações do Pacífico de Kiribati e Ilhas Cook emitem anualmente 30.000 toneladas. O estudo mediu as emissões totais extra de carbono geradas por mês por membros do Parlamento, seus assessores, jornalistas e outros que viajam entre as duas cidades a cada mês, assim como o custo ambiental do transporte de materiais entre as duas locações e a energia necessária para manter os prédios do Parlamento. Ele conclui que a extinção das sessões de Estrasburgo tornaria desnecessários 2.650 escritórios, uma câmara de debates e quase 50 salas de conferência. Acusações de emissões do Parlamento dividido entre duas cidades Deborah Weinberg

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