A tortura da sepultura: o islamismo e o além

De Leor Halevi,do International Herald Tribune*
Em College Station, Texas (EUA)

É difícil que se passe uma semana sem que seja publicada uma matéria de primeira página nos jornais sobre muçulmanos morrendo de forma violenta em algum lugar do mundo. Apesar de toda a atenção da mídia, existe pouca compreensão por parte dos não muçulmanos da visão islâmica sobre a morte e o além.

Todos sabem, é claro, que após a morte os mártires seguem diretamente para o Jardim do Paraíso, onde sentam-se em poltronas confortáveis, saboreiam carnes e frutas e desfrutam da companhia de "houris" (belas virgens que cuidam dos homens muçulmanos no paraíso), enquanto ouvem o som de rios correndo.

Mas o que acontece com a grande maioria dos muçulmanos, aqueles que não morrem como mártires?

Segundo a doutrina islâmica, entre o momento da morte e a cerimônia de sepultamento, o espírito do muçulmano morto faz uma breve jornada ao céu e ao inferno, onde testemunha cenas da felicidade e da tortura que aguardam a humanidade no fim dos tempos.

No momento em que os agentes funerários estão prontos para lavar o corpo, o espírito retorna à Terra a fim de observar os preparativos para o enterro e acompanhar a procissão até o cemitério. Mas a seguir, antes que a terra seja colocada sobre a sepultura recém cavada, ocorre uma reunião inusual: o espírito retorna ao corpo.

Na sepultura, o muçulmano morto - essa mescla de espírito e corpo - encontra dois anjos aterradores, Munkar e Nakir, reconhecidos pelas faces azuladas, longos dentes e cabelos desgrenhados.

Esses anjos realizam um julgamento para avaliar a profundidade da fé muçulmana. Se o muçulmano morto responde às perguntas de forma convincente, e se ele não tem nenhum pecado pendente, a sepultura é transformada em um espaço luxuoso que torna o julgamento final suportável.

Mas se a fé do muçulmano é imperfeita, ou se ele pecou durante a vida toda, por exemplo, tendo deixado repetidamente de praticar os rituais purificadores antes das orações, a sepultura se transforma em um espaço sufocante e opressivo.

A terra começa a exercer um peso imenso sobre o corpo consciente, até que a caixa torácica seja esmagada. Os vermes passam a roer a carne, provocando uma dor horrível.

Essa tortura não continua indefinidamente. Ela ocorre intermitentemente e termina ao mais tardar com a ressurreição - quando é possível que Deus perdoe os muçulmanos que suportaram tais punições.

Não há dúvida de que tal violência parece ter um caráter medieval. A crença na "tortura da sepultura" de fato remonta a períodos antigos da história. Ela aparece em epitáfios do século oito e nas primeiras tradições islâmicas, que alçaram essa crença à condição de dogma.

Mas os muçulmanos devotos de hoje continuam aderindo a tal crença. Em invocações, orações funerárias, sermões e na literatura popular, os muçulmanos são freqüentemente lembrados a não deixarem de prestar atenção nesse castigo.

Evidências informais sugerem que muitos deles levam a coisa a sério. O psicólogo Ahmed M. Abdel-Khalek, que estudou as ansiedades relativas à morte entre a juventude árabe, descobriu que a preocupação com a tortura da sepultura permanece intensa.

Os egípcios e kuaitianos entrevistados por ele afirmaram temer mais essa tortura de que a perda de um parente querido ou sucumbir devido a uma doença grave e fatal. Recentemente, um website islamita publicou uma foto de um jovem de 18 anos exumado por ordem do pai. Haviam se passado apenas três horas desde o enterro, mas o corpo já tinha uma aparência envelhecida e parecia machucado. Segundo essa história, cientistas teriam afirmado que o fenômeno foi causado pela tortura da sepultura, e o pai explicou que o filho era um pecador.

Vários muçulmanos que fizeram comentários sobre a foto viram nela um sinal de Deus com a finalidade de impedir o pecado e como lembrete para que os muçulmanos orem assiduamente a fim de obterem alívio para a punição da sepultura. Muita gente duvidou da autenticidade da fotografia, o que fez com que o autor do website a removesse da página e se desculpasse pela publicação da foto. Mas até mesmo um cético que contestou a alegada evidência "científica" da foto professou naquele fórum público a sua crença na realidade da tortura da sepultura.

Os muçulmanos podem escapar da tortura da sepultura ao morrerem como mártires. No islamismo a categoria de mártir não pertence exclusivamente àqueles que morreram lutando em nome de Deus. Segundo a tradição islâmica, os muçulmanos que morrem no fogo, afogados, no desmoronamento de um prédio ou de qualquer outra forma que envolva grande sofrimento físico merecem a classificação de mártires no além-mundo.

Isso significa que imediatamente após a morte, os seus espíritos não retornam aos corpos mutilados ou queimados. Em vez disso, eles ingressam no Jardim do Paraíso, onde recebem novos corpos, inteiramente reformados, de forma a gozarem as recompensas do martírio até a ressurreição. Aqueles que perderam um parente em uma morte violenta e chocante - por exemplo, nos bombardeios de Bagdá - podem encontrar algum consolo nesta crença.

*Leor Halevi, professor de História da Universidade do Texas A&M, é autor do livro "Muhammad's Grave: Death Rites and the Making of Islamic Society"/"A Sepultura de Maomé: Os Ritos da Morte e a Construção da Sociedade Muçulmana" UOL

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