Libertem Aung San Suu Kyi

Bernard Kouchner* Em Paris

"Liberdade do medo." Estas palavras, ditas por Daw Aung San Suu Kyi em 1990, soam mais do que nunca como um pedido de ajuda, em um momento em que a junta birmanesa deu início a procedimentos contra ela que são tão absurdos quanto injustificados. Isso não nos engana: se trata de um pretexto ridículo para impedi-la de participar das próximas eleições.

  • Aung San Suu Kyi está em
    prisão domiciliar há seis anos

"Liberdade do medo." Como alguém pode não exigir a liberdade desta grande dama, a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 1991? Eu a conheci em Yangun no final de 2002, poucos meses antes do início do seu isolamento forçado interminável. Desde sua prisão na quinta-feira, 14 de maio, os pensamentos de todos aqueles que a admiram e apoiam estão com a "Dama de Yangun", uma mulher cheia de dignidade e finesse, energia e calma, inteligência e compaixão.

"Liberdade do medo." Era a encarnação viva dessas palavras que apareceu diante de uma audiência tanto hipnotizada quanto impressionada por esta lenda viva. Cada palavra dela foi ouvida por um público respeitoso, em silêncio, um público que não ousou sentar enquanto ela falava. Palavras simples, porém firmes. Palavras inocentes. Palavras calmas e sem medo.

Por mais de 20 anos, Aung San Suu Kyi tem lutado em silêncio e com coragem inabalável, apoiada pela convicção de que "não é o poder que corrompe, mas o medo. O medo de perder o poder corrompe aqueles que o detém, o medo do flagelo do poder corrompe aqueles que estão sujeitos a ele". Por mais de 20 anos, sua rejeição ao medo nos acompanha, nos mobiliza, nos força a defendê-la contra um regime desprezível.

Como alguém pode aceitar que uma mulher, chamada por alguns de a Gandhi da Birmânia, possa ser considerada uma criminosa tão perigosa que deve ser afastada de qualquer contato com o restante da humanidade? Por seis anos, esta mulher incrivelmente determinada está sob prisão domiciliar. Ela vive apenas na companhia de duas companheiras de infortúnio. Seis anos de isolamento forçado, ainda mais cruel do que uma prisão. Seis anos sem nenhum contato externo fora visitas médicas esporádicas, antes da prisão de seu médico; ou, ainda mais raramente, um encontro com um diplomata.

Seis anos de isolamento, mas na verdade 19 anos de privação da liberdade. Desde as eleições de 1990, que deram a vitória à oposição e deveriam tê-la tornado a líder de seu país, a junta privou o povo birmanês de seus direitos. A liberdade fugiu deste país. Por 19 anos, a "Dama de Yangun" só conheceu apenas breves momentos de liberdade. Seu marido morreu antes que ela pudesse vê-lo de novo.

O isolamento inumano poderia ter acabado em 27 de maio, com o fim oficial de sua prisão domiciliar, caso um novo processo não tivesse sido aberto contra ela sob falsos pretextos. Novamente, Aung San Suu Kyi está sendo perseguida, apesar de sua saúde estar deteriorando e ela correr o risco de ser sentenciada a cinco anos de prisão, pena à qual poderá não sobreviver.

O regime de Mianmar não pode continuar ignorando os apelos de toda Europa, América e Ásia que pedem por sua soltura e a de outros presos políticos. Ele não pode ignorar para sempre a exigência feita a uma só voz pelo encontro ministerial do Fórum do Diálogo Ásia-Europa, em 26 de maio em Hanói, ou o pedido por um diálogo em Mianmar lançado poucos dias antes, em um gesto sem precedente, pela Associação dos Países do Sudeste Asiático - uma organização da qual Mianmar é membro.

Eu reitero vigorosamente que a soltura de Aung San Suu Kyi é um assunto urgente, como a chanceler Angela Merkel e o presidente Nicolas Sarkozy fortemente nos lembraram em sua coletiva conjunta de imprensa na quinta-feira. Apenas o diálogo com a oposição dará legitimidade às eleições de 2010.

Vinte anos depois das eleições que deram a vitória à Liga Nacional pela Democracia, essas eleições são vitais para o futuro deste país martirizado. Mianmar não pode continuar isolado do restante do mundo e a comunidade internacional está pronta para ajudar.

Para começar, a junta militar deve reconhecer que nenhuma solução pode ser encontrada sem a inclusão de Aung San Suu Kyi no processo eleitoral. O general Than Shwe deve entender que ela é o melhor ativo para garantir a unidade, a estabilidade e, finalmente, a prosperidade do país, e que ela não é uma ameaça ao seu poder. Se os generais derem ouvido ao povo birmanês, eles libertarão a si mesmos do medo que seu povo infunde neles.

*Bernard Kouchner é ministro das Relações Exteriores e Assuntos Europeus da França.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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