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25/11/2009

Na visita à China, Obama perdeu um round

International Herald Tribune
Ying Chan*
Apesar do júri ainda não ter decidido sobre o que a visita do presidente Obama à China renderá a longo prazo, o presidente certamente perdeu a guerra do simbolismo em seu primeiro encontro com a China.

Na China consciente de status, simbolismo e protocolo exercem um papel imenso. Os erros diplomáticos americanos poderiam reforçar a mentalidade de Pequim de que o controle grosseiro da informação funciona, de que uma China em ascensão pode pisar nos valores universais de um governo aberto e que presta contas.
  • Saul Loeb/AFP

    Mal na foto A imagem final do presidente Obama na China, que circulou pelo mundo, diz muito: um homem solitário caminhando pela ladeira íngreme da Grande Muralha. A foto contrasta daquelas de outros presidentes dos EUA que foram fotografados na mesma Grande Muralha, cercados por crianças acenando bandeiras ou por cidadãos admirados



Durante a visita de Obama, os chineses superaram os americanos em todos os eventos públicos, do desastroso encontro com estudantes em Xangai à coletiva de imprensa podada em Pequim. De modo característico, os chineses tentaram isolar a população, enquanto os Estados Unidos cooperaram não intencionalmente.

A imagem final do presidente Obama na China, que circulou pelo mundo, diz muito: um homem solitário caminhando pela ladeira íngreme da Grande Muralha. A foto contrasta daquelas de outros presidentes americanos que foram fotografados na Grande Muralha, cercados por crianças acenando bandeiras ou cidadãos admirados.

Talvez Obama quisesse um momento tranquilo para si mesmo antes de voltar para casa. Mas a primeira visita de um presidente ao muro é um ritual que precisa ser emoldurado apropriadamente. Obama poderia ter esperado até a próxima visita, quando poderia ter trazido a primeira-dama e suas filhas. Em vez disso, ele foi à frente sozinho prestar tributo à cultura antiga da China. Em troca, os chineses não ofereceram nada, nenhuma recepção popular, nem mesmo a companhia de um alto líder chinês.

O problema para os Estados Unidos começou no encontro com os estudantes dois dias antes - um evento mais roteirizado do que aqueles organizados com estudantes para presidentes americanos anteriores. Não havia nenhum diálogo real, à medida que uma audiência ensaiada, composta na maioria por membros da Liga Jovem Comunista, fazia perguntas preparadas.

Os chineses também rejeitaram o pedido americano de transmissão nacional ao vivo e não cumpriram a promessa de exibir ao vivo o encontro no site Xinhua.net, a versão online da agência de notícias estatal da China. Obama marcou um ponto quando conseguiu tratar da questão da liberdade na Internet após o embaixador americano, Jon Huntsman, ter lhe apresentado a pergunta de um internauta chinês submetida online.

Enquanto isso, as autoridades chinesas extraíram do encontro citações generosas de Obama sobre as realizações da China e expressões de boa-vontade dos Estados Unidos, que se transformaram em manchetes reluzentes para a imprensa chinesa. Neste round na briga de propaganda, os Estados Unidos marcaram um ponto enquanto a China colheu um punhado.

Obama também foi impedido de discursar para o público em Pequim. Na coletiva de imprensa em Pequim, o presidente Hu Jintao e o presidente Obama leram declarações preparadas e não responderam perguntas dos repórteres. "Este foi um encontro histórico entre os dois líderes e os jornalistas deveriam ter tido a oportunidade de fazer perguntas, de sondar além das declarações", protestou Scott McDonald, o presidente do Clube dos Correspondentes Estrangeiros da China, inutilmente.

Em um esforço final para romper o bloqueio de informação, a equipe de Obama ofereceu uma entrevista exclusiva ao "Southern Weekend", o jornal mais corajoso da China, com sede em Guangzhou. Novamente, as perguntas dos jornalistas foram programadas e o jornal censurado. Em protesto, o jornal exibiu proeminentemente vastos espaços em branco na primeira e segunda página da edição em que foi publicada a entrevista. As autoridades de propaganda estão investigando este ato de desafio.

Apenas a equipe de Obama sabe ao certo como se deixou ser superada. Não intencionalmente, os Estados Unidos ajudaram a produzir um pacote de eventos públicos falsos.
  • Ng Han Guan/AP

    Encontro O presidente dos EUA, Barack Obama (à esquerda), cumprimenta o presidente da China, Hu Jintao, após uma coletiva de imprensa no Grande Salão do Povo, em Pequim

Estudiosos argumentaram que os visitantes não deveriam impor o "modo americano" à China e que os Estados Unidos precisam respeitar as práticas chinesas. O argumento é condescendente. Cada vez mais o público chinês clama por maior transparência e prestação de contas oficial, apesar do governo chinês ter feito progressos nestas frentes. Ninguém em sã consciência pediria a Obama que repreendesse Pequim em direitos humanos. Mas o público chinês merece uma maior prestação de contas, não menos do que os cidadãos americanos.

Para seu crédito, as autoridades americanas tentaram transmitir sua mensagem online. Mas foram os blogueiros chineses que foram mais ativos no desafio ao controle oficial da informação. Eles ao menos travaram a boa luta com crescente confiança, uma luta que os americanos parecem incapazes de travar de forma eficaz.

*Ying Chan é diretor do Centro de Jornalismo e Estudos de Mídia da Universidade de Hong Kong.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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