Mercados: O que vem a seguir?

Barbara Wall

A confusão nos mercados de crédito reduziu a pressão sobre as taxas de juros nos Estados Unidos e na Europa, mas a inflação, ou pressão inflacionária, não desapareceu. Seis investidores especialistas opinam, dizendo se acham que o recente tumulto e o declínio geral no poder de compra poderiam ainda representar uma grande ameaça para a economia global e os mercados de ações.

Duncan Weldon, analista da Bedlam Asset Management, em Londres

A inflação, que era uma preocupação há vários meses, foi afogada pelo colapso no mercado por dívidas de hipotecas dos Estados Unidos e por uma queda da confiança causada pela convulsão dos mercados de crédito. Isso não significa que a inflação tenha desaparecido, mas apenas que ela não é tão maligna como diversos observadores queriam fazer acreditar. O colapso do crédito representa uma ameaça maior do que a inflação para os mercados. As políticas de empréstimos dos bancos têm sido flexíveis, e é difícil analisar o conteúdo dos balanços patrimoniais e riscos de crédito com um nível satisfatório de confiança. Nós estamos movendo o peso das carteiras de ações dos clientes para um valor próximo a zero, e nos voltando para o setor de telecomunicações, no qual enxergamos valor. A única coisa que se pode afirmar com um grau de certeza é que a situação do consumidor norte-americano só pode piorar. Até o momento, US$ 197 bilhões relativos a hipotecas nos Estados Unidos foram renegociados neste ano. Isso é significativamente menos do que os US$ 521 bilhões que deverão ser renegociados em fevereiro e março de 2008. Uma conseqüência disto é que a Bedlam procurará evitar qualquer investimento que esteja exposto ao consumidor norte-americano. O nosso principal objetivo para o resto do ano é identificar áreas de investimentos capazes de abranger tendências mais amplas. O colapso do crédito não terá um impacto tão grande em mercados menos endividados como a Alemanha e o Japão, onde ainda é possível encontrar boas oportunidades de crescimento. Uma recente aquisição foi a Praktiker, uma companhia alemã. Também gostamos de companhias de soft-commodities, já que elas são bons exemplos de negócios que têm o seu próprio ciclo de rendimentos. Entre as potenciais beneficiadas pelo aumento dos preços das soft-commodities estão a Yara, uma produtora de fertilizantes a base de nitratos; a Mosaic, uma grande produtora de potássio e fosfato; e a Kverneland, que fabrica equipamentos agrícolas. A infra-estrutura global é um outro setor que deverá continuar prosperando neste ano. Não há indicações de que os investimentos em infra-estrutura estão diminuindo. Entre as companhias que têm chance de se beneficiar estão as gigantes do setor, como a Siemens, a Mitsubishi Heavy Industries e a Alstom.

Simon Ward, diretor de economia, New Star Asset Management, em Londres

Os investidores deveriam estar se preocupando com a inflação por dois motivos. Primeiro, o crescimento global de oferta de dinheiro acelerou-se e as tendências monetárias tendem a gerar inflação, apesar de que com uma lacuna de dois anos. A ampla expansão monetária entre o G7 (grupo dos sete países mais ricos do mundo) está próxima de 9% ao ano, o valor mais rápido desde 2002; e o crescimento é ainda mais robusto em vários mercados emergentes. Segundo, existe uma capacidade de reserva limitada na economia mundial, o que significa que as firmas e os trabalhadores contam com um maior "pricing power" (a capacidade das empresas de aumentar suas margens de lucro, elevando seus preços) potencial. A utilização de capacidade industrial no G7 está no seu patamar mais elevado desde meados da década de 1990, e a história mostra que níveis similares estão muitas vezes associados a um aumento do núcleo de inflação. A crise de crédito se insinuará pela economia global e esfriará as tendências, mas não o suficiente para justificar uma redução de taxas de juros. Embora as expectativas do mercado tenham se deslocado nessa direção, uma redução das taxas neste momento poderia ser contrária à lógica. Se a inflação retornar mais forte do que antes, os formuladores de políticas econômicas serão forçados a retroceder e aumentar agressivamente as taxas. Isso poderia ter sérias conseqüências para o crescimento econômico. A inflação mais alta normalmente favoreceria as ações e a propriedade de títulos e capital. A valorização de propriedade parece ser alta em diversos países, de forma que as ações podem ser uma aposta melhor. No que diz respeito às ações, não estou convencido de que os setores relacionados a mercadorias, que são uma tradicional proteção contra a inflação, vão necessariamente mostrar um bom desempenho. As ações de mercadorias já subiram substancialmente, e o setor é sensível ao ciclo econômico global, de forma que ele poderia sofrer caso os bancos centrais fossem obrigados a conter o crescimento para reduzir as pressões inflacionárias.

Alistair Thompson, vice-presidente de ações da região Ásia-Pacífico do First State Investments, em Edimburgo

Não há dúvida de que a inflação representa uma ameaça à economia global. O que me surpreende é que todo mundo aceita sem contestação os números citados pelos formuladores de políticas econômicas.
Acreditamos que a política monetária nos Estados Unidos está bem defasada em relação à curva e que as taxas de juros terão que ser aumentadas drasticamente a fim de que se contenham as pressões inflacionárias. Uma redução da taxas de juros por parte do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) neste momento seria perigosa, já que acirraria o problema da inflação ainda mais.
Recentemente a China passou a ficar sob a luz dos holofotes devido à disparada dos preços dos alimentos e da inflação dos salários. Deveríamos estar preocupados? Provavelmente, já que a inflação provocará temores de que a economia possa estar se super-aquecendo. A inflação não restringe apenas ao setor de alimentos: existem indicações de ela se disseminar pelo cenário econômico mais amplo. Por exemplo, a inflação salarial supera os 20%. Um aspecto positivo é que o ajuste do preço do risco e a redução dos valores dos ativos serão saudáveis para a região. Os investidores de longo prazo também deverão colher algum benefício das maciças reservas da China em moeda estrangeira, que ajudará os mercados de ações. A memória da crise financeira da Ásia ainda é forte entre os líderes empresariais da região, e isso é um motivo de certo alívio. Quase todo diretor financeiro com o qual nos reunimos se refere á crise asiática e às lições que foram aprendidas. Como resultado, há uma superabundância de companhias de boa qualidade na Ásia, que cairão a um preço razoável em uma redução do mercado. Nós preferimos companhias com aumentos sustentáveis de rendimentos, cujas operações basicamente não serão afetadas pela atual crise de crédito. Os exemplos incluem a China Resource Enterprises, a maior cervejaria e operadora de supermercados da China; a Shinsegae, uma franchise de alta qualidade da Coréia do Sul; a Uni-President, que controla a franchise 7-Eleven em Taiwan e tem algumas operações de alta qualidade no setor de alimentos e bebidas na China; a Fraser & Neave, que fabrica diversas marcas fortes de bebidas, incluindo a cerveja Tiger, a 100PLUS e a Coca Cola.

Paul Chesson, gerente de investimentos no Japão da Invesco Perpetual Securities, em Londres

O Japão é um dos poucos mercados desenvolvidos que não teve nenhum problema com a inflação neste ano. O ambiente geral de crescimento ainda é débil após anos de deflação, e houve poucos sinais de que o país mudaria de direção. A economia doméstica continua lenta, o crescimento salarial tem desapontado e o mercado de ações tem sido um péssimo local para se investir. Considerando que o Japão está começando a partir de um patamar tão baixo, alguns observadores podem ver o mercado como um bom investimento defensivo em uma liquidação global. Esta não é uma opinião que eu necessariamente apoiaria. Se a lucratividade corporativa tivesse que melhorar no Japão, ela já o teria feito antes. O Japão depende intensamente das suas exportações, continua altamente sensível aos riscos econômicos globais e ainda pode desapontar. Não estamos encontrando muitas oportunidades de investimento no Japão. Os meus colegas da mesa de ações do Reino Unido estão se deparando com uma situação bem melhor. Como é provável que nos próximos meses uma característica dos mercados de ações seja a extrema volatilidade, eu me inclinaria mais a apoiar as companhias blue-chip (ações de uma empresa de prestígio, que são consideradas lucrativas e estáveis) pagadora de dividendos em setores defensivos das economias dos Estados Unidos e do Reino Unidos, tais como as do setor farmacêutico, de serviços públicos e de telecomunicações.

Udo Rosendahl, estrategista do mercado acionário europeu da DWS Investmentes, em Frankfurt

Não acredito que estejamos nos dirigindo para uma recessão. E tampouco apóio a teoria de que a inflação está embutida na economia, e que ela voltará e nos morderá. No entanto, acho que este é um bom momento para a reflexão ponderada. O verão é dificilmente o melhor momento para os mercados de ações, de forma que não há problemas em obter lucros em setores que têm se saído bem neste período, como o de bens de consumo e infra-estrutura. Muitos investidores preferirão sentar-se à margem dos acontecimentos até que o quadro do mercado torne-se um pouco mais definido. Se a crise de crédito tiver diminuído até o final de setembro e a economia global ainda estiver dentro da meta de crescimento de 4%, então poderá ser o momento de fazer com que algum dinheiro volte a gerar lucros. Eu procuraria companhias com rendimentos fortes e sustentáveis em áreas que oferecem um valor decente, como a de tecnologia, seguro e artigos de luxo. Eu também gostaria de revisitar o setor de bens de consumo. As ações dos bancos têm enfrentado trimestres difíceis, mas eu seria contrário à atitude de evitar completamente este setor. Alguns dos bancos gregos poderão apresentar um bom desempenho no ano que vem, especialmente aqueles presentes em economias de rápido crescimento, como Ucrânia e Bulgária.

Andrew Milligan, diretor de estratégia global da Standard Life Investments, em Edimburgo

Os medos da inflação e da crise dos mercados de crédito deveriam se inserir em um contexto de longo prazo. Nós ainda consideramos positivas as perspectivas de longo prazo para o mercado de ações e os de títulos das grandes corporações. Temos mantido as nossas fortes posições de derivativos em carteiras de ações gerenciadas, conforme a rentabilidade corporativa permanece robusta, os balanços gerais estão em bom estado e a economia global continua em uma curva de alta com mercados de trabalho flexíveis limitando os riscos de inflação na maioria dos países. Por outro lado, em um sinal de que é preciso ter cautela, não vi nada que sugira que as vendas indiscriminadas chegaram ao fim. É inconcebível que os vários fundos de hedge que estavam sob pressão para vender tenham sido capazes de se ajustar à liquidação da semana passada. À medida que os fundos de hedge deixam o mercado, poderemos presenciar a entrada de outros grupos de investidores. O setor de private equity (investimento em valores mobiliários de empresas com expressivo potencial de crescimento, capaz de gerar retornos superiores a média de mercado, proporcionais ao alto risco e à baixa liquidez do investimento), pequenos investidores individuais e os sovereign wealth funds poderão ser persuadidos de que várias ações, particularmente a dos pagadores de dividendos europeus, oferecem bons valores. UOL

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