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18/02/2008
Alunos levam o dever de casa para a praia nas férias escolares do Japão

Kumiko Makihara*
Em Tóquio


Enquanto planejo as nossas férias de primavera, fico com medo da quantidade de dever de casa que o meu filho de oito anos de idade terá que fazer.

Nos nossos feriados de inverno no Havaí, o tempo que passamos na praia foi reduzida devido à necessidade de lidarmos com um calhamaço de cinco páginas de matemática, quatro páginas de prática de redação, três páginas de exercícios de interpretação de texto, duas folhas de testes de geografia, dois relatórios independentes, uma folha com letras em alfabeto ocidental, um caderno de anotações, um diário e um jogo de cartas japonês.

As escolas japonesas de primeiro grau não acreditam que as crianças devem descontrair durante as férias. "A menos que você seja vigilante, poderá acabar passando o tempo passivamente", advertiu o jornalzinho da escola do meu filho.

Os professores preparam uma grande quantidade de deveres de casa para garantir que os alunos não percam o ímpeto escolar. Afinal, os exames de admissão para o próximo ano escolar chegarão em breve. Estudar durante as férias e os feriados também previne a delinqüência, por manter as crianças ocupadas e longe das ruas.

As férias são também vistas como um momento para se dedicar àquele projeto que você não pôde fazer durante o ano escolar. "Você vai querer organizar as suas lições e provas", sugeriu o jornal escolar.

Para as crianças que não começam a estudar por conta própria, tais questões poderiam muito bem ser direcionadas aos pais, dos quais se espera que impeçam um desastre.

"Por favor, certifique-se que o trabalho inclua algumas idéias e pensamentos do seu filho", disse o professor de ciência do meu filho aos pais no verão passado, ao explicar um dever de casa que consistia em inventar uma ferramenta útil. Como não sou engenheiro, apelei para o meu primo, que é arquiteto. Ele já conhecia o dever de casa, e já havia construído um pasto suíço em miniatura em uma caixa de música como projeto de casa para um aluno do pré-primário.

Cerca de 25% das crianças de dez a 14 anos fazem o dever de casa tendo a mãe ao lado, segundo uma pesquisa feita em 2006 pelo governo japonês. Todo mês de agosto, museus, parques e grandes lojas oferecem programas especiais para ajudar as crianças com os seus deveres de casa.

Tal método de instrução rígido vindo de todas as partes não proporciona às crianças muitas oportunidades para pensar independentemente ou brincar com idéias, e isso pode ser um dos motivos pelos quais os alunos japoneses carecem de iniciativa e motivação.

Entre os 57 países pesquisados em 2006 pela Organização de Cooperação Econômica e Desenvolvimento, os alunos japoneses demonstraram uma compreensão de fatos e teorias científicos, mas exibiram o menor grau de confiança no que diz respeito às suas habilidades de aplicar tais informações.

Caso o dever de casa ficasse por sua própria conta, tenho certeza de que o meu filho Yataro não se mexeria. Assim, com a exceção de uma folga no Natal, eu elaborei cotas diárias para ele e busquei toda a ajuda que pude encontrar.

Yataro passou uma tarde em um centro de pesquisa no qual o presidente supervisionava a redação de 20 sentenças em caracteres chineses. Descobri a localização de uma exótica Árvore Salsicha, que tem esse nome porque dá frutas gigantes em forma de salsicha, a fim de que o meu filho fizesse o seu relatório independente sobre este tema. O meu ex-namorado cientista nos levou a um museu no qual nós copiamos penosamente uma ilustração de um coelho que também parecia-se com um pássaro para um trabalho sobre ilusões óticas. E, tarde da noite, a voz melodiosa da minha antiga colega de faculdade reverberava pelos corredores do hotel enquanto ela recitava os cem poemas que Yataro precisava memorizar para aprender o jogo de cartas do século 13.

Um dia, um Yataro de saco cheio saiu do nosso quarto no hotel em Waikiki para buscar refúgio com um colega da escola que estava hospedado no quarto ao lado. Sem problemas. A mãe do amigo, minha camarada, fez com que os dois garotos se sentassem para redigir os seus diários. "Estou fugindo para o paraíso do meu amigo", escreveu Yataro em uma emocionante descrição da sua aventura. "Eu me escondi no canto do elevador, para que fosse difícil me ver, já que nos Estados Unidos a gente não tem permissão para sair de casa sozinho".

Durante tudo isso não pude deixar de notar o que as outras crianças no Havaí tinham como dever de casa nos feriados. Era bem menos: um livro para ler ou algumas poucas páginas de lições. O amigo de Yataro, Darian, também no terceiro ano, tinha uma folha de papel para preencher com cores e uma agenda de leitura. Vendo os dois garotos brincando de Lego e de carrinhos de corrida, não me senti inclinada a acreditar que Yataro estivesse acumulando qualquer habilidade que o fizesse superar Darian no futuro. E qual dos dois garotos estaria se divertindo mais com os feriados?

Deixamos o Havaí sonhando com mais tempo na praia, mas estávamos em dia com o dever de casa. Eu havia sobrevivido a mais um período de feriados. Mas as férias de primavera estão vindo por aí.

* Kumiko Makihara é escritora freelance em Tóquio.

Tradução: UOL

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