O 'terceiro homem' da França comanda as atenções

Katrin Bennhold
Em Paris

Com o estreitamento da disputa pela presidência francesa, o derrotado "terceiro homem" na disputa lançou nesta quarta-feira (25/4) uma torrente de críticas contra os dois candidatos que ainda concorrem, mas então pareceu dar uma oportunidade para que Ségolène Royal, a candidata socialista, obtenha seu apoio.

Reuters 
François Bayrou preferiu não declarar o voto e disse que a 'França está presa entre dois riscos'

François Bayrou, que ficou com 18% dos votos no primeiro turno e tem sido agressivamente cortejado por ambos os lados, disse que aceitou o convite de Royal para um debate público antes do segundo turno, em 6 de maio, contra Nicolas Sarkozy, o conservador que lidera as pesquisas. Royal respondeu imediatamente, propondo que Bayrou se junte a ela na sexta-feira (27), quando se encontrará com a imprensa regional.

Mas posteriormente na quarta-feira ele rejeitou tal proposta, dizendo que tal fórum seria inadequado. Caso ocorra um debate, isto representaria um desafio incomum para Royal, que deve manter um equilíbrio entre manter a credibilidade junto à sua base eleitoral e fazer concessões a Bayrou, que no domingo ela desdenhou como um direitista sem programa.

Ela precisaria usar o debate para atrair os eleitores dele, mesmo enquanto discute com ele sua plataforma. Se Sarkozy propuser um debate semelhante, disse Bayrou, ele também o aceitaria. Mas ele insinuou fortemente que Sarkozy, o ex-ministro do Interior, não obteria seu apoio.

"Nicolas Sarkozy, por meio de sua proximidade com os círculos empresariais e poderes da mídia, por meio de seu gosto pela intimidação e ameaças, concentrará o poder como nunca ocorreu antes", disse Bayrou. "Por meio de seu temperamento e dos temas que escolheu abordar, ele corre o risco de agravar os rasgos no tecido social, notadamente por meio de políticas que dêem vantagens aos mais ricos.

Ele disse que Royal parece "ter melhores intenções no que se refere à democracia", mas que seu programa econômico perpetua a ilusão de que o Estado pode cuidar de tudo. Isto, ele disse, é "o oposto das orientações que nosso país e economia precisam para recuperar sua criatividade e equilíbrio".

Ao ser perguntado sobre como votaria, Bayrou respondeu: "A esta altura, eu não sei o que farei, porque o que chama a atenção é que os franceses estão presos entre dois riscos".

Mas ele disse que muito pode ocorrer para esclarecer as posições dos candidatos em questões importantes, "notadamente após o debate que terei com madame Royal" e o debate entre Sarkozy e Royal em 2 de maio, que será televisionado. Se as coisas evoluírem, disse Bayrou, "eu direi como votarei". Mas ele disse que não dará instruções de voto para seus eleitores, que ele estimou estarem divididos igualmente entre os dois candidatos.

Mesmo um apoio indireto de Bayrou poderá ser decisivo na disputa pela sucessão do presidente Jacques Chirac. Uma pesquisa da TNS Sofres, publicada na quarta-feira pelo "Le Figaro", mostrou as intenções de voto em 51% para Sarkozy e 49% para Royal.

Pesquisas anteriores realizadas desde o primeiro turno no domingo apontavam uma vantagem maior para Sarkozy, o mostrando com cerca de 54% dos votos contra 46% de Royal. Animado e indeciso diante de um auditório lotado, Bayrou reconheceu estar apreciando a forma como repentinamente passou de persona non grata ao político mais cortejado na França. Várias vezes durante a coletiva de imprensa, que durou entre uma e uma hora e meia, os jornalistas aplaudiram espontaneamente, um evento raro em Paris.

"Eu não fiquei totalmente convencido com as mudanças de atitude" após o primeiro turno no domingo, ele disse. "Às 19h59 eu era detestável e às 20 horas" - quando os primeiros resultados eleitorais foram divulgados - "eu me tornei imensamente sedutor e agradável".

Ele confirmou que tanto Royal quanto Sarkozy deixaram mensagens em seu celular na segunda-feira. "Um deles (deixou) muitas", ele disse com um sorriso. Bayrou disse não conseguir se ver como um ministro em um governo dirigido por qualquer um deles. "É absolutamente impossível" nas atuais circunstâncias, ele disse. "Eu nunca participarei em um governo cujos princípios eu não compartilho."

Em vez disso, ele anunciou a criação de um novo partido para substituir seu partido União pela Democracia Francesa visando às eleições legislativas em junho.

Seu novo movimento lançará candidatos em todos os 577 distritos eleitorais representados na Assembléia Nacional francesa e fará campanha para privar o próximo presidente de uma maioria no Parlamento, ele disse. "Seja quem for o vencedor, eu quero assegurar que os franceses terão um contrapeso para representá-los - livre, capaz de dizer sim quando a ação seguir na direção certa, e não quando seguir na direção errada", disse Bayrou. "Eu serei o garante desta independência e a defesa do interesse geral do povo francês."

Atualmente há apenas 29 legisladores centristas na Assembléia Nacional, a maioria deles eleito com a ajuda do movimento gaullista de Sarkozy, o que levou alguns a expressarem dúvidas de que o movimento de Bayrou poderá sobreviver.

Ele disse novamente que Sarkozy e Royal agravariam os problemas enfrentados pela França após décadas de alternância entre governos esquerdistas e direitistas. Apesar de suas críticas aos dois diferirem, ele acusou ambos de arriscarem um sério agravamento das finanças públicas da França. "A França tem três problemas", disse Bayrou. "Nós somos um país com uma democracia enferma; nós somos um país com um tecido social rasgado; nós somos um país com falta de crescimento. Vamos encarar: Nicolas Sarkozy e Ségolène Royal, no eterno duelo da eterna direita e da eterna esquerda, não repararão, mas sim agravarão estes três males." George El Khouri Andolfato

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