UOL Notícias Internacional
 

15/11/2009

Povo afegão está mais confiante no futuro de seu país

International Herald Tribune
Karl F. Inderfurth e Theodore L. Eliot Jr.
Com a vitória de Hamid Karzai na controversa eleição presidencial afegã, a decisão do presidente Obama em relação à futura política norte-americana em relação ao país é considerada iminente. Como parte de suas deliberações, Obama recebeu o relatório de seus comandantes militares, o conselho de seus principais líderes civis, e as opiniões dos aliados da Otan, entre outros.

No Afeganistão, mortes de militares estrangeiros crescem 58% no governo Obama

O número de militares estrangeiros mortos em operações no Afeganistão já cresceu 58% em 2009, primeiro ano do governo do presidente norte-americano Barack Obama, em comparação com todo o ano de 2008, último período do governo republicano de George W. Bush

Agora há apenas mais uma informação que deve ser acrescentada a essa mistura, a saber, o que o povo afegão está pensando.

Uma pesquisa recente dirigida pela The Asia Foundation (e disponível em asiafoundation.org) faz um retrato da opinião pública no Afeganistão. Ela mostra uma nação em conflito - e conflitante - sobre a direção que está seguindo.

Pesquisadores afegãos treinados entrevistaram 6.400 pessoas, quase que igualmente divididas entre homens e mulheres, em todas as 34 províncias do país, pouco antes das eleições presidenciais de 20 de agosto. Esta foi a quinta pesquisa de opinião feita pela fundação desde 2004 e, portanto, fornece uma perspectiva valorosa sobre as tendências da opinião nacional dos afegãos ao longo do tempo.

A pesquisa indica que, em muitas partes do país, há uma percepção de alguma melhora. Há um pequeno aumento em relação à pesquisa de 2008 (de 38 para 42%) do número de afegãos que acreditam que seu país está indo na direção certa e uma pequena queda (de 32 para 29%) entre aqueles que acreditam que o país está na direção errada.

A principal razão para este otimismo parece ser uma sensação crescente de que a segurança está melhorando (de 31% em 2006 para 44% em 2009). Outras razões incluem a reconstrução e a abertura das escolas para meninas. Compreensivelmente, os traços positivos não estão presentes nas áreas ao sul e ao leste do país, ao longo da fronteira com o Paquistão, onde os rebeldes do Taleban estão mais presentes.

Apesar do brilho de esperança, a insegurança continua sendo a principal razão para o pessimismo afegão, citado por 42% dos entrevistados. Quase 20% dizem que eles próprios ou alguém da família foram vítimas de violência ou crime no ano passado. Quase uma em cada dez vítimas contou que isso se deveu às ações das milícias e dos rebeldes ou das forças estrangeiras. Este último caso inclui ataques aéreos e ações em campo dos EUA e das forças da Otan que resultaram em mortes de civis e geraram uma forte repercussão entre o povo afegão.

Mas essa reação não se traduziu numa demanda afegã pela retirada das forças militares estrangeiras. Quase 70% dos entrevistados disseram que o Exército Nacional Afegão e a polícia continuam precisando de apoio das tropas estrangeiras e não podem funcionar sozinhos. Por enquanto, parece que os afegãos continuam a ver os EUA e as forças da Otan como aliados e parceiros, e não como ocupantes.

Os afegãos estão claramente cansados da guerra. Eles estão em guerra, de uma forma ou de outra, há três décadas. Então não surpreende que 71% apoie as tentativas do governo para lidar com a situação de segurança por meio da negociação e reconciliação com o Taleban, apesar de ser difícil de imaginar que qualquer uma dessas negociações tenha sucesso enquanto o Taleban acreditar que está vencendo.

O alto nível de apoio para essa abordagem é provavelmente influenciado pelo fato de que uma maioria dos entrevistados (56%) diz que tem algum nível de simpatia pelas motivações dos grupos armados de oposição, que não só prometem fornecer segurança, mas também colocar fim à corrupção que existe em todos os níveis da sociedade afegã, de alto a baixo.

Três quartos dos entrevistados veem a corrupção como um grande problema, a mesma opinião que tiveram durante os últimos quatro anos. Ela está minando a legitimidade de todas as instituições governamentais.

O apoio para a igualdade de gênero, com oportunidades iguais para a educação (87%) e o direito das mulheres ao voto (83%), continua alto. Entretanto, apenas uma pequena maioria acredita que as mulheres deveriam decidir por si mesmas em quem votar; houve um declínio significativo no apoio à representação feminina nos órgãos do governo em todos os níveis; e a proporção de pessoas que dizem que as mulheres deveriam poder trabalhar fora de casa diminui a cada ano, chegando a seu menor nível em 2009.

As mulheres afegãs têm posições firmes em relação a esses assuntos - 80% sentem que deveriam poder procurar emprego fora de casa, comparado a apenas 55% dos homens. Mas elas também têm consciência de que a maré está começando a se virar contra elas. Elas também sabem que, se o Taleban voltar ao poder, quaisquer vitórias que tenham conseguido durante os últimos oito anos, quaisquer direitos que tenham conquistado, desaparecerão.

Sobre o autor do artigo

Karl F. Inderfurth, professor da Escola Elliott para Assuntos Internacionais na Universidade George Washington, serviu como secretário assistente de Estado para assuntos relativos ao sul da Ásia entre 1997 e 2001. Theodore L. Eliot Jr. serviu como embaixador dos EUA no Afeganistão de 1973 a 1978 e é reitor emérito da Escola Fletcher de Direito e Diplomacia da Universidade Tufts

Por fim, os afegãos não desistiram das promessas de democracia - 78% veem-na como a melhor forma de governo disponível. Mas sua confiança está diminuindo. Desde 2006, tem havido uma queda constante no número de pessoas que dizem que estão satisfeitas com a forma como a democracia está funcionando no Afeganistão. A recente crise eleitoral no Afeganistão com certeza contribuirá com essa desilusão crescente.

Com os próprios afegãos incertos sobre a direção futura de seu país, como demonstra essa pesquisa, as decisões tomadas pelos Estados Unidos e pela comunidade internacional nos próximos dias se tornam ainda mais críticas.

O Afeganistão está num momento de virada, e pode tanto retornar aos seus anos de Taleban quanto seguir adiante para um futuro mais próspero e democrático.

Tradução: Eloise De Vylder

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