Dêem uma chance ao islã modelado

A. M. Spiegel*
Em Londres

No filme de 1942 "Road to Morocco" [Estrada para o Marrocos], o personagem de Bob Hope descrevia o reino norte-africano como um lugar "onde eles esvaziam todas as velhas ampulhetas".

Mas depois de um dramático surto de terrorismo no mês passado no norte da África, o Marrocos - que há muito tempo não é mais considerado um lugar exótico limitado pelo Saara e suspenso no tempo - é hoje a última fronteira árabe no esforço para deter a disseminação do terrorismo global.

A onda de ataques recentes incluiu três ataques terroristas em Casablanca, um tiroteio entre terroristas e policiais na Tunísia e atentados suicidas a bomba coordenados na Argélia, que mataram 33 pessoas.

Como o Marrocos, o mais liberal dos países árabes, reage às incursões da Al Qaeda na região pode fornecer respostas para uma das questões chaves de nossa época: o extremismo islâmico pode ser contraposto pela moderação islâmica?

O mundo em geral começou a prestar mais atenção na presença da Al Qaeda no Marrocos depois que uma organização terrorista baseada na Argélia, o Grupo Salafista de Pregação e Combate, anunciou em janeiro que mudaria seu nome para Al Qaeda no Magreb Islâmico. No início, muitos observadores reduziram a importância da mudança, considerando-a um sinal de que o grupo tentava adquirir uma nova relevância em uma Argélia cansada de derramamento de sangue.

Mas a Al Qaeda no Magreb Islâmico hoje criou laços com grupos locais no Marrocos e na Tunísia. Também conseguiu realizar o que a potência colonial francesa nunca conseguiu - unir os destinos e as políticas de três países historicamente diferentes e muitas vezes adversários.

O Marrocos, uma monarquia constitucional que dá fortes poderes executivos ao rei - incluindo o controle dos militares e autoridade para dissolver o Parlamento -, há muito tempo é considerado um modelo de reformas na região.

O governo também ofereceu um projeto (pelo menos no papel) de medidas contraterroristas que combinam segurança e inteligência com medidas para preservar o islã do extremismo.

O movimento do Marrocos para um islamismo moderado, inspirado nos sufis, incluiu a criação de sites na Internet, programas de rádio e televisão islâmicos, o treinamento de mulheres religiosas e a reformulação das antigas escolas corânicas.

Mas muito mais é necessário. É hora de incentivar outro experimento do Marrocos - a inclusão política de um partido islâmico moderado como um antídoto ao extremismo. Nas eleições marcadas para setembro, o Marrocos poderá fornecer um modelo de democracia islâmica, dando ao moderado Partido Justiça e Desenvolvimento a oportunidade de fazer o que os islâmicos da vizinha Argélia nunca conseguiram: formar um governo liderado por islâmicos.

Embora os céticos questionem se existe o chamado islamismo moderado, acontecimentos locais exigem novas abordagens. O debate deve ser reformulado para refletir a necessidade urgente de combater o terror. Um firme comprometimento de cada grupo com a não-violência - e sua disposição a ajudar a combater o extremismo - deve ser o fator mais importante para determinar sua aceitabilidade.

O Marrocos, com seu rei jovem e de mentalidade reformista, Mohamed 6º, que é capaz de conter os islâmicos se necessário, oferece um caso ideal para teste.

O Partido Justiça e Desenvolvimento, que deverá ter grande votação nas eleições marroquinas, é um raro partido islâmico. Moldado nos democratas cristãos da Alemanha, ele se concentra em reformas políticas e econômicas, mais que em questões sociais e religiosas divisórias. Mais importante, em contraste com grupos como o Hamas, ele condena a violência e promove uma plataforma antiextremista e antiterrorista.

Alguns críticos afirmam que os islâmicos moderados no norte da África pouco fizeram para deter o terror, mas esses grupos nunca tiveram realmente uma oportunidade.

Depois dos ataques terroristas em Casablanca em 2003, o Partido Justiça e Desenvolvimento enfrentou uma grande reação contrária. Mas quatro anos depois o partido, que vinha conduzindo uma sofisticada campanha eleitoral contra um amálgama menos organizado de partidos seculares, conseguiu convencer os eleitores de que pode ajudar a combater o terror e de que sua liderança combateria o radicalismo, e não o promoveria.

Muitos marroquinos, frustrados pela incapacidade do governo de conter o terrorismo, podem estar dispostos a dar uma chance ao partido. E enquanto o rei - que tem autoridade máxima para indicar o próximo primeiro-ministro - pode ser tentado a manter a coalizão secular no governo, a perspectiva de um contraterrorismo administrado por islâmicos hoje é atraente demais para ser desprezada.

*A.M. Spiegel, bolsista do Instituto Americano de Estudos do Magreb no St. Antony's College, em Oxford, serviu como voluntário do Peace Corps no Marrocos. Atualmente trabalha em um livro sobre o islã e política no Marrocos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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