Relatórios divulgados nos EUA e na Europa abalam confiança na economia

Katrin Benhold
Em Paris

Temores de que haja uma desaceleração global do crescimento econômico aumentaram na quarta-feira (26/07), depois que relatórios recentes somaram-se aos sinais de que a crise nos mercados de crédito está prejudicando a economia real dos dois lados do Oceano Atlântico.

Nos Estados Unidos, onde a crise no mercado imobiliário já teve um reflexo negativo sobre os gastos dos consumidores, o Departamento do Comércio anunciou que as encomendas de bens duráveis - englobando tudo, de aeronaves comerciais a eletrodomésticos - caíram 4.9% em agosto, indicando que o setor de investimentos pode ser incapaz de compensar essa deficiência.

E os ânimos estão igualmente abatidos na Europa. Uma pesquisa indica que a confiança dos consumidores da Alemanha, a maior economia européia, caiu para o patamar mais baixo dos últimos cinco meses. E duas outras pesquisas revelaram que os industriais franceses e italianos têm se mostrado cada vez mais pessimistas quanto à situação, após um drástico declínio da confiança empresarial alemã, registrado na última terça-feira.

Os últimos dados representam mais um golpe sobre as esperanças européias de que o continente possa suportar a desaceleração econômica nos Estados Unidos. Os políticos europeus têm procurado minimizar o risco de um contágio, simulando coragem enquanto os economistas reduzem gradualmente as suas previsões de crescimento para a região. Alguns ainda insistem que o colapso no mercado imobiliário de risco dos Estados Unidos não causará impacto nenhum sobre eles.

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, por exemplo, sustenta a sua previsão de crescimento de 2% a 2,5% para este ano e o ano que vem, ainda que os bancos e instituições internacionais sejam quase unânimes em prever um crescimento inferior a 2%.

E a Europa tornou-se menos dependente do crescimento norte-americano. As exportações para os Estados Unidos representam menos de 3% da economia da zona do euro, fazendo com que surgisse a teoria de um desvinculamento entre a dinâmica econômica européia e a norte-americana. Mas os analistas afirmam que essa dissociação não protege as companhias e os consumidores europeus do recente aumento dos custos dos empréstimos.

O coro de vozes alarmistas fica cada vez mais alto. No último domingo o governo alemão admitiu pela primeira vez que os problemas nos Estados Unidos poderão ter repercussões negativas sobre a economia alemã.

"O vínculo estreito entre os mercados financeiros significa que as mudanças econômicas globais estão se fazendo sentir na nossa economia doméstica de forma mais intensa e precoce do que costumava ocorrer", declarou o ministro alemão da Economia, Michael Glos, ao jornal "Frankfurter Allgemeine Zeitung".

Em países como Espanha e Irlanda, nos quais o mercado imobiliário tem sido um grande fator de contribuição para o crescimento, os efeitos da crise do mercado de crédito poderão ser os mais imediatos. Mas por toda a região, os bancos mostram-se nervosos na hora de emprestarem uns aos outros, e os índices de empréstimos desabaram.

Para aumentar as preocupações o barril de petróleo subiu recentemente para mais de US$ 80, e o euro continua batendo recordes de valorização em relação ao dólar. Os altos preços da energia provocaram o aumento dos custos das companhias, enquanto o euro forte tornou as exportações européias mais caras.

O fator-chave para determinar a dimensão dos danos que poderão ser causados à economia européia consiste em determinar se a economia norte-americana mergulhará ou não em uma recessão, afirmam os analistas. Os temores quanto a uma recessão diminuíram depois que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) reduziu as taxas de juros em meio ponto percentual neste mês, mas os mercados continuam nervosos. Depois que o Departamento do Comércio divulgou o seu relatório sobre bens duráveis, os economistas do Morgan Stanley reduziram a sua previsão de crescimento no terceiro trimestre nos Estados Unidos de uma taxa anual de 2,4% para 2,2%.

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson Jr., disse esperar que o crescimento norte-americano acelere-se na segunda metade de 2007, disse o ministro das Finanças da Índia, Palaniappan Chidambaram, à Bloomberg News, após uma reunião com Paulson na quarta-feira.

Uma súbita desaceleração econômica na Europa poderia minar a capacidade das maiores economias do continente de conter os déficits orçamentários e implementar as urgentes reformas econômicas, alertam os analistas. Depois que a Alemanha reformulou o seu mercado de trabalho, as esperanças voltaram-se para a França, a segunda maior economia na zona do euro.

Desde o verão, Sarkozy acelerou a sua agenda a fim de implementar uma ambiciosa plataforma de reavivamento da economia, mas um crescimento mais lento poderia complicar essa tarefa, deixando-o com pouca margem de manobra para agradar aos eleitores com medidas que poderiam suavizar o impacto das mudanças de políticas.

Na quarta-feira, ele revelou o seu primeiro orçamento, prometendo aumentar o crescimento econômico com um pacote de investimentos de 272 bilhões de euros (cerca de R$ 770 bilhões) - uma semana após o seu primeiro-ministro advertir que o país está "falido". Sarkozy está promovendo uma redução nos impostos equivalente a US$ 9 bilhões, a fim de estimular os gastos dos consumidores.

Sarkozy irritou Bruxelas ao adiar a promessa do seu antecessor de equilibrar o orçamento da França entre 2010 e 2012. As propostas feitas na quarta-feira antecipam apenas um modesto declínio do déficit, de cerca de 2,4% do produto interno bruto neste ano para 2,3% em 2008.

Mas, conforme observam os economistas, até mesmo essa queda modesta dá a impressão de ser ambiciosa tendo em vista que o financiamento do orçamento se baseia em uma previsão otimista de crescimento que foi feita antes das recentes turbulências nos mercados financeiros. UOL

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