Três anos depois do tsunami, pelas lentes das crianças

Seth Mydans

Neste mês o governo indonésio entregou a 100.000ª nova casa na Província de Aceh, três anos após as imensas ondas de um tsunami terem provocado um dos desastres naturais mais mortíferos na história.

Estradas, pontes, escolas, hospitais, portos e campos de aviação também foram construídos em Aceh, e grande parte da população deslocada encontrou novos lares.

Um progresso semelhante ocorreu no Sri Lanka, Tailândia e outros países no Oceano Índico, onde as ondas causadas após um terremoto além da costa da Indonésia mataram 260 mil pessoas na manhã de 26 de dezembro de 2004.

Tarmizy Harva/Reuters - 19.dez.2007 
Operários trabalham na construção de casas em Aceh, na Indonésia

Agora o desastre já faz parte do passado. Mas para aqueles que sobreviveram a ele, não há uma fronteira clara entre o passado e o presente. O tsunami faz parte do presente deles, assim como de seu futuro.

Para alguns, as lembranças são paralisantes, dizem funcionários de ajuda humanitária, e existem vários programas nas áreas atingidas para ajudar as pessoas a retomarem suas vidas.

Em um destes programas, a Cruz Vermelha Americana distribuiu câmeras descartáveis para cerca de 80 crianças em Aceh e no Sri Lanka e lhes disse para se concentrarem nas coisas felizes de suas vidas.

"Algumas crianças, após o tsunami, perderam sua criatividade e seu interesse na vida normal", disse Manan Kotak, um especialista em programa psicossocial da Cruz Vermelha Americana em Aceh.

"Elas sempre se recordam do dia do tsunami e de tudo o que perderam", ele disse. "Então estamos tentando tirar isto da cabeça delas. Se mantiverem isto dentro de suas mentes, isto nunca mais sairá."

Segundo eles, algumas ainda têm medo demais das ondas para visitar a praia.

Ele disse que o momento mais difícil quando as câmeras foram entregues, assim como o mais empolgante, foi quando as crianças, apontando para todas as direções, queriam bater todas as fotos de uma vez só.

Foi dito aos jovens fotógrafos, com idades entre 6 e 14 anos, para irem devagar e procurarem coisas que gostassem em casa, na escola e no seus bairros.

Os monitores do programa então selecionaram 20 fotos entre 3.500, muitas delas tiradas de cabeça para baixo, ou fora de enquadramento ou mostrando um borrão diante das lentes.

O resultado é um vislumbre da vida como era antes do tsunami -como se nunca tivesse ocorrido um- com pessoas trabalhando e brincando, subindo em árvores, cuidando de cabras, tirando peixes das redes, sentadas nas carteiras nas salas de aula, segurando crianças no colo, olhando para o vasto mar tranqüilo.
TRÊS ANOS DEPOIS
Santi Ramona
Uma das fotos feitas por crianças
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Mas em todas elas, o horror daquele dia se encontra logo abaixo da superfície ensolarada.

Ulfa, 12 anos, fotografou duas crianças em pé à beira do cais, com as ondas espumando ao redor delas, e batizou sua foto de "Vista Bonita".

A. Akila Nilukshan, 10 anos, fotografou um mercado de peixe à beira-mar devastado pelas ondas. "Eu queria mostrar mulheres ganhando dinheiro vendendo peixe", ele disse. "As mulheres estavam sorrindo e trabalhando alegremente."

G.M. Kavinda Krishan Fernando, 10 anos, fotografou um trabalhador perto do mercado local, lutando para sobreviver. "Era um homem velho carregando um saco pesado e senti pena dele", ele disse. "Mas o saco pesado ajudará ele a ganhar dinheiro para se sustentar."

Raveen Pramudith, 12 anos, fotografou seu irmão mais novo sentado em uma pedra à beira-mar. "Eu quis tirar a foto dele com a beleza da praia", ele disse. "Eu também lembrei do tsunami enquanto tirava a foto."

Diferente de algumas outras crianças, agora ele consegue falar a respeito de tais lembranças. "Havia tantos mortos espalhados na rua", ele disse. "Minha família e eu ficamos com medo de voltar para casa. Nossa aldeia não era mais tão bonita como antes, havia muita escuridão." George El Khouri Andolfato

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