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20/06/2008 - 01h40

Sucesso em Cannes aponta para nova era dourada do cinema italiano?

International Herald Tribune
Elisabetta Povoledo
Em Roma
Quando dois filmes italianos ganharam os principais prêmios no Festival de Cinema de Cannes no mês passado, a reação na Itália foi semelhante àquela que geralmente se observa quando a seleção nacional de futebol é campeã.

A mídia local ficou eufórica.

"A redenção italiana", escreveu a crítica Natalia Aspesi em um artigo de primeira página no jornal diário de Roma "La Repubblica", elogiando bastante os dois filmes como sendo uma nítida ruptura com o cinema sem alma que se enraizou nos últimos anos na Itália. "Gomorra", a exposição nua do submundo napolitano por Matteo Garrone, ganhou o Grande Prêmio do Júri e "Il Divo", o retrato sem retoques de Giulio Andreotti, o homem que foi primeiro-ministro da Itália sete vezes, dirigido por Paolo Sorrentino, levou para casa o Prêmio do Júri.

Reprodução
Cena do filme "Il Divo", que levou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes deste ano
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Os intelectuais não perderam tempo para opinar, decretando o nascimento de um novo movimento que alguns chamam de "neo-neo-realismo", em homenagem à era dourada do pós-guerra, quando diretores como Roberto Rossellini, Vittorio de Sica e Federico Fellini cativavam tanto as platéias quanto os críticos.

"Podem chamar isso de neo ou do que quiserem", diz Caterina d'Amico, diretora da RAI Cinema, uma divisão da difusora nacional RAI, que foi uma das financiadoras de "Gomorra". "O fato é que o grande cinema italiano está embasado na realidade. No centro dele está uma maneira de olhar para o mundo, para uma pessoa ou para a sociedade por aquilo que eles são. Os norte-americanos são bons quando se trata de contar sonhos, e nós somos bons em narrar a realidade", afirma d'Amico.

A última vez em que a Itália ganhou dois grandes prêmios no festival francês foi em 1972, quando "O Caso Mattei", de Francesco Rosi, e "A Classe Operária Vai ao Paraíso", de Elio Petri, dividiram a Palma de Ouro (os dois filmes também criticavam a Itália contemporânea).

Porém, acima de tudo, muitos críticos e especialistas do setor vêem o recente reconhecimento em Cannes como um sinal positivo de que após uma longa época de trevas - iluminada de vez em quando por sucessos que acabavam revelando-se passageiros - o cinema italiano finalmente voltou aos trilhos.

"O fato de dois filmes bons e importantes terem vencido confere ressonância a ambos", diz Irene Bignardi, presidente da Filmitalia, que promove o cinema italiano no exterior. Mas ela observa que os dois filmes não foram criados a partir de um vácuo, mas "emergiram de uma situação geral que é bem brilhante".

Bignard acabou de retornar de Nova York, onde participou da oitava edição do festival de cinema Open Roads, que apresentou talentos italianos emergentes.

"Há uma nova geração de diretores na Itália fazendo filmes interessantes que examinam a realidade através de uma lente muito pessoal", diz ela. "E esses filmes estão recebendo uma resposta muito positiva das platéias. Isso significa que eles estão se comunicando com o público".

De fato, durante muitos anos o cinema independente italiano padeceu devido à acusação, muitas vezes justificada, de que o seu narcisismo excessivo contribuía para afastar as platéias de outros países.

Mas embora tanto "Gomorra" quanto "Il Divo" tratem de dois temas distintamente italianos, eles utilizam uma narrativa e uma linguagem visual que são decididamente internacionais e que, segundo os críticos, proporcionaram o sucesso em Cannes.

Sorrentino, o diretor de "Il Divo", acredita que a "novidade da linguagem" do seu filme - que utiliza uma trilha sonora grosseira e uma cinematografia luxuriante e inovadora para contar a história de Andreotti, de 89 anos - tornou o trabalho popular junto a pessoas que
não eram sequer nascidas quando Andreotti já passara da idade da aposentadoria. "A linguagem, que transforma uma história pessoal em uma meditação de amplitude maior sobre a mecânica do poder, proporcionou a este filme uma vida fora da Itália", opina o diretor. Os direitos de distribuição já foram vendidos para vários países europeus, incluindo a França e o Reino Unido.

Em casa, "Il Divo" rendeu quase 3,7 milhões euros, nas suas primeiras três semanas de exibição. "Gomorra" rendeu mais de 9 milhões de euros desde a sua estréia em meados de maio (perdendo apenas para o mais recente "Indiana Jones").

Este grande desempenho financeiro é o fator que poderá ter um impacto de longo prazo sobre a indústria cinematográfica italiana em geral.

"Até esta primavera os produtores inclinavam-se para as comédias porque elas dão dinheiro", afirma Sorrentino. "Mas depois de Cannes uma outra mentalidade surgiu, fazendo com que os produtores percebessem que é possível fazer filmes independentes sem ter prejuízo. Creio que este é um bom ponto de partida".

Semanas após estrearem, "Gomorra" e "Il Divo" ainda estão sendo exibidos em centenas de telas na Itália. A título de comparação, "Il resto della Notte", de Francesco Munzi, um retrato mordaz da riqueza da classe média italiana e da violência em torno dos imigrantes, que também foi apresentado em Cannes como parte da Quinzena dos Realizadores, está sendo exibido em apenas 61 cinemas, nesta que é a sua semana de abertura. Esse número é bem mais típico na Itália, em se tratando de filmes independentes ("Mas há dez anos ele só teria sido exibido em dois cinemas", afirma d'Amico).

A premiação em Cannes também alimentou o debate interminável sobre o modelo italiano de financiamento público de filmes. Este modelo tem sido elogiado, e, ao mesmo tempo, veementemente criticado como sendo um sistema de patrocínio privado com a utilização de verbas públicas.

No mês passado um relatório publicado pela associação italiana de roteiristas sublinhou a "importância básica" do Estado para manter os projetores funcionando na Itália (a televisão também tem sido uma investidora significativa, desde que uma lei de 1994 determinou que uma percentagem de todas as rendas com publicidade tem que ser investida na produção cinematográfica).

Redigida "como uma resposta aos ataques na imprensa nacional que afirma que o financiamento público é uma coisa do passado", o relatório também sugere que os empréstimos feitos para apoiar os filmes italianos acabam sendo pagos por vias indiretas, como o VAT, os impostos de renda e outros serviços, segundo Alessandro Rossetti, membro da associação e um dos autores do estudo.

"Os dois filmes premiados receberam dinheiro do Estado, o que demonstra que a política cultural e industrial da Itália em relação ao cinema está rendendo frutos", afirma Andrea Occhipinti, da Lucky Ree, uma firma italiana de produção e distribuição que co-produziu "Il Divo". Occhipinti diz que o filme - "assim como a maioria dos filmes italianos importantes dos últimos anos" - não poderia ter sido rodado sem verbas públicas.

Embora a indústria cinematográfica italiana esteja passando por uma onda de entusiasmo renovado, nem todos estão certos de que é hora de alardear o início de uma nova era.

Mas não se deve subestimar o impacto causado pela conquista de um prêmio importante. O exemplo clássico é "Cinema Paradiso", de Giuseppe Tornatore, que, segundo Rossetti, inicialmente foi exibido em umas poucas telas, gerando pouco retorno. "O filme foi relançado depois que ganhou um Grande Prêmio do Júri em Cannes em 1989 e um Oscar em 1990, e depois disso tornou-se um enorme sucesso de bilheteria", diz Rossetti.

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