Onda de jovens afegãos cruza a Europa

Caroline Brothers Em Paris

Centenas de jovens afegãos estão atravessando a Europa. Embora alguns tenham apenas 12 anos, a maioria é de adolescentes em busca de educação e de um futuro que não se materializou em seu país, que continua enfrentando a pobreza e a violência oito anos depois do fim do regime Taleban.

Sua chegada não autorizada acrescenta uma nova dimensão à questão da imigração clandestina, enquanto desafia os sistemas de proteção dos países que eles atravessam - que, pela lei nacional e internacional, têm a obrigação de protegê-los.
  • Stringer/Reuters

    Jovens afegãos fogem do país em busca de melhores oportunidades na Europa



"O Afeganistão sofre uma hemorragia de jovens para a Europa", disse Pierre Henry, diretor da France Terre d'Asile, organização que trabalha com a União Européia, a agência de refugiados da ONU (UNHCR) e o governo francês sobre questões de asilo.

A UE não registra estatísticas sobre o número de crianças estrangeiras ou o número de afegãs entre elas que estão vagando pela Europa sozinhas, e grupos de ajuda e agências governamentais mantêm registros que variam enormemente.

Mas os pedidos de asilo de menores afegãos desacompanhados sugerem que são milhares em toda a Europa. O número de pedidos oferece só uma base, dizem os especialistas, já que há muito mais jovens que não procuram asilo.

Blanche Tax, uma autoridade graduada em políticas no escritório europeu da UNHCR em Bruxelas, disse que no ano passado 3.090 menores afegãos pediram asilo na Áustria, Grã-Bretanha, Dinamarca, Noruega, Suécia e Alemanha - os países da UE onde seus números aumentaram mais acentuadamente -, comparados com 1.489 nos mesmos países em 2007. Só na Grã-Bretanha, segundo Tax, os pedidos aumentaram de 1.100 em 2007 para 1.700 no ano passado.

O Departamento de Imigração da Noruega disse que dos 1.417 menores que pediram asilo no país neste ano, até o momento, 1.003 são afegãos.

Ao todo, o Programa de Crianças Separadas na Europa estima que haja 100 mil crianças desacompanhadas de países não europeus dentro da UE, com muitas que não pedem qualquer tipo de proteção. O programa é dirigido conjuntamente pela Aliança Internacional Salvem as Crianças e a UNHCR.

Neste ano, pela primeira vez, os afegãos superaram os africanos subsaarianos como maior grupo isolado de menores estrangeiros a pedir admissão aos serviços de proteção a crianças - alojamento e educação - em Paris, disse Charlotte Aveline, uma assessora sênior de proteção a crianças na Prefeitura de Paris.

"Algumas chegam muito cansadas, mas se descansam durante apenas uma semana, rapidamente se tornam adolescentes de novo", disse Jean-Michel Centres, da Exiles10, uma organização civil que trabalha principalmente com migrantes afegãos que se reuniam ao redor da Praça Villemin em Paris, perto da estação de trens Gare de l'Est, até que a polícia os expulsou na semana passada.

"Primeiro eles perguntam onde podem tirar documentos, depois onde podem ir à escola e onde podem conseguir emprego", disse Centres.

Os cinco jovens entrevistados para esta reportagem contaram que foram explorados como mão-de-obra infantil, que escaparam da violência policial em portos europeus ou de riscos de morte sob as rodas de caminhões quando pegavam caronas não autorizadas sob os chassis.

No ano passado, dois meninos afegãos de 13 de 14 anos morreram em portos italianos - um embaixo de uma carreta em Veneza e outro dentro de um contêiner em Ancona. Suas idades foram definidas pelas ordens de expulsão da Grécia que tinham nos bolsos.

Sotiria Goula, secretária-geral para o Bem-Estar no Ministério da Saúde da Grécia, disse que seu país foi paralisado pelo número de pessoas que cruzaram as fronteiras e pediam asilo. A Grécia não tem um sistema de abrigo para menores estrangeiros e só pode acomodar 300 em todo o país.

"É o caos absoluto nos centros de detenção", disse Goula. "Com 29 ou 30 pessoas responsáveis por 700, como se pode reconhecer cada um deles ou ter certeza de que nenhum menor desacompanhado foi rejeitado?"

Em resposta, a organização Salvem as Crianças convocou para 15 de setembro uma reunião sob os auspícios da Presidência sueca da União Européia, para abordar a proteção a menores em todo o bloco.

Um ano na estrada para Paris
Nas bordas de uma fila para a sopa do Exército de Salvação em Paris, um adolescente disse em voz frágil que havia rumado para o Ocidente depois que sua família passou três anos no Irã, fugindo do Afeganistão, depois que sua mãe perdeu uma perna em uma explosão.

Ele disse que tinha 15 anos, mas parecia mais jovem. Não quis dar seu nome. Falando inglês, que disse ter aprendido no Irã, contou que seu pai havia sofrido uma lesão nas costas e só podia trabalhar sentado em seu emprego de lavar carros com uma mangueira.

Ele disse que passou dois meses trabalhando 11 horas por dia em uma oficina de confecção em Istambul. Na Grécia, trabalhou em uma plantação de batatas durante nove meses, e finalmente escapou na traseira de um caminhão. Chegou a Paris de trem depois de quase um ano de viagem.

Diferentemente dos adultos afegãos que muitas vezes procuram trabalho entre compatriotas na Grã-Bretanha, os menores afegãos frequentemente não têm um destino claro em mente. Os entrevistados manifestaram o desejo de completar sua educação. O rapaz de 15 anos disse que tinha aprendido matemática, descobrira a internet e conquistara uma faixa azul no tae-kwon-do no Irã. "Eu gostaria de ser - parece pedir muito - um engenheiro de computação", contou.

Outro menor afegão, de 17 anos, disse que perdeu seu pai aos 2 e aprendeu inglês com um alfaiate em sua aldeia perto da cidade afegã de Ghazni. Ele pareceu ter sido apanhado entre as barreiras burocráticas que criam o que Pierre Henry chama de "um nomadismo do trânsito".

O garoto disse que levou cinco meses para viajar 6 mil quilômetros até a Europa, principalmente pendurado embaixo da carroceria de caminhões. "Mas agora que estou aqui eles dizem que talvez me deportem para o Afeganistão", relatou. A França atualmente não deporta afegãos, mas quando ele fizer 18 anos estará sujeito à expulsão pelas regras da UE, para os países que atravessou no caminho.

Simone Troller, especialista em direitos das crianças para a Human Rights Watch, disse que havia conhecido 12 menores afegãos que se escondiam em "condições abissais" para evitar as batidas de deportação perto do porto de Patras, na Grécia, onde as autoridades destruíram um campo ilegal de refugiados afegãos em 12 de julho.

O garoto de 17 anos disse que passou dois meses em Patras, sendo deslocado dos chassis de carretas pela polícia, assim como outro de 15 anos, também da região de Ghazni, que mostrou como a polícia usou cassetetes para removê-los.

Na Itália, 24 afegãos de menos de 16 anos foram descobertos em abril dormindo em um esgoto na estação de Ostiense, perto do centro histórico de Roma.

Muitos não conseguem ficar na escola
Oferecer ajuda para jovens que a procuram representa inúmeros desafios. O preço é um deles. As prefeituras italianas gastaram 200 milhões de euros (cerca de R$ 540 milhões) para abrigar 7 mil menores estrangeiros em 2007, segundo Bruce Leimsidor, um professor de direito de refugiados na Universidade de Veneza. No ano passado o número aumentou para 8.200.

Enquanto o Estado francês contribui com 2,7 milhões de euros (cerca de R$ 7,2 milhões) para oferecer abrigo de emergência para cem crianças estrangeiras em Paris, a região parisiense atualmente desembolsa 35 milhões de euros (aproximadamente R$ 94,5 milhões) a mais para abrigar e educar outros 760, disse Aveline.

Em Paris, que emprega uma mistura de lares temporários e hospedarias, pode custar mais de 100 euros (cerca de R$ 270) por dia para abrigar e educar um menor estrangeiro, segundo Henry. Na Itália, onde muitos são adotados temporariamente por famílias, o custo se aproxima de 55 euros (aproximadamente R$ 148), disse Leimsidor.

Apesar do desejo de educação manifestado pelos menores, o índice de fugitivos na França pode ser tão alto quanto 90%, segundo Dominique Bordin, que até julho dirigia uma hospedaria para menores perto de Paris para a France Terre d'Asile.

Henry insistiu que a Europa poderia fazer mais para ajudar a moldar o futuro desses afegãos. "O Afeganistão um dia sairá da crise e vai precisar de uma elite educada", ele disse. "Receber estes jovens não seria tão válido para o futuro quanto enviar soldados para lá?"

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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