UOL Notícias Internacional
 

12/11/2009

A Bulgária ainda está presa ao trauma da transição

International Herald Tribune
Matthew Brunwasser
O silêncio presenciado nesta semana nas ruas da capital búlgara é um sinal notável da profunda ambivalência desta nação em relação à democracia. Embora a última terça-feira tenha sido o 20º aniversário da remoção do líder comunista da Bulgária, Todor Zhivkov, e do início das mudanças democrática aqui, o dia não foi comemorado, no momento em que a Alemanha limpava as suas ruas após as comemorações do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim.
  • Vassil Donev/EFE

    Novos tempos Reflexo no vidro da ex-sede do Partido Comunista Búlgaro, em Sófia, na Bulgária. Na última terça-feira, o país celebrou o 20º aniversário da remoção do líder comunista Todor Zhivkov que iniciou o processo de redemocratização



Para explicar a amnésia dos búlgaros quanto ao seu passado comunista, e a apatia em relação ao seu presente democrático, os comentaristas búlgaros estão utilizando uma metáfora bíblica: assim como os israelitas, os búlgaros terão que vagar pelo deserto durante 40 anos para que sejam purgados dos pecados do comunismo.

"Vinte anos se passaram e nós ainda estamos no meio do deserto", diz Edvin Sugarev, 56, poeta e ex-líder da oposição anticomunista. "E esperaremos mais 20 anos".

A Bulgária é o único ex-membro do Pacto de Varsóvia que não conta com um instituto da memória nacional para discutir os detalhes históricos de um passado comunista, durante o qual, de acordo com os historiadores, milhares de pessoas foram presas e mortas. Sugarev é uma das poucas figuras públicas na Bulgária que fala sobre a necessidade de uma avaliação moral do comunismo.

"Formalmente, tudo na Bulgária parece estar bem: livre mercado, direitos humanos, liberdade de expressão, sistema político multipartidário, associação à União Europeia e à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)", diz Sugarev. "Mas isso é apenas uma fachada. Por trás disso não existe nada".

"As pessoas ganharam liberdade, mas elas não sabem o que fazer com isso", acrescenta Sugarev. "Porque é mais confortável quando alguém lhes diz o que fazer, aonde ir e o que é certo e errado". A Bulgária tinha a reputação de ser o mais obediente dos aliados soviéticos. Zhivkov disse em 1973 que a Bulgária e a União Soviética agiriam "como um único corpo, respirando com os mesmos pulmões e alimentando-se com a mesma corrente sanguínea".

Apesar das suas conquistas políticas e militares, a Bulgária ainda é o país mais pobre da União Europeia, com salários mensais médios de 300 euros (US$ 450, R$ 776). O país padece também de um grande problema de imagem na Europa e há anos é alvo de críticas da Comissão Europeia por ter se mostrado incapaz de combater a corrupção e o crime organizado.

O país foi o primeiro do bloco a ter os seus fundos advindos da União Europeia cancelados, em outubro de 2008, devido à corrupção e à má administração. Segundo a Transparência Internacional, uma organização que combate a corrupção, a Bulgária ocupa a pior posição na lista dos Estados membros da União Europeia mais corruptos, juntamente com a Romênia.

Segundo a maioria das avaliações, a Bulgária parece ser o ex-membro do Pacto de Varsóvia mais insatisfeito com a democracia e também o mais nostálgico em relação ao comunismo, sendo que a Hungria vem em um segundo lugar bem próximo, segundo o Pew Global Attitudes Project, que recentemente entrevistou europeus orientais reapresentando a eles perguntas que lhes foram feitas em 1991.

Quando questionados sobre a democracia, 76% dos búlgaros disseram estar insatisfeitos com ela. Quando lhes perguntaram se os livres mercados melhoraram a situação do povo, apenas 37% dos búlgaros disseram que sim. E quando pediram a opinião deles a respeito do afastamento da economia estatal, 54%% dos búlgaros aprovaram esta medida, contra 46% dos húngaros.

A influência da Rússia sobre a Bulgária é tida como um fator positivo por 45% dos búlgaros, uma percentagem equivalente à encontrada entre os ucranianos. Somente 11% dos búlgaros concordaram que o cidadão comum beneficiou-se com as mudanças ocorridas em 1989. E quando lhes perguntaram se o Estado é administrado para beneficiar todo o povo, 16% dos búlgaros concordaram, contra os 55% que tinham a mesma opinião em 1991.

"Nós criamos instituições democráticas, mas não contamos com a cultura democrática-política necessária para fazer com que elas sejam efetivas", afirma Petar-Emi Mitez, um sociólogo do Instituto Ivan Hadjiyski para o Estudo de Estruturas e Valores Sociais, em Sofia.

Mitev acrescentou que o colapso do antigo sistema político e econômico não significou o fim dos velhos valores coletivistas.

"Agora estamos ingressando em um novo sistema de valores baseados no indivíduo, nos direitos humanos, etc...", afirma o sociólogo. "Este novo sistema de valores não pode ser criado de uma vez só". Os limites desses novos valores baseados no mercado ainda não estão bem definidos, diz Mitev, referindo-se à compra de votos, algo que foi amplamente divulgado em eleições recentes.

Evgeni Dainov, professor de ciência política da Universidade Búlgara Nova, afirma: "Levamos 20 anos para nos livramos da ideia de que o povo é impotente e o Estado deve fazer tudo". Segundo Dainov, a esperança da democracia búlgara reside na geração nascida depois de 1989.

"Eles são totalmente diferentes, até mesmo dos que nasceram em 1985", explica Dainov. "Para eles, 1989 foi há muito tempo. É como se fosse a era em que os dinossauros andavam pela Terra. Eles são a primeira geração a realizar algo. A primeira que não se esconde atrás de mitos de impotência. Essa geração que atualmente tem 20 anos de idade é quase exatamente igual à sua correspondente ocidental, e este era exatamente o objetivo das mudanças políticas originais".

"Não sei onde foi que eles obtiveram estas características", acrescenta Dainov. "Talvez nos filmes norte-americanos. Mas sem dúvida não foi dos pais, que não têm qualquer iniciativa. De algum lugar eles tiraram esta ideia de que realizar coisas é algo bom".

A nova geração é a que mais critica o comunismo e a que tem a opinião mais favorável sobre a transição, diz Mitev, o sociólogo. Mas os pais das pessoas nascidas nesta geração dizem que estas cresceram com "slobodia, e não com svoboda", o que em búlgaro quer dizer, "licenciosidade, e não liberdade".

Um dos novos conceitos a emergir da transição é a palavra búlgara "dalavera", que significa dinheiro fácil obtido por meios desonestos. As pessoas mais velhas têm uma opinião negativa sobre dalavera, já que para elas o dinheiro deve ser obtido por meio de trabalho, mas os jovens, que sentem-se totalmente confortáveis com o livre mercado, considera esse conceito positivo.

"O enriquecimento por meios desonestos tornou-se parte integrante da transição búlgara e isto foi absorvido pela geração jovem", afirma Mitev. "Isso é uma parte importante do trauma da transição".

Em um debate na Universidade de Sofia sobre os 20 anos transcorridos desde a queda do Muro de Berlim, três estudantes que estavam na multidão e que nasceram em novembro de 1989 foram escolhidos para representar a Bulgária no Parlamento Europeu na quarta-feira, em um encontro de 89 outros europeus nascidos no mesmo mês.

"Nunca ouvi falar nada de bom sobre aquele período", diz Silvia Vasileva, 20, uma estudante de direito que nasceu no dia 10 de novembro de 2009. "Mesmo se você tivesse dinheiro, não dava para comprar nada. Laranjas eram frutas exclusivas do Natal. Quem usasse calças jeans seria uma atração absoluta".

Vyara Pancheva, que também tem 20 anos de idade e é estudante de inglês na Universidade de Sofia, diz não saber ao certo se o comunismo era bom ou ruim.

"Os búlgaros ainda têm visões radicais e opostas do comunismo", diz ela. "Assim, não foi possível realizar uma missa de comemoração em 10 de novembro, já que o assunto era muito sensível".

"Como ideia, eu acho que o comunismo é bom", opina Pancheva. "Mas na vida real ele é totalmente impraticável. Eu pessoalmente acho que a democracia é melhor".



Tradução: UOL >/i>

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