Meios de comunicação novos, necessidades antigas no Irã

Roger Cohen
Em Los Angeles (EUA)

Dois mulás olham para uma multidão de manifestantes em Teerã. Um deles diz, "Prendam os correspondentes". E o outro responde: "Mas eles são todos correspondentes!".

A história, recontada por Mahasti Afshar, um acadêmico iraniano-americano, durante um debate na Universidade do Sul da Califórnia, ilustra o amadurecimento pós-eleitoral de novos meios de comunicação social como o Twitter, que forneceram informações críticas e imagens relativas às manifestações que se seguiram à eleição iraniana, apesar de as autoridades terem silenciado as principais redes de teledifusão e jornais.

Através do Twitter, os jornalistas-cidadãos iranianos transformaram a imagem do seu país nos Estados Unidos (a juventude online suplantou os mulás loucos); globalizaram o movimento de protesto ao atrair para a luta uma multidão vasta de iranianos no exterior, que ainda mostravam-se apáticos em relação às manifestações (essa comunidade ainda padece de divisões debilitantes); e proporcionaram uma ferramente efetiva de organização na ausência de uma liderança forte (Mir Hussein Moussavi, o seu nome é fraqueza). Essas façanhas não foram pequenas.

Mesmo assim, sente-se falta da mídia tradicional - expulsa, presa, difamada. O Irã tornou-se opaco. A sua crise é vista sob tonalidades sombrias através de uma vidraça. Os seus gritos são abafados, a sua angústia é esmagada. O presidente Mahmoud Ahmadinejad segue em frente com arrogância. Os cálculos nucleares silenciam as capitais do Ocidente.

Depois que eu deixei o Irã, no início de julho, escrevi que os iranianos "registraram os fatos - com imagens de vídeo e fotografias obtidas e transmitidas com telefones celulares, Twitter e outras formas de rede social - e, desta forma, criaram um conjunto de provas acusatórias inegáveis contra os usurpadores de 12 de junho".

"Ahmadinejad nunca mais falará de justiça sem ser contestado pelo Efeito Neda - a imagem de olhos se apagando, da vida acabando e do sangue escorrendo pela face de Neda Agha-Soltan".

Nós sabemos agora que a estudante de 26 anos foi uma das mais de 70 pessoas assassinadas durante a violência pós-eleitoral. Mas quem está lá para investigar essas mortes - ou as alegações de estupros em massa de centenas de homens e mulheres presos - e esclarecer os fatos?

Na mesma coluna eu escrevi: "Ser jornalista é testemunhar e registrar os fatos. O resto não passa de ornamentação. Testemunhar e registrar significa estar no local - e isso não é algo gratuito. Nenhum site de buscas fornece ao indivíduo o cheiro de um crime, o tremor no ar, os olhares em chamas e a cadência de um grito".

Isso foi demais para Arianna Huffington, do epônimo Post, que ficou furiosa com o fato de eu ter optado por "atacar as ferramentas das reportagens alimentadas pelas novas mídias citando exatamente os acontecimentos que evidenciam o poder dessas ferramentas", e opinou: "A verdade é que, não é necessário 'estar lá' para testemunhar e registrar. E é possível que a pessoa esteja no local dos acontecimentos e não consiga testemunhar e registrar os fatos".

O que? Testemunhar os acontecimentos de longe é algo como fazer um omelete sem quebrar ovos. Observar os fatos é diferente e tem um preço.

E quanto a estar no local e não conseguir testemunhar os fatos, bem, sim, o indivíduo poderia estar imerso em um transe induzido por Hafez ou escalando as montanhas Alborz, caso desejasse, mas isso seria improvável.

O lema do universo Twitter é "Compartilhe e descubra aquilo que está ocorrendo neste exato momento, em qualquer lugar do mundo". É isso o que ele faz - até certo ponto. Ele é muitas coisas, incluindo um formidável sistema de alerta para um fato que acabou de acontecer; um monitor dos níveis de interesse globais (os fatos no Irã foram os mais divulgados durantes semanas, até serem suplantados pela morte de Michael Jackson) e do desempenho da mídia; um banco de links essenciais; um arquivo rico; e uma comunidade ("O Twitter é o meu melhor amigo").

Mas, será que isso é jornalismo? Não. Na verdade, o jornalismo é, sob vários aspectos, a antítese daquele dilúvio de informações não editadas do tipo "Lá vem todo mundo" - a boa frase de Clay Shirky - que é transmitido pelos novos meios de comunicação social. Isso porque o jornalismo constitui-se em uma destilação. É uma seleção de materiais, estejam eles na forma de palavras ou imagens, obtidos na busca da apresentação daquilo que é mais verdadeiro e justo, a representação mais vívida e completa de uma situação.

Ele só passa a existir por meio de uma inteligência e de uma sensibilidade organizadoras. Ele depende da forma, uma pequena palavra fora de moda, sem a qual a significância é perdida em meio ao caos. Conforme sugeriu Aristóteles há mais de dois milênios, a forma exige um início, um meio e um fim. Ela requer unidade temática. O jornalismo é o responsável pela transição entre um estado de balbúrdia e a coerência temática.

Para se fazer as escolhas que eu descrevi, a presença é um fator necessário. Isso porque parte da escolha reside em algo inexprimível - o ar que se respira, os sons que se ouve, na luz fugidia como a asa de um pássaro que passa pelos olhos temerosos -, algo que não pode ser capturado ou descrito à distância.

A tecnologia enriqueceu o jornalismo ao expandir os meios para exercê-lo e a matéria-prima na qual ele se baseia. Mas a tecnologia também reduziu o incentivo - e os lucros - para que se saia do escritório. O entendimento sem a experiente "visão a partir do local dos acontecimentos" (Martha Gellhorn) continua sendo impossível. A natureza detesta o vácuo, e o jornalismo o detesta ainda mais, de forma que ele preenche o vazio com palavras vazias.

O Irã expeliu ou aprisionou a mídia por um motivo: cegar o mundo, confundi-lo, fazer com que ele esquecesse.

Mas não se esqueçam: Maziar Bahari, da "Newsweek", ainda está incomunicável na prisão, mais de dois meses após a sua prisão. Os mortos ainda estão mortos. Os furiosos ainda estão furiosos. Ahmadinejad falará perante as Nações Unidas em Nova York em 23 de setembro. É preciso lembrar a ele que o mundo exige a verdade da forma como ela é vista e destilada a partir dos locais dos acontecimentos.

Tradução: UOL

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