75º aniversário do Exército do Povo Norte-Coreano

Choe Sang-Hun
Em Seul

Colunas de soldados acompanhados de mísseis e foguetes marcharam por Pyongyang nesta quarta-feira (25/4) sob o olhar do líder norte-coreano, Kim Jong Il, em uma ousada demonstração de desafio para um país que vive um impasse nuclear com os EUA.

Reuters 
Aparato militar exibido na comemoração simboliza o poder da Coréia de Kim Jong Il

O aparato militar, comemorando o 75º aniversário do Exército do Povo Norte-Coreano, é altamente simbólico para Kim e a Coréia do Norte, que entrou na lista de potências nucleares declaradas depois do teste de uma bomba em outubro passado. A demonstração de força de quarta-feira também mostrou como será difícil tirar as armas nucleares da Coréia do Norte, agora que elas estão firmemente entrincheiradas no nacionalismo norte-coreano.

Nas semanas que antecederam as comemorações, a mídia estatal disse repetidamente que a capacidade nuclear significa que os norte-coreanos podem finalmente sentir-se a salvo de invasores estrangeiros. O crédito, segundo eles, deve-se à política de "songun", ou "exército primeiro", de Kim.

"Sob a liderança do exército primeiro do Grande General, fizemos o possível para reforçar nosso poderio militar de autodefesa", disse o jornal oficial "Rodong" na quarta-feira. Para alguns analistas externos, a abordagem do exército primeiro e as apostas políticas e ideológicas que Kim atrela a essa política levanta sérias questões sobre sua inclinação a abandonar as armas nucleares do país. "Kim Jong Il não vai, e não pode, desistir das armas nucleares", disse Nam Joo Hong, um ex-estrategista do governo sul-coreano para a Coréia do Norte que hoje é professor na Universidade Kyonggi. "Isso vai contra a própria premissa do 'songun'." Outros analistas dizem que a política de exército primeiro de Kim significa que Washington e seus aliados terão de satisfazer as exigências do Norte, não apenas de ajuda econômica maciça, mas também de normalização das relações e outras garantias de segurança antes que Kim possa dizer à sua população que desistirá da bomba nuclear.

"Não acredito que Kim Jong Il vá trocar as armas nucleares por meros benefícios econômicos", disse Peter Hayes, diretor do Nautilus Institute, um grupo de pesquisas baseado em San Francisco. "O principal benefício de se considerar um 'estado nuclear dignificado' que levou 5 mil anos para se formar é político, e não econômico."

Sob um acordo feito em fevereiro, a Coréia do Norte concordou em fechar um reator nuclear em troca de combustível. A questão das armas nucleares foi excluída do acordo e seria tratada separadamente em data posterior. O acordo desde então estagnou por causa do dinheiro norte-coreano congelado em um banco em Macau, com Pyongyang ignorando o prazo de 14 de abril para o fechamento do reator de Yongbyon.

As autoridades de Macau desde então disseram que vão liberar os fundos para seus proprietários, mas nenhum dos titulares das contas se apresentou. (Victor Cha, principal assessor do presidente George W. Bush para a Coréia do Norte, entregou pessoalmente uma mensagem para autoridades norte-coreanas em Nova York, pedindo-lhes que ajam de acordo com a promessa de desarmamento nuclear e dizendo-lhes que a paciência dos EUA é limitada, teria dito uma autoridade americana citada na terça-feira pela Associated Press.) Na essência, a ideologia de Kim põe de lado o Partido dos Trabalhadores, no governo, e eleva as forças militares ao grau máximo de poder.

Sob essa política, o Exército do Povo, que já é o quarto maior do mundo em relação à população total, recebe maior prioridade em alocação de recursos. Slogans nas ruas e nas paredes de fábricas exortam a população a "imitar a maneira do Exército do Povo". As forças armadas da Coréia do Norte, com 1,2 milhão de soldados regulares, são a quinta maior do mundo em número e a terceira maior quando se acrescenta seus 6 milhões de reservistas.

Cerca de 70% das forças armadas estão mobilizadas perto da fronteira com a Coréia do Sul, onde os militares americanos mantêm bases. Embora seus tanques e caças da era soviética raramente sejam utilizados devido à falta de combustível e de peças, a Coréia reuniu arsenais de armas químicas e biológicas, segundo autoridades dos EUA e da Coréia do Sul.

O "exército primeiro" tornou-se uma bandeira política tão abrangente sob Kim que parece ter superado a ideologia do "juche", ou autoconfiança, de seu finado pai, Kim Il Sung. Com Kim Jong Il, os militares assumiram um papel mais proeminente em todos os setores da sociedade, desde a construção de estradas ao policiamento do país.

A troca por Kim do Partido dos Trabalhadores pelos militares como principal força condutora da sociedade foi significativa porque o exército é "menos ideológico e mais pragmático" do que o partido, disse Alexander Vorontsov, um ex-diplomata russo em Pyongyang que hoje é professor no Instituto de Estudos Orientais em Moscou.

A mídia oficial norte-coreana começou a usar o termo "exército primeiro" em 1999, quando Kim tentava firmar-se no poder depois de uma penúria que, segundo algumas estimativas, literalmente dizimou a população da Coréia do Norte, de 24 milhões.

A abordagem agradou aos militares, a coluna vertebral fiel ao regime de Kim. Também aguçou a xenofobia entre os norte-coreanos. Ela salientou a crença de que os norte-coreanos estavam sendo atacados pelos americanos e que a única maneira de sair de seu sofrimento econômico era construir um forte poderio militar.

"Essencialmente, a política do 'songun' destina-se a evitar um golpe militar", disse Suh Jae Jean, um analista sênior do Instituto para a Unificação Nacional, financiado pelo governo da Coréia do Sul. "Kim Jong Il precisa de uma maneira para explicar a sua população por que está dando aos militares tantos privilégios num momento de dificuldades econômicas."

Para este ano, Kim só conseguiu alocar US$ 489 milhões, ou 15,8% do orçamento total do país, para os militares. É uma fração dos gastos de defesa da Coréia do Sul, de US$ 26,4 bilhões. Mas o número não reflete o fato de que os militares do Norte conduzem suas próprias fazendas, fábricas e empresas comerciais. Kim também deu aos militares direitos lucrativos na produção de cogumelos selvagens, moluscos e caranguejos azuis, três itens de exportação chaves, disse Suh.

A política do exército primeiro de Kim culminou com o teste nuclear em outubro passado. Apesar de o teste ter trazido claros benefícios para os militares, também pode ter alguns reveses para as forças armadas, segundo especialistas. Hayes disse que o programa nuclear pode ajudar Kim a tirar recursos dos militares e direcioná-los para a economia, reforçando sua reputação de "falcão". Em certa medida, "o Exército do Povo da Coréia corre riscos com a estratégia nuclear", disse Hayes.

Em sua declaração política de Ano Novo, a Coréia do Norte indicou que agora que deu um salto quântico em poderio militar vai transferir sua prioridade para a economia. Isso alimentou uma teoria entre alguns analistas de que Kim eventualmente trocará seu poderio nuclear para superar a escassez energética, alimentar e de reservas estrangeiras em seu país e conquistar relações diplomáticas com Washington. Isso poderá ser doloroso para os generais.

Um acordo de desarmamento com Washington acabará exigindo que a Coréia do Norte se livre da rede mundial de mercado negro. O comércio ilegal de armas, drogas e dólares falsificados tem sustentado seus militares. "Na realidade, os militares norte-coreanos não têm nenhum poder para desafiar as decisões de Kim. É como uma enorme instituição sem cérebro", disse Suh. "O exército primeiro é apenas um instrumento de governo. Kim o descartará rapidamente, assim como o adotou, quando achar que não é mais útil" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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