UOL Notícias Internacional
 

23/11/2009

Novas vozes sobre a mudança climática

International Herald Tribune
James Kanter
Joe Witte espera que as pessoas que assistem aos seus programas na televisão nos Estados Unidos pensem não só sobre o tempo quando saem de casa pela manhã.

Há dois anos, Witte, meteorologista do "News Channel 8" em Virgínia e Maryland, começou a incluir fenômenos ligados à mudança climática em seus boletins, como por exemplo o efeito de temperaturas mais quentes sobre a vida na baía de Chesapeake e sobre as perspectivas de recreação na área.

As mudanças na temperatura da baía foram "grandes e significativas", disse Witte. "Este é um gráfico científico que podemos mostrar no ar e depois perguntar aos telespectadores: 'Será que seus filhos e netos ainda poderão pescar caranguejos?'"

Apresentadores como Witte são raridade. Entre as figuras públicas, os apresentadores do tempo na televisão são relativamente novos na liderança dos esforços de conscientização quanto à mudança climática.

Preocupados em não ofender os telespectadores e as autoridades, que podem ser céticos em relação ao efeito que os seres humanos têm sobre o clima, e cuidadosos ao fazer referências à ciência complexa durante as transmissões de três minutos de duração, a maioria dos apresentadores evitam usar seus quadros no horário nobre para discutir o aquecimento global.

Mas isso pode estar mudando.

Em setembro, a Organização Meteorológica Mundial, uma agência da ONU, escolheu os apresentadores do tempo na televisão como emissários do clima, enfatizando o papel que eles poderiam desempenhar em comunicar as evidências e informações sobre o aquecimento global diretamente aos telespectadores.

Esta abertura para os apresentadores do tempo faz parte de uma iniciativa mais ampla da ONU para fazer com que a previsão do tempo, ou seja, do estado da atmosfera em um determinado lugar e momento, aproxime-se da previsão do clima, ou seja, do comportamento do tempo ao longo de meses até milhares e milhões de anos.

O objetivo da proposta da organização é criar um grupo de serviços climáticos para ajudar os governos, agricultores, empresas e cidadãos a anteciparem as novas condições e se adaptarem a elas. A iniciativa também poderia expandir as responsabilidades dos apresentadores do tempo, e já começam a surgir grupos dispostos a fornecer uma produção confiável de conteúdo sobre a mudança climática.

"Nosso objetivo é transformar as transmissões do tempo em transmissões ambientais", disse Deborah Sliter, vice-presidente sênior da Fundação Nacional para Educação Ambiental, uma organização norte-americana que deu ideias para os apresentadores mencionarem no ar, com por exemplo o desabrochar de flores de lilás em média quatro dias antes do que durante os anos 50 na primavera dos Estados Unidos.

Citando um estudo recente, Sliter disse que os apresentadores do tempo tendem a ser a fonte mais confiável de informação climática para as pessoas depois dos cientistas, família e amigos - daí o seu imenso potencial de gerar conscientização. "Eles são astros em suas próprias comunidades", disse ela.

Os apresentadores alertam que ainda pode levar um tempo para que as referências sobre a mudança climática se tornem comuns durante as previsões do tempo na televisão.

O meteorologista chefe da "NBC 6 WTVJ", em Miami, John Morales, disse que pesquisas acadêmicas recentes mostraram que cerca de metade dos apresentadores do tempo dos EUA eram de fato céticos em relação à mudança climática. Desses, cerca de um terço compartilha as visões de apresentadores como John Coleman, que ajudou a fundar o canal a cabo "Weather Channel". Ele chamou o aquecimento global de "um golpe".

Outros obstáculos incluem as ligações entre os governos e a mídia.

Na Itália, onde o primeiro-ministro Silvio Berlusconi expressou ceticismo quanto à necessidade de uma ação quanto ao clima, e onde ele é dono ou controla indiretamente a maioria das estações de televisão, os profissionais do tempo normalmente evitam falar sobre o clima por medo de perderem seus empregos, diz Luca Mercalli, presidente da Sociedade Meteorológica Italiana e meteorologista da "Rai 3".

Os profissionais do tempo reconhecem que não podem prever o tempo com tanta acuidade com mais do que sete a dez dias de antecedência. Além disso, ainda não foram criados computadores capazes de prever o que acontecerá daqui a vários anos em regiões bem definidas.

Mesmo conseguir previsões sazonais corretas ainda é complicado.

Em abril, o Met Office previu que a Grã-Bretanha teria "provavelmente um verão para churrasco". Mas quando a realidade se mostrou bem diferente, os comentaristas ridicularizaram as previsões. O Met Office revisou sua previsão sazonal no final de julho, em meio a fortes chuvas.

Os apresentadores não demoram a enfatizar que a variabilidade natural pode ser tão importante quanto os efeitos do aquecimento global ao fazer previsões mais extensas. Eles também alertam que usar a ciência para explicar os eventos diários do clima poderia prejudicar sua profissão e, talvez mais seriamente, desperdiçar a boa vontade dos telespectadores de fazer sacrifícios para ajudar o clima.

"As pessoas continuam acreditando em nossas previsões do tempo, mesmo que às vezes estejamos errados", disse Jill Peeters, meteorologista do canal flamengo "VTM" que escreveu um livro e fez um documentário sobre a mudança climática. "Se eu disser que o aquecimento é responsável pelos fogos nas florestas na Grécia e de repente a Europa passar por um período de clima bem mais frio, pergunto-me se as pessoas perdoariam com facilidade."

Witte disse que a queixa mais comum dos telespectadores até agora era que ele havia ignorado o papel do sol na variabilidade climática. Em resposta, ele enfatizou como as pequenas mudanças na atmosfera são influências bem mais poderosas sobre o clima do que o sol.

Mas Witte disse que até agora ele resistiu a qualquer tentação de sugerir aos norte-americanos mudanças de comportamento para atenuar o efeito estufa.

Discutir o clima "logo se transforma em uma série de questões de política, e é aí que as pessoas se dividem muito, muito, rapidamente", disse. "Por mais que eu quisesse dizer coisas assim, eu me seguro."

Tradução: Eloise De Vylder

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