UOL Notícias Internacional
 

12/07/2009

Esporte surge como uma força de transformação em um mundo globalizado

International Herald Tribune
Rob Hughes
Em Londres (Inglaterra)
Os superastros do esporte atingiram um nível de reconhecimento mundial maior do que qualquer astro do cinema.

"Não há astro de cinema no mundo que consiga fazer com que milhares de pessoas esperem seis horas apenas para ver sua chegada, como fez Cristiano Ronaldo esta semana", disse David Puttnam, ex-produtor de cinema que se tornou legislador na Câmara dos Lordes britânica.

Puttnam, que durante 30 anos produziu filmes premiados, incluindo "Carruagens de Fogo", "Os Gritos do Silêncio", "Bugsy Malone - Quando as Metralhadoras Cospem", e "Memphis Belle", tem certeza de que Tom Cruise não é capaz de atrair 80 mil pessoas para um cinema da mesma forma que Ronaldo fez durante sua cerimônia de apresentação no Real Madrid no estádio Bernabeu na última segunda-feira.

"Tenho visto a dinâmica dos superastros se transferir do cinema para os esportes", acrescentou Puttnam. "Todo o nível de globalização dos esportes é maior. A chave é o engajamento. O poder do esporte tomou a indústria do cinema de surpresa."

Estávamos conversando na reunião "Beyond Sport" [ou "Além do Esporte"] em Londres onde Puttnam - agora Lord Puttnam, legislador e embaixador da Unicef - reuniu-se desde com funcionários do governo até trabalhadores da construção civil em alguns dos lugares de maior criminalidade para discutir o poder dos esportes.

A fama não precisa ser frívola. Puttnam, 68, testemunhou o surgimento da celebridade aliada às causas beneficentes, desde Danny Kaye, ator, cantor e dançarino norte-americano dos anos 50, até o fenômeno David Beckham nos dias de hoje.

Ele dividiu a tribuna do Beyond Sport com Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico que agora trabalha na reconciliação entre israelenses e palestinos. Ao lado deles estava o príncipe Faisal Al Hussein, conselheiro das forças armadas da Jordânia e também fundador da Generations for Peace [Gerações pela Paz], que tenta usar o esporte para unir os jovens.

E ao lado deles estava Dikembe Mutombo, ex-astro da NBA que agora usa a fama em seu país, a República Democrática do Congo, para construir hospitais e centros de pesquisa em sua cidade natal, Kinshasa. Mutombo foi para os Estados Unidos com uma bolsa de estudos, esperando tornar-se um médico. Ele voltou para a África mais do que um médico, usando sua fama e fortuna para tentar reverter a maré do HIV.

Ele pede ao futebol em particular para investir mais no continente de onde os clubes europeus roubaram tantos astros do esporte.

Mesmo em Ronaldo há uma consciência social que não deveria ser ignorada. A fama é uma grande parte de seu talento, e fazer o papel de prima dona é sua segunda natureza.

Mesmo assim, o mesmo astro que adora que a multidão também o ame, com a idade relativamente imatura de 20 anos, foi um dos primeiros a visitar a província de Aceh depois da devastação do tsunami em dezembro de 2004. Tocado pela coragem de um garoto que foi encontrado vagando pela praia, perdido depois que a maior parte de sua família havia desaparecido com o horror, Ronaldo pagou para o menino assistir a um jogo de sua própria seleção nacional, Portugal.

O jogador, que então estava no Manchester United, voou para a Indonésia para dedicar seu tempo e sua presença para levantar mais de um bilhão de rúpias, na época cerca de US$ 90 mil [cerca de R$ 180 mil], para reconstruir casas.

"Eu nunca deixo de me emocionar com alguns jogadores que eu conheço e com a forma com que eles lidam com tudo o que os cerca", disse Puttnam em Beyond Sport. "O clube Barcelona paga a Unicef para usar nosso logo nas suas camisetas, e, mais do que isso, eu conversei com os jogadores.

"Eles me disseram que se emocionam por representar as crianças do mundo. Eu nunca tive a mesma conversa com os jogadores do Manchester United sobre a AIG." A camiseta do United é patrocinada pela companhia de seguros americana, apesar de o clube ter trabalhado durante nove anos com a Unicef sem dar o passo a mais que o Barcelona deu, pagando à organização para usar o logo.

Mas ninguém espera que os clubes esportivos sejam algo mais do que grandes empresas hoje em dia. A fusão do cricket com Bollywood captura o mundo moderno - e os mundos da celebridade, do esporte e do entretenimento.

Blair, no papel do político descobrindo a extraordinária atração dos esportes, disse: "A maioria dos líderes mundiais que conheci gostam de alguma coisa de esporte, e alguns até praticam. Mas acho que ao longo dos anos ele ganhou uma magnitude diferente, e estamos apenas começando a compreender a utilidade dos esportes". Ele lembrou-se de quando esteve numa sala de aula no Japão e tentou se relacionar com as crianças. "Fui apresentado como o primeiro-ministro da Inglaterra", disse. Não houve resposta. "Tentei dizer Londres". Um aceno de cabeça.

"Então eu disse Beck-ham... Ah, sim, daí tive uma resposta". Blair disse que quanto mais ele aprendeu sobre o poder do governo, mais ele também descobriu os limites do governo. O esporte, sugeriu ele, pode às vezes destravar essas limitações.

Mais tarde, sentado ao lado de Michael Johnson, o ícone norte-americano do atletismo, Blair admitiu: "Sabe, Michael, quando eu disse à minha família quem eu iria encontrar hoje, eles de repente mostraram interesse. Meus filhos estão acostumados a me ouvir falar de líderes mundiais, mas um verdadeiro superastro vivo do esporte, isso sim era diferente". Ao deixar a sala, Blair aproveitou a oportunidade para tirar uma foto com Johnson. Para as crianças, sem dúvida.

Fez lembrar Carlos Menem, presidente da Argentina de 1989 a 1999, que nomeou Diego Maradona como embaixador do esporte para o mundo. O presidente cortejou sem pudores o astro do futebol, aproveitando-se de sua popularidade. Ele não sabia que na época, a caminho da Copa do Mundo de 1990 na Itália, que Maradona já havia se tornado dependente de drogas em Nápoles, o que por fim o destruiu como jogador, e quase como homem.

É algo temerário, quando os políticos e o todos nós colocamos os astros efêmeros dos esportes num pedestal, pedindo para que alguns deles resolvam os problemas do mundo.

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,78
    4,016
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    -0,30
    93.627,80
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host