Americanos tiram lições políticas da eleição francesa

De Brian Knowlton

Os analistas políticos americanos estão estudando as folhas do chá francês em busca das possíveis lições de uma eleição em que um candidato de direita conseguiu suceder a dois mandatos de um presidente altamente impopular de seu próprio partido e na qual os eleitores adiaram a data em que o país terá sua primeira mulher presidente.

Mas alguns não querem tirar muitas conclusões. A única coisa que liga a candidatura fracassada de Ségolène Royal, a candidata socialista francesa, e a senadora Hillary Clinton, democrata por Nova York, é que "as duas são mulheres", disse Howard Wolfson, o diretor de comunicações da senadora.

Enquanto isso, os republicanos estão tirando algumas esperanças da derrota que Nicolas Sarkozy impôs a Royal e da maneira como ele se livrou de suas ligações com a impopular presidência de 12 anos de Jacques Chirac.

Rudolph Giuliani, o ex-prefeito de Nova York e um importante candidato republicano, manifestou sua alegria na segunda-feira diante de uma manchete do "New York Post" sobre a vitória de Sarkozy: "Um Rudy francês", dizia.

Giuliani considerou isso "uma boa profecia". Se Giuliani é o que mais se aproxima de uma versão americana de Sarkozy -ou vice-versa- é discutível. O ex-prefeito projeta uma personalidade competente, de homem durão, combatente da criminalidade, que Sarkozy poderia aprovar, mas ele assumiu posições mais moderadas sobre muitas questões sociais, notadamente o principal tema de Sarkozy, a imigração.

Se há uma lição maior, dizem os analistas, é que até alguém como Sarkozy pode sobreviver a sua relação histórica com um presidente impopular projetando a promessa de verdadeiras mudanças. Quanto a qual republicano poderia fazer isso melhor, também continua aberto a debate. Wolfson insistiu que, do lado dos democratas, Clinton representa a promessa de mudança real, e não apenas cosmética.

"Acho que a população americana deixou muito claro na última eleição, e continua deixando claro, que quer mudanças fundamentais, e não há muitos republicanos que produziriam essas mudanças", ele disse. Os seguidores de Clinton indicam que, enquanto Royal enfatizou seu gênero e sua personalidade "carinhosa", as mulheres votaram numa margem de 52% a 48% em seu adversário masculino. "Eu preciso do voto das mulheres", Royal havia dito. Não conseguiu.

Clinton, por outro lado, teve boa votação feminina. Desde o final dos anos 1970 as americanas tendem para o Partido Democrata mais que os homens. Em 2000, Al Gore superou George W. Bush entre as mulheres por 11 pontos percentuais. Clinton conseguiu se sair bem entre as mulheres enquanto se retratava como forte e informada sobre questões de segurança nacional e de política externa, área em que Royal não marcou pontos.

"Todas as pesquisas mostram que um característica que os americanos atribuem a Clinton é força e conhecimento de política externa e segurança nacional", disse Wolfson. Isso não quer dizer que um adversário republicano não possa tentar pelo menos indiretamente questionar se Clinton, como mulher, tem a firmeza necessária para ser presidente. "Seria um erro se tentassem fazer isso", disse Wolfson, "especialmente diante do fato de que todos os candidatos republicanos apóiam as políticas fracassadas do presidente Bush no Iraque."

A guerra no Iraque, que diminuiu os números dos republicanos e reforçou os democratas, torna ainda mais importante para os candidatos republicanos projetarem uma nova e clara visão, disse Lewis Wolfson, professor emérito na Universidade Americana especializado em política presidencial (não é parente de Howard Wolfson). "Eles precisam de alguém que vá repercutir, que tenha uma visão de para onde vai o país, o que é muito diferente da abordagem de Bush", disse Lewis Wolfson. "É uma coisa que alguns candidatos democratas, notadamente Barack Obama, estão trabalhando. Eu acho que fez parte da marca registrada de Sarkozy."

Como Ronald Reagan, Sarkozy atraiu votos de um amplo espectro. Ele é um homem de direita que -ao insistir em sua imagem de durão, ético e trabalhador- saiu-se bem entre os eleitores da classe média e profissionais liberais, mesmo na região norte da França, de passado industrial e tradicional eleitora da esquerda.

Por enquanto, nenhum dos dez candidatos republicanos nos EUA parece ter o fator X, disse Lewis Wolfson. "Nenhum deles tem o tipo de personalidade extrovertida que se dramatizaria para o público e pareceria um novo rosto", ele disse, acrescentando que Mitt Romney, o ex-governador de Massachusetts, pode ser a exceção. Ainda assim, ele disse, Sarkozy levantou a possibilidade "de que de alguma forma um homem forte e vibrante com um tipo de visão para o futuro possa ser o homem que se distinga" dos demais.

Quanto a Clinton, ele disse, tem outra vantagem. "Ela tem o melhor diretor de campanha do país: Bill", o ex-presidente. O parceiro de Royal, o líder socialista François Hollande, não fez segredo de que abriga ambições presidenciais; seu papel na campanha dela foi considerado ambíguo. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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