O caminho democrático da Índia

Salil Tripathi*

Em sua independência encharcada de sangue, há 60 anos, a Índia e o Paquistão embarcaram em experimentos únicos, da construção de suas nações. O Paquistão uniria grupos étnicos diversos, com línguas e culturas diferentes, com uma fé comum - o islã - mesmo com a distância de quilômetros entre sua ponta oriental e ocidental e com a sua vizinha considerada hostil, a Índia, no meio.

O sonho indiano era de unir um corpo ainda mais diverso de grupos étnicos, línguas, castas, culturas e religiões e construir um país com base nos ideais de democracia secular e liberal.

A diferença entre as duas visões é tão fundamental que os muitos laços que unem as duas nações - música, cinema, comida, críquete, cultura e uma história compartilhada - não conseguem superá-la.

Arif Ali/AFP - 1.mai.2003 
Soldado paquistanês (esq.) e indiano participam de cerimônia na fronteira comum

O Paquistão fez da religião sua peça central, tornando as pessoas subservientes ao Estado. A Índia, apesar de sua religiosidade visível, ateve-se oficialmente ao secularismo, e suas instituições lutaram para manter o povo politicamente livre na maior parte de sua história pós-independência - com a exceção do "Estado de sítio", de 1975 a 1977, quando a primeira-ministra Indira Gandhi suspendeu importantes partes da constituição e prendeu muitos de seus opositores.

Nunca houve uma disputa entre os dois países: afinal, a Índia é muito maior e tem muito mais habitantes - mas o mundo e o Paquistão viam uma rivalidade.

A política da Guerra Fria polarizou esse pensamento. O Paquistão aliou-se aos EUA e, por algum tempo, foi membro da Organização do Tratado Central; a Índia optou ostensivamente pelo não alinhamento, mas, em essência, apoiou as posições soviéticas em muitas questões.
Apesar disso, para grande frustração da Índia, ela não conseguiu se distanciar da política do subcontinente.

Estranhamente, foram os testes nucleares competitivos de 1998 - e não o teste nuclear indiano original de 1974 - que ajudaram a Índia a se afastar da constante comparação com o Paquistão. Ao declarar seu programa nuclear, o Paquistão achou que assegurava paridade; em vez disso, tornou-se objeto de pressão internacional. A Índia escapou de muitas censuras porque já era uma economia em expansão; seus negócios eram críticos ao mundo globalizado de empresas multinacionais e comércio; e as conquistas que a Índia considera as jóias da coroa - seu Estado de direito, sua elite anglofalante e seu setor privado dinâmico - estavam sendo reconhecidas internacionalmente.

Certamente, os dois tiveram lutas internas: a Índia em Punjab, na Caxemira e no nordeste. O Paquistão teve conflitos em suas províncias de fronteira; sua capital empresarial Karachi, tornou-se terra sem lei, e sua estrutura social viu-se desintegrada após a invasão soviética do Afeganistão em 1970.

A invasão ajudou a consolidar o governo de quase uma década do general Muhammad Zia ul-Haq, sob cuja liderança o Paquistão adotou uma forma de islamismo que seus fundadores nunca almejaram.

Pode-se argumentar que o Paquistão teve pouca escolha, quando decidiu ser uma teocracia. Quanto mais a sociedade paquistanesa se modernizava e mais seu povo procurava a liberdade, mais o Paquistão parecia com a Índia. Mas ser como a Índia não era a idéia da Partição: a idéia era criar um lar para os muçulmanos do subcontinente que presumivelmente não estariam seguros na Índia.

Apesar de a Índia ter um histórico vergonhoso de confrontos nos quais muitos muçulmanos morreram, e apesar de muitos muçulmanos levarem vidas de total destituição na Índia (mas nesse sentido, muitos hindus e outros também), o país elegeu presidentes muçulmanos e nomeou muçulmanos para chefiar as forças aéreas e a suprema corte. Os muçulmanos dominaram Bollywood, jogaram críquete pela Índia e fundaram empresas multimilionárias. No Paquistão, o histórico de avanços para as minorias foi mais fraco.

A fé, por si só, não podia unir o Paquistão, de qualquer forma. O Paquistão do Leste adotou seu próprio caminho, tornando-se Bangladesh em 1971, após uma guerra civil que matou mais de 300.000 civis. Em 1984, o astuto autor britânico de origem paquistanesa Tariq Ali levantou perguntas pertinentes sobre seu antigo lar, em um livro chamado "Can Pakistan Survive?" (O Paquistão Pode Sobreviver?) Um ano depois, M.J. Akbar, autor indiano, escreveu um livro sobre a Índia sóbrio e, mesmo assim, otimista, chamado "The Siege Within" (O Cerco Interno), sugerindo que, apesar da inquietação interna, o país se manteria unido porque sua forma democrática permite a dissensão.

Hoje, a Índia sugere imagens da cidade de alta tecnologia de Bangalore e shoppings em Gurgaon, e o Paquistão faz muitos estrangeiros pensarem nas madrasas de onde emergem militantes. De fato são caricaturais, mas, como todos os clichês, essas imagens têm um grão de verdade.

Evidentemente, nem tudo vai bem na Índia. Maoístas controlam partes do interior indiano; as guerras de castas não acabaram; explosões de bombas ocorrem periodicamente; e há preocupações de um aumento da desigualdade. (De fato, após 15 anos de reformas econômicas, a Índia tirou mais pessoas da pobreza absoluta do que em qualquer época de sua história.) A Índia teve sucesso não só em se libertar de ser comparada constantemente com o Paquistão, mas está sendo levada razoavelmente a sério em questões mundiais.

O acordo nuclear entre a Índia e os EUA e o importante papel que a Índia tem nas atuais negociações de comércio global são exemplos disso.
O que causou essa mudança de percepção?

Escolhas nacionais podem ser a resposta. O Paquistão adotou, para unir a nação, duas forças que requerem submissão à autoridade - religião e exército.

A corrupção de seus militares não podia ser questionada; e seus líderes democráticos raramente tinham a oportunidade de completar seus mandatos.

Na Índia, tais escolhas foram deixadas para o povo. Os militares, em grande parte, permaneceram nos quartéis; saíam a cada ano em janeiro, no dia da República, como a prataria da família em dia de aniversário. É claro que suprimia - freqüentemente brutalmente - as insurgências no nordeste, Punjab e Caxemira. Mas essas insurgências existiam, em primeiro lugar, porque a Índia não estendia plenamente sua democracia a essas regiões.

Em outras partes, a Índia acreditou na base democrática - com a qual as pessoas podiam votar a saída de governos e eleger líderes que melhor representassem seus interesses.

Quando a pressão política aumentava, a Índia tinha um mecanismo que permitia a redução da pressão. O Paquistão não - exceto raramente e por isso é ainda mais notável a recente retratação do juiz Iftikhar Chaudhry à Suprema Corte, de quem o presidente Pervez Musharraf claramente não gosta.

O crescimento da China fez renascer o antigo debate: a democracia ajuda ou dificulta o desenvolvimento? O contrato chinês - que o prato sempre terá arroz, mas os camponeses não devem fazer perguntas - pareceu atraente para muitos autocratas em torno do mundo, que retratam a liberdade de expressão e liberdades civis como luxos inconvenientes que os países pobres não podem ter.

O Paquistão, entretanto, demonstra que a ausência de democracia não significa um crescimento forte sustentável ou uma ordem estável. E a velha desculpa da Índia - que sendo democrática não pode crescer rapidamente - também está se enfraquecendo. É uma das economias que mais crescem no mundo hoje. O que mantém as nações livres e prósperas, então, são essas liberdades fundamentais - pensar, falar e vender.

Por quase metade de seus 60 anos, o Paquistão foi governado por generais não eleitos, e sua economia ainda se assemelha aos monopólios feudais. Em seus primeiros 45 anos, os indianos tiveram liberdade política abundante, mas liberdade econômica restrita - ricos indianos podiam ter o carro que quisessem, desde que fosse um Ambassador branco. Isso mudou, seu povo está livre, e suas empresas estão chegando lá. Esse é o verdadeiro significado da liberdade e a principal lição deste aniversário, para as duas nações e além.

* Salil Tripathi é escritor e mora em Londres. O Paquistão fez da religião sua peça central; a Índia, apesar de sua religiosidade visível, oficialmente atém-se ao secularismo Deborah Weinberg

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