No frio do inverno, europeus questionam por que a União Europeia depende da Rússia para seu aquecimento

James Canter
Em Bruxelas (Bélgica)

Diante da possibilidade de que os cidadãos do país passem frio neste inverno, o presidente da Bulgária, Georgi Parvanov, afirmou que a melhor providência a se tomar seria a reativação de um reator nuclear - uma instalação da era soviética que a Bulgária foi obrigada a desativar quando o país ingressou na União Europeia dois anos atrás.

As limitadas opções da Bulgária em meio ao frio cortante do inverno sublinham uma questão que preocupa muitos europeus: a briga contínua entre a Gazprom, da Rússia, e a Naftogaz, da Ucrânia, em torno do fornecimento de gás. A própria Europa fez muito pouco, e muito tarde, para criar alternativas viáveis. Atualmente, à medida que alguns países membros da União Europeia tornam-se mais e mais dependentes da Gazprom, o bloco comercial enfrenta obstáculos políticos e financeiros cada vez maiores para adotar qualquer mudança de rumo.

Especialistas em energia concordam que o que está faltando à União Europeia é mais capacidade de armazenamento de gás natural, mais interconexão, mais fornecedores e mais alternativas energéticas, incluindo a energia nuclear e fontes renováveis como a energia eólica - especialmente em um momento no qual a produção de gás está se concentrando em países nos quais empresas estatais como a Gazprom dominam o setor.

Até recentemente, a principal motivação para o interesse da Europa em alternativas aos combustíveis fósseis eram os perigos representados pela mudança climática e o fato de o continente ambicionar ser um pioneiro em tecnologias de baixa emissão de carbono. A alternativa óbvia, porém mais poluente, ao gás natural - o carvão - será cada vez mais cara na Europa Ocidental devido a uma legislação aprovada no mês passado. Mas agora, o alarme está vindo dos edifícios tomados pelo frio, e não do campo dos que temem o aquecimento global.

Para países como a Bulgária, a única opção no momento parece ser um retorno a formas de geração de eletricidade consideradas inseguras pelos padrões da União Europeia - como os seus velhos reatores nucleares Kozloduy - e a adoção de outras medidas para fazer frente às perspectivas sombrias.

"A situação faz lembrar o cerco a Stalingrado", diz Vladko Todorov Panayotov, membro búlgaro do Parlamento Europeu, em uma referência ao sofrimento dos civis durante a Segunda Guerra Mundial provocada pelas tentativas nazistas de captura da cidade russa atualmente conhecida como Volgogrado.

A analogia feita por Panayotov, em uma reunião de emergência ocorrida na quinta-feira (08/01) no Parlamento Europeu em Bruxelas, pareceu ter sido usada com o objetivo de fazer com que os países europeus mais ricos prestem atenção nos problemas dos membros mais pobres da União Europeia. Mas Panayotov explicou que falou em russo para garantir que fosse bem compreendido por aqueles que ele mais deseja que ouçam o seu apelo para que o fornecimento de gás seja restabelecido.

A união depende da Rússia para o fornecimento de aproximadamente um quarto do gás que utiliza, e 80% desse gás passa pela Ucrânia.

Todo o fornecimento que passa pelo principal gasoduto que corta a Ucrânia foi interrompido na última quarta-feira devido à disputa entre Kiev e Moscou - a segunda do gênero em um período de três anos. Os dois lados acusam-se mutuamente pelo corte de abastecimento. A Ucrânia recusa-se a atender às novas exigências da Rússia, que mais do que duplicou o preço do gás desde o ano passado.

Os países mais vulneráveis são aqueles que contam com menor capacidade doméstica de armazenamento de gás e menos fontes alternativas: Romênia, Grécia, Eslováquia, Hungria, República Tcheca e Bulgária.

"A Europa não pode ajudar a Bulgária porque não conta com capacidade para transportar gás através das fronteiras", explica Ian Cronshaw, chefe da divisão de diversificação de energia da Agência Internacional de Energia, em Paris. "Não existe infraestrutura suficiente para transportar gás, e aquela que existe já encontra-se saturada ou amarrada a cláusulas contratuais".

Segundo ele, companhias energéticas poderosas em países como Alemanha, França e Itália estão mais interessadas em proteger os seus mercados domésticos do que em permitir uma concorrência que poderia desimpedir o fluxo de gás. Além disso, pouquíssimas medidas estão sendo tomadas no sentido de equipar a Europa para receber gás natural liquefeito, que poderia ser importado do Oriente Médio, da África e da Ásia.

Cronshaw acrescenta que a Bulgária conta com um único depósito subterrâneo de grandes dimensões para armazenamento de gás natural, em parte porque não tem uma estrutura geológica favorável para esse tipo de instalação, mas também porque, quando era parte do bloco comunista, o país estava integrado a um sistema baseado na cooperação com a antiga União Soviética.

Conforme ficou demonstrado pelas propostas da Bulgária em relação ao seu reator Kozloduy, uma tecnologia que poderia beneficiar-se com a crise de abastecimento de gás é a energia nuclear. Assim como o gás natural, a energia nuclear é capaz de garantir um fluxo mínimo de energia, mas, ao contrário do carvão, possui a vantagem adicional de produzir pouco ou nenhum dióxido de carbono, o principal gás causador do efeito estufa.

Mesmo assim, ainda existe uma forte oposição à energia nuclear em partes da Europa - especialmente na Alemanha.

A chanceler Angela Merkel prometeu apoiar o abandono gradual da energia nuclear na Alemanha como parte de um acordo de coalizão com os social-democratas. E, embora Merkel esteja agora sofrendo pressões para reavaliar a sua posição, ela correria o risco de perder apoio político se fizesse tal coisa durante um ano crucial de eleições.

Além de enfrentarem oposição política, os novos reatores nucleares também demorariam muito para fornecer energia elétrica. O governo britânico apoiou a construção de novos reatores para a substituição de reatores antigos, mas esse processo poderá demorar uma década. Atualmente só existem duas novas usinas nucleares em construção na Europa: uma na França e a outra na Finlândia.

Outra solução frequentemente comentada para os problemas energéticos da Europa é a construção de novos gasodutos como os do pioneiro projeto Nabucco, que traria gás do Azerbaijão e até mesmo do Irã. Mas alguns governos temem que a substituição dos fornecimentos de gás russo por aquele oriundo de outras partes do mundo controladas por regimes potencialmente inamistosos, como é o caso do Irã, só faria aumentar os problemas da Europa.

"Estamos correndo o risco de no futuro sofrer pressões políticas de Teerã", afirma Charles Tannock, membro britânico do Parlamento Europeu.

Mas uma outra rota rumo a uma maior independência energética para a Europa seria um investimento bem maior nas instalações de energia eólica no alto-mar, na energia solar e no aumento da eficiência energética. O grupo ambiental World Wildlife Foundation declarou nesta semana que, com uma legislação para o aumento da eficiência energética, seria possível obter uma redução do uso de energia na Europa equivalente às importações de gás da Rússia.

Mas tais projetos pouco poderão fazer neste inverno para aliviar o sofrimento das populações com frio. E provavelmente serão também de pouca valia durante vários anos.

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