Custo crescente do petróleo espalha o sofrimento social pela Europa

De Katrin Bennhold*
Em Paris

Em termos de transporte, Marie Schneberger sempre tentou ser econômica. Funcionária de uma companhia aérea, recebe um salário mediano, e o preço da gasolina na França, como no resto da Europa, impediu-a de ter qualquer carro maior do que um Fiat Panda.

Agora, contudo, que os preços da gasolina subiram para mais que de 1,04 euro (em torno de R$ 3) por litro em grande parte do continente, ela cortou ainda mais seus gastos. Recentemente, Schneberger começou a pegar o metrô para ir ao trabalho. Agora, ela compartilha seu carro compacto com duas colegas e divide os custos da gasolina.

"Isso diz respeito a todo mundo que dirige e deixa muitas pessoas com raiva", disse Schneberger.

Os europeus há muito modificaram seus hábitos de consumo de combustível por causa dos preços persistentemente altos, inflados na maior parte dos países em mais de 50% pelos impostos.

Diferente dos EUA, onde o preço do combustível era relativamente barato até há pouco tempo, é raro ver na Europa veículos que bebem muito, como picapes e utilitários. Em vez disso, as estradas freqüentemente têm modelos menores e mais eficientes como o Smart e o Mini, ou veículos movidos a diesel, uma tendência que na última década cortou a demanda por gasolina na Europa. A maior parte das cidades tem infra-estrutura de transporte público altamente desenvolvida. Além disso, há inúmeras políticas verdes como ciclovias, zonas de trânsito restrito e ônibus elétricos em áreas urbanas.

"Estamos acostumados a pagar US$ 200 por barril de petróleo na bomba", disse Lawrence Eagles, analista de mercado da Agência Internacional de Energia. É isso que os consumidores europeus estão efetivamente pagando nos postos de gasolina quando os impostos são incluídos, disse ele, apesar dos efeitos mediadores do euro mais forte, que reduz o custo do petróleo para a Europa.

Entretanto, o aumento no preço do petróleo desta vez foi mais rápido e forte do que nos ciclos anteriores, quando o preço ultrapassou US$ 80 por barril e depois US$ 100. O custo da gasolina na bomba subiu 17% nos últimos doze meses no Reino Unido, 15% na Áustria e 8% na França. Agora, com o petróleo em torno de US$ 130, muitos europeus estão se perguntando como poderão apertar ainda mais os cintos.

Sinais de uma nova era
Nesta semana, ondas de protesto irromperam pelo continente, enquanto trabalhadores portuários irados confrontavam a polícia em Marselha (França) e caminhoneiros interrompiam o trânsito em Londres (Inglaterra) para exigir descontos no combustível. Os protestos se espalharam para os caminhoneiros da Holanda na quinta-feira, enquanto fazendeiros franceses bloqueavam a entrada para depósitos de petróleo em várias cidades. Pescadores italianos e espanhóis planejavam greves para a sexta-feira.

Menos audíveis, mas não menos raivosos, estão as enfermeiras francesas preocupadas com os custos das visitas às residências, os agentes de viagem italianos preocupados com o custo crescente das excursões e as famílias de Madri (Espanha) a Moscou (Rússia) que estão deixando seus carros em casa ou cortando gastos de outras formas para pagar as contas.

"Há sinais de um ponto de virada em que o consumo de energia está se tornando parte dos pensamentos diários", disse Eagles.

Líderes europeus pedem ação global
Os governos, já pressionados pelo crescimento econômico mais lento e pela queda da arrecadação de impostos, estão cada vez mais preocupados que a revolta possa se espalhar. Na terça-feira, enfrentando caminhoneiros furiosos, o presidente francês Nicolas Sarkozy pediu à União Européia que limitasse os impostos sobre combustíveis -uma proposta imediatamente derrubada por outros países europeus que contam com essa renda em seus orçamentos nacionais.

O primeiro-ministro do Reino Unido Gordon Brown, um dos principais oponentes da proposta de Sarkozy, advertiu no dia seguinte que o mundo está enfrentando um "choque de petróleo". Sua solução: fazer os governos em torno do mundo tomarem uma ação global coordenada para atenuar os aumentos de preço. O Reino Unido, que tem os maiores impostos sobre combustíveis, emitiu licenças na quarta-feira para a exploração de dois novos campos de petróleo no mar do Norte para estimular os produtores de petróleo a estabilizarem os mercados de energia.

Enquanto manifestantes e grupos da indústria fazem pressão por alívios fiscais mais imediatos, analistas, autoridades européias e grupos de consumidores temem que uma redução artificial de preços possa manter um padrão de consumo não sustentável. Em vez disso, dizem, os políticos devem prover incentivos de longo prazo para reduzir o uso de petróleo e aumentar a eficiência energética. A Comissão Européia disse na quinta-feira que o alívio de curto prazo deve se concentrar nas famílias mais pobres e advertiu os Estados membros da UE a não darem alívio fiscal a grupos de interesse.

"Você pode criar um ciclo vicioso, que não se restringe mais aos pescadores, mas também engloba para empresas de mudança, motoristas de táxi e assim por diante -todos querem ter o mesmo tratamento especial. E não se restringirá a um país, pois todos os outros reclamarão da competição injusta", disse Amelia Torres, porta-voz de Joaquin Almunia, comissário da UE para assuntos financeiros.

Na Alemanha, a maior economia da Europa, a Federação Alemã de Organizações do Consumidor está fazendo lobby para que o governo invista 5 bilhões de euros (cerca de R$ 15 bilhões) no transporte público e aloque 10 bilhões de euros em subsídios para lares que instalarem mecanismos de economia de energia.

"Lidar com essa questão por meio de impostos não é solução. Temos que nos comprometer a investigar seriamente esquemas de economia de energia", disse na quinta-feira Holger Krawinkel, diretor do departamento de energia da federação alemã.

A dura e (nem tão) nova rotina
Incentivos funcionaram no passado. Os impostos sobre combustível criados pelos governos europeus depois do choque de petróleo dos anos 80 são a principal razão pela qual a Europa tem uma frota de carros vastamente mais eficiente que os EUA, disse Eagles da Agência Internacional.

Entretanto, a maior eficiência de energia na Europa também tornou mais difícil para os europeus fazerem avanços substanciais. Muitos ajustes que os americanos estão fazendo hoje -adotando o transporte público e comprando carros menores- os europeus começaram a fazer há muito tempo, dizem os analistas.

Ainda assim, o mais recente choque de preços acelerou a tendência. Moshiur Rahman, vendedor de jornal de 28 anos em Londres, disse que o aumento no preço da gasolina significava que não podia mais dirigir para trabalhar. Ele agora viaja mais de uma hora de trem por dia. "Eu dividia um carro com amigo, mas ficou muito caro", disse ele.

Em Varsóvia (Polônia), onde os preços de gasolina estão atingindo 5 zloty (ou R$ 4,60) o litro, Leszek Tumkiewicz tenta deixar seu carro Polonez -de alto consumo, da era comunista- em casa o máximo possível. "Dirijo muito, mas também tento apreciar o metrô de Varsóvia", disse Tumkiewicz, 50, consultor que mora a 20 km do centro da cidade. "Tento tornar esta a minha primeira escolha."

Os preços de petróleo mais altos também levam os motoristas a procurar a melhor oferta possível. Consumidores da Irlanda do Norte cada vez mais vão ao Sul para encher o tanque na República da Irlanda, onde os impostos são consideravelmente menores. Thomas Colgan, 56, pai de três filhos que trabalha como corretor de hipotecas e pastor de ovelhas perto das montanhas Mourne, faz a viagem de trinta quilômetros para a República da Irlanda duas vezes por mês para encher o tanque de seu Saab a diesel.

"Posso comprar cinco litros a mais pelos meus 50 euros ao encher o tanque", disse ele.

Mas nem todos conseguem encontrar combustível mais barato ou evitar usar o carro. Em Milão (Itália), Marco Germani, um vendedor autônomo que está constantemente na estrada, disse que não tem escolha senão pagar. "O preço está fora de controle, mas infelizmente não há nada que eu possa fazer sobre isso porque eu preciso usar o carro para trabalhar", disse.

Germaine não é exceção. Particularmente nas zonas rurais, onde o transporte público é mais limitado, o custo alto da energia pesa. Os analistas chamam de "efeito Starbucks" -um declínio no consumo de bens supérfluos como café na rua em resposta a contas de gasolina cada vez mais altas.

O custo da dependência de petróleo
Esse efeito é difícil de mensurar, já que muitos produtos também aumentaram de preço como resultado dos custos de transporte crescentes. Na Espanha, por exemplo, onde a gasolina custa entre 1 e 1,25 euro por litro, muitos clientes estão reclamando mais do aumento na mercearia do que no posto de gasolina.

O desvio de produtos vegetais usados como ração animal para a fabricação de biocombustíveis contribuiu para o aumento do preço de ovos, carne e leite.

"Nossa vida era petróleo e não sabíamos que tudo dependia dele", disse María José Aragon, funcionária pública de 56 anos em Madri. "Os alimentos subiram entre 20 e 30%. Uma bisnaga de pão que custava 0,30 de euro hoje custa 0,55."

Até na Rússia, um dos maiores produtores de petróleo do mundo, os consumidores vêm apertando o cinto e surgiram manifestações de motoristas irritados depois que os preços na bomba aumentaram mais de 7% em um ano.

"Os preços são um pesadelo", disse Arutsun Hachaturyan, gerente de uma joalheria, que disse que coloca cerca de US$ 1.200 (em torno de R$ 2.400) de gasolina por mês em sua Range Rover preta. "Estamos na Rússia. Vivemos de petróleo", disse ele, enquanto enchia seu tanque em um posto de gasolina em Moscou.

A única solução, disse Schneberger, funcionária da companhia aérea em Paris, é "ficar menos dependente do petróleo".

Entretanto, enquanto os temores com o alto custo de energia se fundem com maiores preocupações sobre os padrões de vida, os pedidos para cortes de impostos estão crescendo, sugerindo que fazendeiros, caminhoneiros e pescadores talvez tenham maior apoio do público em geral.

Em Londres, onde o custo do diesel é de 1,27 libras ou R$ 5 por litro, o mais alto da Europa, há altas expectativas de que o governo cortará impostos. Julian Popa, gerente de uma empresa de mudanças, diz que ainda não aumentou seus preços porque está "esperando que o governo faça algo, como reduzir os impostos ou subsidiar (o combustível) de alguma forma".

*James Kanter contribuiu para esta matéria de Bruxelas, Judy Dempsey de Berlin, Eamon Quinn de Dublin, Julia Werdigier de Londres, Michael Schwirtz de Moscou, Carter Dougherty de Varsóvia, Eric Sylvers de Milão, Dan Bilefsky de Paris e Dale Fuchs da Espanha Deborah Weinberg

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