Negociações entre UE e Rússia não aliviam tensões

Judy Dempsey
Em Berlim

Em uma reunião de cúpula obscurecida pelas desavenças sobre questões de comércio, segurança e energia, líderes russos e europeus terminaram dois dias de negociações na sexta-feira com diálogos tensos sobre direitos humanos, mas sem um acordo sobre como negociar ligações econômicas mais estreitas ou mesmo uma declaração conjunta.

Durante uma entrevista coletiva incomumente longa e agressiva em Volzhsky Utyos, perto da cidade de Samara, no sudoeste da Rússia, as diferenças entre os dois lados eram claras, com a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da Comissão Européia, José Manuel Barroso, chocando-se com o presidente russo, Vladimir Putin.

Em seu nono encontro com Putin desde que se tornou chanceler em 2005, Merkel foi direta sobre a falta de cooperação entre a UE e a Rússia. "Nossas conversas hoje mostraram que não estamos cooperando muito intensamente", ela disse.

A chanceler, que desafiou constantemente Putin sobre a falta de liberdade de imprensa e o fraco histórico de direitos humanos em seu país, criticou as autoridades russas por impedir que o ex-campeão de xadrez Garry Kasparov, que se tornou líder da oposição, e seus seguidores viajassem para a reunião de cúpula. Eles foram impedidos no aeroporto de Moscou, onde a polícia confiscou seus passaportes e passagens e os deteve durante cinco horas.

"Eu digo com total abertura que é meu desejo que aqueles que querem se manifestar possam fazê-lo em Samara", disse Merkel, que cresceu na Alemanha Oriental comunista, onde Putin serviu como oficial da KGB. "Estou preocupada porque certas pessoas tiveram problemas para viajar até aqui. Espero que elas tenham a oportunidade de expressar sua opinião."

Putin, que ficou visivelmente irritado depois de ser interrogado repetidamente sobre direitos humanos, disse que a oposição tinha de respeitar a lei. Kasparov disse à BBC na sexta-feira que havia recebido uma autorização das autoridades locais de Samara para se manifestar, mas que "ordens de cima" haviam perturbado seus planos.

Quando Putin foi indagado por um jornalista alemão por que tinha tanto medo de manifestantes, respondeu: "Eles não me incomodam de modo algum. Todos os que querem encenar demonstrações de acordo com a lei têm essa oportunidade. Mas alguns provocam os órgãos da lei a usar a força, e eles reagem de acordo".

Dirigindo-se a pelo menos 200 jornalistas russos e estrangeiros, Barroso disse que a UE dá grande importância aos direitos humanos. "Salientamos a importância da democracia, da liberdade de imprensa, da liberdade de associação, da liberdade de demonstração", ele disse. "São valores que, eu tenho certeza, nos unem, e não dividem. É muito importante para todos os países europeus, e a Rússia é um país europeu, garantir o pleno respeito a esses princípios e valores."

Putin, que deverá deixar o cargo em março de 2008 depois de servir por dois mandatos, disse que sua prioridade é defender os interesses da Rússia. "Precisamos uns dos outros", ele disse, referindo-se à UE, o maior parceiro comercial de seu país. "Estamos abertos para um diálogo honesto entre a Rússia e a UE. Mas precisamos defender nossos interesses da mesma maneira profissional que nossos parceiros fazem."

Antes da entrevista, os três líderes discutiram como solucionar disputas que incluem o futuro estatuto de Kosovo, a proibição russa às importações de carne da Polônia e segurança energética. Diplomatas europeus disseram que Putin não deu indícios de que aceitaria a independência de Kosovo da Sérvia.

Altas autoridades russas chegaram a sugerir que vetariam uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que poria fim aos oito anos de protetorado da ONU em Kosovo e abriria caminho para que a UE supervisionasse a independência de Kosovo.

Putin também se recusou a levantar o embargo aos produtos de carne poloneses, repetindo que eles não cumprem os padrões de saúde da UE. Em conseqüência, a Polônia vetou o início de novas negociações comerciais, que substituiriam o Acordo de Parceria e Cooperação UE-Rússia assinado em 1997.

Putin disse na sexta-feira que queria um novo acordo comercial que refletisse a nova autoconfiança e força econômica da Rússia, comparadas com o caos dos anos 90.

Barroso questionou as razões da Rússia para manter a proibição da carne polonesa. "Acreditamos que não há motivos para isso", ele disse. "Se houvesse um motivo, nós não permitiríamos que a carne polonesa circulasse na UE." Barroso também disse que a Rússia não pode isolar a Polônia do resto do bloco. "Acho que é muito importante se você quiser ter cooperação estreita compreender que a UE se baseia em princípios de solidariedade", ele disse.

Putin respondeu acusando indiretamente a Polônia de "egoísmo econômico, que nem sempre corresponde aos interesses da UE". Ele disse estar consciente da posição européia sobre a necessidade de solidariedade. "Eu perguntei aos meus colegas e eles não se ofenderam: existem limites para essa solidariedade?", Putin perguntou na entrevista coletiva.

As relações entre a Polônia e Rússia, raramente calorosas, se deterioraram depois da eleição no final de 2005 de um governo nacionalista conservador liderado pelo primeiro-ministro Jaroslaw Kaczynski. Elas pioraram em janeiro passado, quando os EUA anunciaram planos de implantar parte de um sistema de defesa antimísseis na Polônia. Putin queixou-se na sexta-feira de que seus colegas poloneses não estavam preparados para o diálogo. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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