Drenagem do 'lago' de vinho da Europa provoca uma briga

Stephen Castle
Em Bruxelas

As medidas para eliminar vastos campos de vinhas, drenar um "lago" de vinho excedente e provocar uma redução dos preços aos consumidores deverão provocar um forte debate nesta quarta-feira (4/7), enquanto a Europa contempla o custo de seu caso de amor com a uva.

Diante da vigorosa concorrência dos produtores do Novo Mundo, e incapacitado pelas complexas regulamentações domésticas, o setor vinícola da Europa foi alertado da necessidade de uma mudança de direção.

Mas nenhum outro pacote de medidas da União Européia (UE) tocou em um nervo exposto como o destinado a sacudir a produção de vinho, que é considerada parte da cultura nacional em muitos dos 27 países membros do bloco.

"Esta é uma das reformas agrícolas mais difíceis", disse Michael Mann, porta-voz da comissária de agricultura da UE, Mariann Fischer Boel. "As pessoas tendem a não ser tão passionais em relação a frutas e legumes."

Apesar disto ser parcialmente resultado da tradição, ela também reflete realidades econômicas. A UE é a maior produtora, consumidora, exportadora e importadora de vinho do mundo.

Logo, os comissários europeus deverão se preparar para uma batalha em prol dos governos nacionais na quarta-feira, que defenderão os interesses dos produtores nacionais de vinho antes da publicação do plano crucial de reforma para todo o setor.

Desde que o plano foi apresentado no ano passado, a repercussão entre os orgulhosos países produtores de vinho forçou a Comissão Européia, a corpo executivo da UE, a reduzir sua proposta para encolher o setor vinícola.

Originalmente, ele planejava eliminar 400 mil hectares de vinhas, uma meta que agora foi reduzida para 200 mil hectares. Segundo os planos, a UE também eliminaria os subsídios para destilação do vinho não vendido para a indústria do álcool, uma das principais formas de reduzir o "lago de vinho" da Europa.

Em vez disso, ela disponibilizaria os pagamentos diretamente aos agricultores, os encorajando a diversificar em vez de produzir em excesso vinho de baixa qualidade. Mas tal plano provocou uma batalha feroz entre os países que esperam se beneficiar e querem maximizar seus subsídios.

Os países não produtores de vinho, por sua vez, querem manter o máximo controle possível dos gastos. Outra mudança proposta removeria as restrições aos produtores de vinho bem-sucedidos, que em 2014 poderiam plantar mais vinhas, "permitindo aos produtores mais eficientes a otimização do tamanho de suas propriedades e a operarem a escala de produção mais conveniente", segundo a comissão.

Outra mudança importante que provavelmente será aprovada seria a proibição do uso de açúcar para adoçar ou aumentar o nível de álcool do vinho. Isto provavelmente encontrará oposição de produtores do norte como Alemanha, Áustria e Luxemburgo.

A proposta também permitiria 120 milhões de euros por ano para promoção do beber moderado de vinho. Seja o que for que aconteça na quarta-feira, não há dúvida de que muitos produtores de vinho europeus estão destinados a um período de dores. Uma avaliação do impacto que será estudada pela comissão reconhece que as mudanças planejadas causariam sofrimento, apesar de argumentar que a pior opção é não fazer nada.

"Diante da perspectiva a médio prazo, para o setor de vinho da UE a opção de não reformar levaria a crescentes excessos de produção, que se tornariam insustentáveis", disse o documento, acrescentando que a atual crise provocaria uma deterioração dos preços e da renda rural.

As mudanças planejadas pela comissão, dizem seus documentos, "levariam a uma queda nos preços em curto prazo", apesar de que isto teria um "impacto menos pronunciado nos preços", uma queda de 7%, do que no "cenário sem reforma", uma queda de 11%.

A avaliação de impacto destaca quanto está em jogo para os países que produzem vinho. O documento diz que em 2009, "o ano com eliminação mais intensa das vinhas, o emprego rural nas fazendas produtoras de vinho cairia em 5,1%. Os governos da UE terão a palavra final sobre os planos ainda neste ano. George El Khouri Andolfato

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