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08/09/2007
Cozinhando com Pavarotti

De Anna Esaki-Smith*

Foi próximo do final de um banquete pós-concerto, no interior do Shanghai Grand Theater, quando conheci Luciano Pavarotti. Ele fez sua entrada pela cabeceira da mesa e se inclinou regiamente, com sua mão direita contra o peito, o cachecol de chiffon colorido ao redor de seu pescoço ondulando suavemente.

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As pessoas reunidas -autoridades chinesas, jornalistas, alguns americanos que pagaram US$ 700 pelo ingresso- começaram a aplaudir, com as bocas cheias de comida. Após uma pausa para olhar seus admiradores, Pavarotti caminhou mancando até sua cadeira, se sentou e começou imediatamente a comer.

A China seria um negócio rentável para Pavarotti, concluíram os cínicos. O Rei dos Dós abriu os olhos à idéia de que, se mais de um bilhão de chineses podiam comer no McDonald's ou comprar tênis Nike, por que não poderiam comprar CDs dos 'Três Tenores'?

O concerto de dezembro de 2001 -rotulado como uma data de sua turnê de despedida já naquela época- foi uma decepção, uma atuação morna cheia de sucessos populares como "O Sole Mio", mas carente das notas altas características e, em geral, de qualquer maior empolgação.

Olhando para trás, minhas expectativas deviam ser altas demais. Em nenhum outro lugar a voz do tenor italiano foi mais viva do que na cozinha de minha mãe japonesa em Chappaqua, Nova York. Ele colocava os discos que gostava e então preparava peixe com rabanete na panela enquanto Pavarotti cantava "Una furtiva lagrima" de "L'Elisir d'Amore".

"Ela me ama!", ele cantava enquanto ela colocava molho shoyu na panela, "eu vejo. Apenas um momento para ouvir seu coração batendo tão próximo do meu".

Árias e duetos permeavam nossas vidas. O "Parigi o cara" claramente
pronunciado por Pavarotti de "La Traviata" me despertava nos fins de semana, e enquanto sua voz se misturava a de Joan Sutherland, meu cérebro era tomado por italiano indecifrável.

Nos dias particularmente jubilantes na cozinha, minha mãe tocava "Libiamo ne' lieti calici", a canção de beber de "Traviata", com seu refrão contagiante reverberando pela casa, e a voz soprano dela ecoando na cozinha.

Como Pavarotti era comparado aos seus contemporâneos? Bem, minha mãe era clara sobre suas opiniões. "A voz de Domingo não tem um décimo do charme da de Pavarotti", ela declarava com desdém característico.

Ela adorava a bagunça indisciplinada de seu ídolo, sua confiança infantil
repelindo as críticas de que não sabia ler partitura apropriadamente ou de que nunca se arriscava artisticamente. Ela até mesmo o perdoou quando
Pavarotti deixou sua esposa de tantos anos para se casar com sua jovem
assistente, um evento que ocorreu tendo como fundo sua própria experiência amarga de assistir a partida de um marido.

Quando me aproximei de Pavarotti naquela noite, eu estava armada com o
verniz profissional de ser uma jornalista a trabalho em Xangai.

Mas assim que olhei para seu rosto largo, familiar, as sobrancelhas escuras erguidas em expectativa, eu comecei a dizer futilidades. Eu lhe falei sobre a felicidade que deu a minha mãe, como no coração ela era japonesa, mas sentia uma ligação com seu canto que a ancorou enquanto se adaptava a uma existência ocidental. Eu quis agradecê-lo por ajudá-la a se sentir em casa em um mundo estranho, estrangeiro.

Pavarotti acenou agradavelmente com a cabeça, mas com um vazio que indicava que ele já tinha ouvido este discurso várias vezes antes. Eu estava, naquele momento, misturada às legiões de fãs de cidades de todo o mundo que contavam histórias semelhantes.

Para ele, a adulação era normal e esperada. Ele me deu um autógrafo -após substituir minha caneta sem personalidade por uma mais grossa de ponta de feltro que tirou de sua jaqueta preta- e acabou.

Certamente não é um final de conto de fadas. Meu encontro face a face com Pavarotti foi tão impessoal quanto uma operação bancária com o caixa do banco.

Mas no dia em que ele morreu, eu telefonei para minha mãe na casa dela. Ela estava silenciosa e retrospectiva, dizendo que nunca ouviria uma voz como aquela em sua vida. A morte dele também a deixou ainda mais ciente de sua própria idade, ela disse, de sua própria mortalidade.

Apesar de ter tentado desviar a conversa do assunto final que filhos
crescidos enfrentam com pais idosos, eu mesma senti um pouco a passagem do tempo. O tenor que encheu nosso lar com tal exuberância agora era um lembrete de algo que passou.

"Vamos nos deleitar, pois o amor queima depressa", Violetta canta em "La
Traviata", "uma flor que desabrocha e morre".

*Anna Esaki-Smith é autora do romance "Meeting Luciano".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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