China alimentou perigo norte-coreano em seu quintal

Por Philip Bowring Em Hanói (Vietnã)

O mundo ecoou as condenações de costume aos testes nucleares e de mísseis da Coreia do Norte, mas as percepções em relação a eles são diferentes.

No Ocidente, os testes são vistos como uma grande ameaça à não-proliferação nuclear e a países como a Coreia do Sul, o Japão e até os Estados Unidos. Na maior parte do Oriente, eles são percebidos muito mais como um gesto rude em relação ao Ocidente e um movimento num jogo de poder do que como uma ameaça à paz.

Por outro lado, o mar do Sul da China, onde colidem os principais interesses de poder, é visto como um lugar bem mais perigoso.

Na Coreia do Norte

  • AP

    Imagem mostra participantes de cerimônia em 26 de maio em comemoração ao teste nuclear realizado pelo governo da Coreia do Norte

A percepção que prevalece na Ásia é que, com os EUA, a China e o Japão mais ou menos em acordo, a Coreia do Norte não poderá fazer muito estrago. Em países menores, existe até mesmo uma admiração pela atitude desafiante da Coreia do Norte em relação não só aos EUA e ao Japão, mas também à China.

Quanto à não-proliferação, a atitude asiática é: por que se preocupar com a Coreia do Norte uma vez que a bomba do Paquistão não recebeu tanta atenção quanto essa? Assim como a bomba de Israel, a da Coreia do Norte é vista como um meio de intimidação e um símbolo de isolamento. O regime pode ser temível, mas seu único objetivo é sobreviver.

Essas visões podem ser um tanto ingênuas, mas são compreensíveis, uma vez que os uivos do "lobo" [ou de alerta falso] em relação às armas da Coreia do Norte foram muitos, e a habilidade do Ocidente para detê-las foi insuficiente. Por que não ignorar a carência de atenção de Kim [Jong-il, presidente do país]? Este é o pensamento asiático. Deixem que os chineses lidem com isso.

A China é o vizinho mais próximo e o único país que, por negligência e por fornecer alimentos e petróleo como ajuda, permitiu que a Coreia do Norte desenvolvesse suas armas nucleares. E quem é que tem mais medo de uma Coreia com armas nucleares e potencialmente unificada, a China ou os EUA?

A China alimentou um perigoso problema no quintal de sua casa e deu ao Japão a justificativa que precisava para aumentar suas defesas. Hoje, Pyongyang é, principalmente, problema da China.

Na Coreia do Sul

  • AFP

    Soldado sul-coreano faz guarda na ilha de Yeonpyeong, nas águas disputadas do Mar Amarelo. As forças conjuntas de Coreia do Sul e Estados Unidos elevaram o nível de alerta militar nesta quinta-feira, após a Coreia do Norte suspender o armistício assinado em 1953 entre as duas Coreias, informou o ministério de Defesa

Se os EUA deixassem de fazer ameaças vazias de que "não permitirão"
uma Pyongyang nuclear, o resto do mundo veria com mais clareza como a China foi míope em tentar usar a Coreia do Norte como uma ficha de barganha com os EUA, com o eventual objetivo de fazer com que as forças americanas saiam da Coreia.

Enquanto isso, o ressurgimento das disputas pelo Mar do Sul da China é muito mais significativo para a segurança a longo prazo do Leste Asiático. Notícias recentes informaram que o Vietnã deverá comprar seis submarinos e 12 caças SU-30 da Rússia por US$ 2,3 bilhões. Isso indica que, apesar de sua necessidade de boas relações com a China, o Vietnã pretende desafiar a reivindicações da China sobre o mar.

A notícia da venda veio depois de a China ter perseguido uma embarcação da Marinha norte-americana no litoral chinês em março, o que teve origem num desacordo antigo quanto à "Zona Econômica Exclusiva" chinesa.

Também em março, a presidente Gloria Arroyo, das Filipinas, assinou uma lei delineando o território que o país reivindica como seu na porção leste do mar. Apesar de a lei ter apenas estabelecido diretrizes sobre uma área já reivindicada, provocou uma reação imediata por parte da China, que enviou navios para a área.

O primeiro-ministro da Malásia, Abdullah Badawi, também atraiu as críticas chinesas ao reafirmar os direitos de seu país sobre o Mar do Sul da China, visitando uma ilha disputada. Ele também visitou Brunei e estabeleceu as bases para acabar com a disputa pelo leito marinho, que permitiria a exploração em áreas reivindicadas pela China.

Entretanto, este foi o único sinal de cooperação entre os membros da Asean [Associação das Nações do Sudeste Asiático] em relação ao mar do Sul da China, apesar de eles precisarem agir juntos se quiserem se opor à reivindicação de Beijing sobre todo o mar, que se estende por 2 mil quilômetros desde a costa da China até a costa da Malásia e das Filipinas, próximo às reservas de gás da Indonésia.

Em 2002, os membros da Asean assinaram uma Declaração de Conduta com a China para evitar os conflitos sobre áreas reivindicadas por vários países, para promover a exploração conjunta. Apesar de a declaração ter inicialmente conseguido reduzir as tensões, nenhuma exploração conjunta aconteceu e a Asean continuou dividida.

Nenhum membro da Asean ofereceu apoio ao Vietnã frente às ameaças da China contra sua exploração litorânea, e nenhum se mostrou disposto a apresentar uma frente unida contra a China.

Para a China, o problema não são simplesmente os hidrocarbonetos - os depósitos são valorosos para países menores, mas irrisórios para as necessidades chinesas. A principal importância do mar é estratégica, então muitos o veem como um local de competição entre a China e os EUA e seus aliados asiáticos - incluindo o velho inimigo Vietnã.

A disputa para evitar que o mar se torne um lago chinês se intensificará se a China neutralizar Taiwan, que fica na entrada mais ao norte.

Então, enquanto as manchetes alertam sobre o poder nuclear da Coréia do Norte, a maior disputa se desenrola no sul.

Tradução: Eloise De Vylder

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