Aumento de cesarianas na Ásia? Está nas estrelas

De Thomas Fuller*
Em Bancoc

Quando o momento chegou, o médico olhou para a barriga de Suthasinee Santikavanin e disse: "São quase 9h19. Vamos tirar o bebê."

O nascimento da filha de Suthasinee estava escrito nas estrelas, ao menos de acordo com o astrólogo que a ajudou a escolher o dia, a hora e o minuto preciso que a criança seria retirada do ventre da mãe, em uma cirurgia de cesariana.

O marido de Suthasinee, Mahakanasnan, agente de inteligência da marinha tailandesa, estava ansioso ao lado da mesa de operações, assegurando-se que o momento auspicioso fosse respeitado. Ele programou os alarmes de seus dois telefones celulares, um em cada bolso, para vibrarem às 9h19.

"Os alarmes soaram, e ouvi o bebê chorando", disse Mahakanasnan, com um tom de satisfação na voz. O parto, em um hospital privado no dia 22 de março, faz parte de uma tendência mais ampla, que os pesquisadores médicos estão chamando de epidemia de cesarianas em países do Leste asiático.

Uma vez considerado um procedimento reservado para emergências ou gestações de risco, as cesarianas hoje são comumente planejadas por uma variedade de razões, inclusive medo da dor do parto, conveniência para o médico e a paciente e até astrologia. Em uma região que vive com turnos de trabalho que consideram o tempo como dinheiro, em fábricas de calçados e chips de computador, a cesariana eletiva traz o relógio e a organização clínica a um dos processos mais teimosamente imprevisíveis da humanidade. Paradoxalmente, os avanços médicos que tornaram o procedimento mais seguro e mais rotineiro ajudaram a reforçar superstições antigas.

Casais de culturas influenciadas pelos chineses há muito tentam programar os nascimentos para anos auspiciosos. Agora, muitos podem refinar sua escolha para o dia e o minuto.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) estima que, sob circunstâncias normais, um país deveria não ter um índice de cesarianas maior do que 10 a 15%. Essa é a faixa estabelecida há duas décadas com base na experiência de países desenvolvidos que têm os mais baixos índices de mortalidade materna e infantil.

As cesarianas, entretanto, tornaram-se cada vez mais comuns em todos os países fora da África. São em torno de 30% dos nascimentos nos EUA e 15% na Alemanha, mas menos de 2% em Mali, Níger e Nigéria. Nos últimos 15 anos, saltaram no Leste asiático com a prosperidade da região.

Nos hospitais privados de Bancoc, que tipicamente servem aos pacientes mais ricos, as cesarianas, que giravam em torno de 40% dos partos em 1990, hoje são em torno de 65%, segundo administradores do hospital. Em Hong Kong, onde a noção de marcar a hora do parto vai de encontro com a característica palpável de eficiência da cidade, 59% de todos os bebês nascidos em hospitais privados chegaram ao mundo sob o bisturi em 2005, comparados com 31% duas décadas atrás, de acordo com o Departamento de Saúde.

As cesarianas envolvem o corte de camadas de pele e de gordura e o afastamento dos músculos abdominais para alcançar e puxar o bebê. Elas levam em torno de uma hora e são mais seguras do que nunca; no Ocidente, o índice de mortalidade materna ou infantil do procedimento é bem abaixo de um por cento, tanto para a mãe quanto para a criança. Ainda assim o uso crescente de cesarianas eletivas continua controverso. Como envolve uma grande cirurgia, sempre há potencial para complicações, mesmo com o aprimoramento da tecnologia.

Ainda assim a popularidade do procedimento está crescendo e tendo um impacto sociológico. Cada vez mais, os nascimentos ocorrem com hora marcada. Seja por decisão dos astrólogos ou médicos, sempre há uma discussão sobre o dia e a hora apropriados. O hospital Bumrungrad, em Bancoc, um grande centro que serve a tailandeses ricos e estrangeiros, proíbe os pais de marcarem cesarianas em horas inconvenientes, entre 21h e 7h. O hospital faz cerca de 180 partos por mês, 65% cesarianas.

No hospital St. Paul, em Hong Kong, onde o índice de cesarianas é de cerca de 70%, cobra-se taxa extra se os casais selecionarem um horário entre meia noite e 7h30 da manhã.

Noppadol Saropala, obstetra em Bumrungrad, diz que cerca de um terço à metade de todos seus pacientes tailandeses que escolhem cesarianas querem marcar a data e a hora. Mas há limites: a paciente deve completar o período de gestação médio de 40 semanas. "Não faço a cesariana se tiverem menos de 38 semanas", disse Noppadol.

A freqüência de partos por cesariana cresce antes de grandes feriados. Um exemplo recente foi o dia 12 de abril, logo antes do início do festival Songkran da Tailândia, um momento de reunião de família que este ano durou cinco dias. Em um hospital privado de Bancoc, Phayathai 3, o número de cesarianas aumentou de três ou quatro para oito, de acordo com Supakorn Phawanna, porta-voz do hospital. Supakorn disse que os pacientes escolheram a data porque queriam "que parentes e amigos visitassem o bebê durante o feriado".

Os médicos e hospitais têm incentivos financeiros para fazerem cesarianas, especialmente em hospitais privados. No Phayathai 3, um "pacote de cesariana", de quatro dias e três noites e um quarto privado, custa 41.900 bahts, ou cerca de R$ 2.400. Isso é 40% mais caro que o nascimento vaginal típico.

Cesarianas eletivas não são cobertas pelo sistema de saúde universal tailandês, reforçando a noção que esse é um procedimento para os ricos. Nos hospitais do governo, que servem aos despossuídos, somente 20% dos nascimentos são por cirurgia cesariana.

Uma das mulheres que escolheram o dia 12 de abril para dar à luz foi mais influenciada pela astrologia do que pelo feriado. Apinya Jirupansawat, funcionária de 34 anos de uma corretora de ações, foi aconselhada por um astrólogo chinês a escolher entre três datas: os dias 12, 18 ou 24 de abril.

Depois de verificar livros de astrologia tailandeses e ocidentais, Apinya escolheu a primeira data. Ela explicou que, de acordo com a astrologia chinesa, uma criança nascida então "apoiaria seus pais e seria fácil de criar".

Alguns dias da semana dão mais sorte que outros, diz Pinyo Pongcharoen, astrólogo que ajudou a escolher a hora do parto da filha de Suthasinee.
Neste ano, de acordo com a crença tailandesa, domingo e segunda-feira são em geral auspiciosos, disse ele, enquanto sábado e quarta-feira não.

Os médicos algumas vezes têm dificuldades em marcar operações de cesariana de forma que o bebê seja extraído na hora astrologicamente correta, disse Pinyo, mas idealmente o nascimento deve ocorrer entre 10 e 20 minutos da hora que ele seleciona como a mais compatível com os alinhamentos estelares e planetários. "Algumas vezes, damos muitas datas", disse Pinyo na sala de aula em um templo budista onde dá palestras a colegas astrólogos. "Cabe aos médicos e pais escolherem qual é a mais conveniente".

Sompong Winworanat, colega de Pinyo, diz que horário da sorte deve ser planejado para o primeiro choro da criança. "Não é o momento que a barriga da mulher é cortada", disse Sompong. "É quando o bebê grita 'Uaaaa!' pela primeira vez".

Apesar de haver pouco debate público sobre o crescente índice de cesarianas no Leste asiático, há sinais de reação. Preocupados com uma taxa nacional de cesarianas de 40,5% em 2001, médicos da Coréia do Sul conseguiram fazê-la diminuir em três pontos percentuais até 2005, de acordo dom Joo Hyun Nam, diretor da Sociedade Coreana de Obstetrícia e Ginecologia.

No Japão, o índice geral de cesarianas subiu fortemente, de 11,2% em 1990 para 21,4% em 2005, mas ainda está bem abaixo de seus vizinhos. O índice em Taiwan é de 35,4%, de acordo com estudo publicado no ano passado na revista médica Birth.

Mesmo os que vêem o crescimento da prática da cesariana na Ásia como problema, essas preocupações são superadas por questões mais prementes relacionadas à aplicação da tecnologia médica para fabricar um resultado desejável no nascimento, como o uso crescente do ultra-som e do aborto para escolher o sexo da criança, disse uma autoridade que pediu para seu nome não ser divulgado por não ser autorizada a falar por sua instituição.

Comparado com isso, disse ela: "Não vejo uma tragédia tão grande em termos de todos os bebês nascendo em um sábado."

*Pornnapa Wongakanit contribuiu de Bancoc. Deborah Weinberg

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