Le Pen pede aos seus eleitores que não votem no segundo turno da eleição francesa

Katrin Bennhold
em Paris

Lutando para reduzir a distância que a separa do seu rival às vésperas de um debate ao vivo pela televisão, Sègoléne Royal, a candidata socialista à presidência, recebeu uma ajuda inesperada na terça-feira (01/05), quando o líder da Frente Nacional, partido de extrema-direita, pediu aos 10% do eleitorado francês que o apoiaram que se abstenham de votar no segundo turno.

A abstenção poderia ajudar Royal, que ficou atrás de Nicolas Sarkozy, o
candidato da direita, por uma diferença de mais de cinco pontos percentuais no primeiro turno.

A Frente Nacional, liderada por Jean-Marie Le Pen, tradicionalmente se alia à direta nas eleições presidenciais francesas. Mas na terça-feira, falando em um comício em Paris ao qual compareceram milhares de pessoas, Le Pen pediu uma "abstenção maciça" aos 3,8 milhões de eleitores que votaram nele no primeiro turno.

Em outras partes da capital, sindicatos trabalhistas e mulheres fizeram
passeatas de apoio a Royal, juntando-se às dezenas de milhares de pessoas em toda a França que comemoraram o Dia do Trabalho. Na terça-feira Royal subiu em um palco com astros populares franceses em um grande comício em um estádio de Paris.

Sarkozy, o ex-ministro do Interior, passou o dia longe dos trabalhadores que gritavam palavras de ordem, tendo visitado a rural Bretanha e repetido friamente que a sua primeira ação como presidente será reduzir o poder dos sindicatos trabalhistas.

Ele ficou à frente de Royal em todas as pesquisas de intenção de voto
realizadas desde meados de janeiro. Duas pesquisas divulgadas na
terça-feira, feitas pelos institutos Ipsos e Ifop, deram a ele uma vantagem de seis pontos percentuais na batalha para suceder ao presidente Jacques Chirac no próximo domingo, embora cerca de um entre cada cinco eleitores tenha dito que ainda não sabe ao certo em quem votará.

Os especialistas da Ipsos acreditam que, no universo de 6,8 milhões de
eleitores que apoiaram François Bayrou, um centrista, no primeiro turno, o número dos que votarão em Royal será maior do que os se inclinarão para Sarkozy. Mas eles acham que isso não será suficiente para fazer com que Royal se torne a primeira mulher a ocupar o Palácio Elisée. Não se sabe se a atitude de Le Pen ajudará Royal a reduzir a diferença entre ela e Sarkozy.

"Pedi aos eleitores que confiaram em mim que não votem nem em Royal nem em Sarkozy", disse Le Pen aos cerca de 5.000 apoiadores concentrados em frente à Ópera Garnier, em Paris. "Recomendei expressamente a eles uma abstenção maciça".

Quando perguntados sobre o que fariam, vários eleitores do político
ultra-direitista declararam que atenderão ao pedido. Eles afirmaram que
jamais votariam em um candidato esquerdista, mas expressaram ressentimento em relação ao fato de Sarkozy ter conseguido tirar votos de Le Pen.

"Sarkozy roubou as nossas idéias e os nossos votos", disse Prisca Vicat, 62, que veio do sul da França até Paris para ouvir Le Pen. "No domingo não votarei em ninguém".

Já Royal parece não ter conseguido obter o impulso que os seus
correligionários esperavam, tendo se inclinado para várias direções nos
últimos dias. Ela disse que o ex-ministro das Finanças, Dominique
Strauss-Kahn, um socialistas que tem credenciais reformistas, daria um bom primeiro-ministro. A candidata pediu ao inimigo da globalização Jose Bovè, um astro da extrema esquerda, que redigisse um relatório sobre segurança alimentar e globalização. Além disso, ela participou de um debate com Bayrou, o que fez com que sofresse muitas críticas.

Os analistas vêem no seu debate na televisão em horário nobre com Sarkozy, na quarta-feira, a sua última chance de reverter o rumo da campanha. Mais de 20 milhões de telespectadores - um terço da população do país - deverão assistir ao duelo televisivo de duas horas, uma tradição francesa que não foi seguida em 2002, quando Le Pen inesperadamente derrotou o candidato socialista e disputou o segundo turno.

Constituindo-se ao mesmo tempo em uma batalha de idéias e uma competição de estilo e vontade, debates entre os dois finalistas já revelaram ser um fator decisivo para o resultado final da eleição.

O primeiro debate, em 1974, foi uma batalha entre Valèry Giscard d'Estaing e François Miterrand. Giscard venceu o debate com a sua exclamação: "Você não tem um monopólio sobre o coração!". Ele acabou sendo eleito.

Em 1988, Miterrand, tendo sucedido a Giscard em 1981, disputava a reeleição contra Chirac, que liderava uma coalizão direitista de governo. Miterrand impediu que o seu rival transmitisse uma imagem de pessoa talhada para ocupar a presidência ao chamá-lo astutamente de "senhor primeiro-ministro".

Royal e Sarkozy prepararam meticulosamente cada detalhe do seu duelo, do formato da mesa às principais linhas de ataque. No campo de Sarkozy, os assessores dizem que desejam expor aquilo que vêem como a incompetência de Royal em áreas políticas cruciais, como a economia. No lado socialista o plano é desafiar Sarkozy a defender o seu histórico como membro de um governo impopular.

Nesta semana os eleitores puderam observar uma prévia do aspecto que poderá ter o confronto na forma de um vídeoclipe de um acalorado debate
televisionado entre os dois durante a campanha parlamentar de 1993.

O clipe, que circulou na Internet, mostra um agitado Sarkozy acusando a sua oponente de falar com "ódio".

"Basta", rebateu uma furiosa Royal. "Não fale comigo desta forma!". UOL

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