Europeus devem parar de chorar e começar a viajar pela China

Martin Adams
Em Pequim

Os preparativos para o encontro de cúpula da União Européia e China me lembram uma cena que testemunhei recentemente em Xangai: eu e as demais pessoas no restaurante não tivemos escolha a não ser suportar um empresário europeu repreendendo em voz alta um homem que parecia ser seu parceiro comercial chinês. "Você precisa expor o plano lá fora e colocá-lo no papel", exclamou o estrangeiro, dando tapinhas irritantes na cabeça dele.

Igualmente indiferente, o comissário de comércio da União Européia, Peter Mandelson, estava no modo "sr. Desagradável" em Pequim nesta semana. Comentários francos sobre segurança dos produtos, barreiras comerciais e desequilíbrio na balança comercial provocaram réplicas sucintas de seus anfitriões.

Enquanto no passado Bruxelas falava mansamente e fazia lobby por mudanças na China nos bastidores, recentemente ela exibiu seu porrete. Foram ameaçadas tarifas antidumping. Empresários europeus estão manifestando cada vez mais abertamente suas longas listas de queixas: falta de transparência regulatória, violações de direitos de propriedade intelectual, burocracia e assim por diante.

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, pressionou a China a valorizar o yuan durante sua recente viagem a Pequim, enquanto as relações diplomáticas entre China e Alemanha começaram a mergulhar em parafuso depois do encontro da chanceler Angela Merkel com o Dalai Lama, em setembro.

Toda esta choradeira está ficando altamente tediosa. A China de fato é um local frustrante para se fazer negócios, mas os empresários estrangeiros daqui deviam saber que as mudanças deverão ocorrer lentamente -mesmo porque o poder de Pequim de impor sua vontade ao país como um todo é limitado. Além disso, a China está conseguindo progressos graduais em questões como direitos de propriedade intelectual e segurança dos produtos (apesar das empresas estrangeiras que pressionam os fornecedores chineses a cortarem custos serem em parte culpadas por este último, para começar).

As energias da Europa seriam melhor gastas em um maior esforço para vender mais produtos e serviços europeus para a China e competindo para atrair mais investimento chinês para a Europa. Esta é a forma mais certa de corrigir o desequilíbrio na balança comercial com a China.

Os europeus estão apenas começando a entender o que isto significa: eles precisam deixar suas zonas de conforto nas três principais cidades chinesas -Pequim, Xangai e Guangzhou- e se aventurar pelas demais cidades chinesas.

Muitos dos China-céticos da Europa provavelmente nunca ouviram falar de cidades como Chengdu (atualmente lar de uma impressionante zona de alta tecnologia graças à presença da Intel ali), Chongqing (capital das motos) ou da costeira Dalian (também se destacando em tecnologia da informação). Ou da capital do aço, Wuhan, cuja ascensão se deve em parte à diversificação na manufatura de fibra óptica. Ou de qualquer um dos crescentes bolsões de recente riqueza em um país em grande parte empobrecido.

Cidades como estas estão experimentando um rápido crescimento do poder de consumo, boom imobiliário e afluxo de capital estrangeiro e doméstico. Cada vez mais, elas oferecem para fabricantes menores alternativas viáveis para cidades mais caras como Xangai e novos mercados para bens europeus.

Os americanos lideram o avanço para o interior. Algumas empresas européias (principalmente francesas e alemãs) estão tirando o atraso. O Carrefour, por exemplo, tem um pequeno império de outlets em tais lugares, onde enfrenta o Wal-Mart. A Lafarge, a maior fabricante de cimento do mundo, está deslocando suas operações para o oeste, tentando permanecer à frente da maré de desenvolvimento de infra-estrutura que segue na mesma direção, enquanto Pequim tenta desenvolver as regiões interioranas mais pobres. A Siemens está encontrando novas oportunidades na direção oeste.

E não são apenas corporações multinacionais: um crescente número de corajosos pequenos empreendimentos europeus também estão prosperando longe dos grandes centros, seja em manufatura, design ou simplesmente vendendo produtos europeus. Lugares como Kunming, a capital da província de Yunnan no sudoeste, por exemplo, oferece mercados virgens tentadores para produtos como pequenas marcas de vinho européias.

Mas o progresso da Europa é desigual. O Reino Unido se destaca como particularmente atrasado na China. Seus pontos fortes econômicos deveriam se encaixar bem com os da China, mas decepciona. Os empresários britânicos aqui sugerem que há falta de informação disponível no Reino Unido sobre a China -um problema compartilhado por outros países europeus.

Mas aqui também pode ser detectada o ingresso da moeda inglesa. A Tesco, que comprou sua parceira chinesa há um ano, agora espera alcançar o Carrefour e o Wal-Mart.

É claro que muitas empresas locais seriam parceiras incompatíveis. O gerente chinês vítima de abuso no restaurante de Xangai não é atípico -muitas empresas chinesas nem mesmo contam com um plano de negócios por escrito.

Para tirar proveito dos mercados e bases de manufatura no interior, as autoridades e empresas européias precisam dedicar mais tempo para conhecer as empresas locais, o que parece não estar acontecendo.

É por isso que aqueles reunidos em Pequim para o encontro de cúpula devem tomar nota do que os britânicos descobriram em suas viagens: nas prefeituras, as autoridades britânicas geralmente tomam conhecimento de que franceses, alemães e outros já estiveram lá. Mas quando procuram as empresas de fato, elas costumam descobrir que são as primeiros.

Em outras palavras, se os países europeus querem equilibrar as relações com a China, eles precisam dedicar mais tempo organizando suas próprias atividades nas províncias e menos tempo intimidando Pequim. Se os países europeus desejam equilibrar mais as relações comerciais com a China, eles precisam passar mais tempo nas províncias e menos tempo intimidando Pequim. George El Khouri Andolfato

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