Otan não pode ser intimidada pelo Kremlin, diz EUA

Dan Bilefsky e Stephen Castle
Em Tbilisi (Geórgia)

O conflito da Geórgia com os enclaves separatistas da Ossétia do Sul e Abkhazia, apoiados pela Rússia, não deve ser usado como desculpa pelo Ocidente para manter a Geórgia de fora da Otan, disse o embaixador americano na aliança, na segunda-feira.

A carta da Otan estipula que membros potenciais devem resolver questões pendentes de fronteira antes de ingressarem, e isso na prática bloquearia as aspirações da Geórgia. Mas o embaixador americano, Kurt Volker, disse em uma entrevista que se as tentativas russas de exercer influência sobre os enclaves fossem usadas para manter a Geórgia de fora da comunidade do Atlântico, então o Ocidente estaria "dando à Rússia o poder de veto sobre o futuro da Geórgia".

Em um encontro de dois dias aqui, o secretário-geral da Otan, Jaap de Hoop Scheffer, e embaixadores de todos os 26 países membros inauguraram uma nova comissão Otan-Geórgia, que os georgianos esperam que abrirá o caminho para sua futura adesão à aliança.

Mas a guerra recente entre a Rússia e a Geórgia expôs rachaduras profundas dentro da Otan sobre como responder a uma Rússia agora assertiva, e De Hoop Scheffer não quis assumir nenhum compromisso sobre quando a Geórgia seria convidada a se juntar à aliança militar.

Enquanto isso, em Bruxelas, a reunião de ministros das relações exteriores da União Européia, na segunda-feira, buscava intensificar a pressão sobre a Rússia para retirada de suas tropas da Geórgia, confirmando planos para o envio de pelo menos 200 soldados de força de paz ao Cáucaso até o final do mês, assim como prometendo à Geórgia até 500 milhões de euros em ajuda para reconstrução de partes do país destruídas no conflito com a Rússia, em agosto.

A Rússia reconheceu no mês passado a independência da Ossétia do Sul e da Abkhazia, desafiando a Geórgia e o Ocidente. Moscou disse que manterá 7.600 soldados na Ossétia do Sul e na Abkhazia -mais que o dobro do que era mantido lá antes da guerra. Os Estados Unidos e a União Européia disseram que isso constitui uma violação do cessar-fogo, que pede para que todos os lados recuem para suas posições de antes do início das hostilidades, em 8 de agosto.

Diplomatas da Otan disseram que alguns membros da aliança estão cada vez mais preocupados com o recente acordo de paz mediado pela UE para a retirada das tropas russas da Geórgia, porque ele corre o risco de permitir a Moscou manter as tropas dentro das regiões separatistas em uma violação da integridade territorial da Geórgia e em desafio à lei internacional. Além disso, Moscou insistiu para que os 200 soldados de força de paz da UE permaneçam em áreas fora dos territórios, na prática os impedindo de monitorarem de perto a Rússia.

A Geórgia, por sua vez, exige que monitores da UE sejam autorizados a manter a paz dentro da Ossétia do Sul e da Abkhazia, onde as tensões étnicas estão crescendo desde o final da guerra.

Um diplomata da Otan, pedindo anonimato por não estar autorizado a falar sobre o assunto, disse: "A menos que a UE imponha condições à Rússia e seja autorizada a posicionar soldados na Ossétia e Abkhazia, então há o risco de se tornar um conflito congelado, no qual a UE monitorará os georgianos, enquanto os russos poderão fazer o que bem entenderem".

Dezenove países europeus, incluindo França, Alemanha e Reino Unido, prometeram contribuir com a missão civil que visa monitorar o cessar-fogo, disse o ministro das relações exteriores da França, Bernard Kouchner, no encontro de ministros da UE, em Bruxelas.

A sede da missão ficará na capital da Geórgia, Tbilisi, e, pelo menos inicialmente, as forças de paz não entrarão na Ossétia do Sul e na Abkhazia, apesar da UE esperar que no final elas terão acesso a essas áreas. Kouchner disse que o acordo de cessar-fogo, que foi negociado pelos franceses "não é perfeito", mas marcou um passo à frente ao estabelecer um prazo para a retirada russa.

A Otan indicou que futuros laços com Moscou dependerão do recuo das forças russas para suas posições de antes do conflito, como foi estipulado no cessar-fogo. Em particular, altos diplomatas da Otan indicaram que, enquanto as tropas russas permanecerem na Abkhazia e na Ossétia do Sul, a Otan será forçada a suspender o conselho Otan-Rússia, onde autoridades russas e embaixadores da Otan se reúnem regularmente.

Alguns países da União Européia, liderados pela Alemanha e pela França, buscaram bloquear os esforços do governo Bush de trazer a Geórgia e a Ucrânia à aliança, preocupados de que a guerra no mês passado poderia ter levado a um confronto militar com a Rússia, caso a Geórgia já estivesse na aliança.

Em abril, a Otan se recusou a conceder à Geórgia o roteiro para a adesão, mas enfureceu a Rússia ao dizer que a Geórgia poderá algum dia ingressar na aliança, cujo preceito central de defesa coletiva estipula que um ataque a um membro é um ataque a todos. A aliança prometeu durante o encontro de cúpula em Bucareste considerar a concessão de um roteiro para o ingresso da Geórgia na Otan -conhecido como Plano de Adesão para a Adesão- em dezembro.

Volker, o embaixador americano na Otan, foi cauteloso sobre quando Tbilisi receberia um compromisso firme de adesão.

"Nós estamos ao lado da Geórgia", ele disse. "Nós queremos ajudar. A decisão de fato sobre se dezembro é o prazo para o Plano de Ação para a Adesão ou não é algo que será decidido mais à frente."

Analistas de segurança argumentam que a recente guerra da Geórgia com a Rússia atrapalhou suas ambições de entrada na Otan.

Tomas Valasek, diretor de política externa e defesa do Centro para a Reforma Européia, em Londres, disse que a idéia da visita de embaixadores da Otan à Geórgia não visava fazer com que a Geórgia se sentisse mais segura, mas ressaltar que a Rússia não poderia bloquear suas ambições de ingresso na aliança do Ocidente.

Mas ele acrescentou que a guerra no Cáucaso tornou menos provável que a Geórgia receba o mapa para adesão à Otan neste ano.

"Um dos argumentos sobre se os países estão prontos para ingresso é se projetam estabilidade", disse Valasek. "Alguns países argumentarão que eles não projetavam estabilidade em 7 de agosto, e as divisões que vimos no encontro de cúpula da Otan, em Bucareste, poderão endurecer." George El Khouri Andolfato

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