União Europeia: aproximando-se da Rússia por um novo ângulo

Judy Dempsey

A Rússia é o tema de política externa que mais preocupa a União Europeia. Ele pode levar as negociações em Bruxelas a um impasse porque antigos e novos Estados integrantes do bloco de 27 nações estão divididos em relação a como lidar com o Kremlim. Diplomatas da UE com frequência reclamam da falta de progresso, mas tampouco apresentam ideias criativas sobre como colocar a relação com a Rússia num novo patamar.

Ainda assim, como demonstrou o período pós-2ª Guerra Mundial, quando dois inimigos como a França e a Alemanha superaram séculos de desconfiança, o restabelecimento de relações sustentou a paz e a prosperidade na Europa ocidental.
  • Dmitry Kostyukov/AFP

    União Europeia Os antigos e novos Estados integrantes do bloco de 27 nações estão divididos sobre como lidar com o Kremlim. Diplomatas da UE com frequência reclamam da falta de progresso, mas não apresentam ideias criativas sobre como colocar a relação com a Rússia num novo patamar



Com o avanço da UE em direção aos antigos países comunistas do Leste Europeu, agora há uma oportunidade para que os dois antigos inimigos, a Polônia e a Alemanha, concluam a estabilidade da Europa reunida. "Se a Polônia e a Alemanha estabelecerem uma relação muito mais profunda, isso poderia quebrar o impasse da UE com a Rússia", disse Jacek Kucharczyk, diretor do Instituto de Assuntos Públicos em Varsóvia. "Isso poderia ter amplas consequências positivas para a democratização dos países do Leste da UE".

Uma nova relação entre a Alemanha e a Polônia é crucial porque esses dois países foram historicamente muito afetados pela Rússia, em geral por meio da guerra. Ao longo dos séculos, a Alemanha e a Rússia competiram entre si para dominar a Polônia. Mas a Alemanha e a Rússia também lutaram amargamente durante a 2ª Guerra Mundial para conquistar uma à outra. Mesmo que a Polônia seja agora membro da Otan e da UE, a Alemanha esteja reunificada e a União Soviética não exista mais, esse turbulento e complexo relacionamento triangular continua sendo uma ferida inflamada.

Alguns setores da classe política da Polônia têm um medo instintivo de serem cercados pela Alemanha e pela Rússia, com esses dois países tomando decisões pelas suas costas. Um exemplo é o gasoduto russo-germânico Nord Stream. Ele será construído sob o Mar Báltico, reduzindo assim a importância da Ucrânia, Belarus e Polônia enquanto rotas de trânsito para a entrega do gás russo na Europa ocidental, mas também aumentando a dependência desses países em relação ao gás russo.

Quando a Polônia traz à tona o tema da segurança energética na UE, a Rússia e, às vezes, a Alemanha acusam os poloneses de impedir o progresso entre Bruxelas e Moscou. Quando a Alemanha continua a aprofundar seus contatos políticos e comerciais com a Rússia, os poloneses temem que ela esteja colocando seus interesses à frente dos da Europa. "Essencialmente, estamos lidando com um conflito de memória histórica", disse Kucharczyk.

A Alemanha e a Polônia tentaram lidar com suas diferentes narrativas históricas através do Triângulo de Weimar. Estabelecido em 1991 pelos ministros de exterior da França, Alemanha e Polônia, a ideia era que a Alemanha e a Polônia usassem a reaproximação franco-germânica como um modelo para sua reconciliação.

"O Triângulo de Weimar foi importante na época, mas precisamos seguir adiante", disse Jan Techau, especialista europeu no Conselho Alemão para Assuntos Internacionais. "O relacionamento entre a Alemanha e a Polônia poderia ser muito, muito melhor", disse ele.

Até agora, não houve novas iniciativas da chancelaria ou do Ministério de Exterior para dar prosseguimento à relação com a Polônia. A chanceler Angela Merkel e o ministro de Exterior Guido Westerwelle falam sobre o Triângulo de Weimar em vez de atacar o problema central das relações entre a Polônia e a Alemanha: como superar suas diferenças em relação à Rússia. Apesar de Merkel ter acalmado os temores da Polônia sobre o gasoduto Nord Stream e de ela se dar bem com o primeiro-ministro polonês Donald Tusk, falta solidez ao relacionamento.

"Não vejo nenhuma ideia vinda do lado alemão sobre como levar o relacionamento adiante para que eles possam trabalhar junto com a Rússia", disse Dieter Bingen, diretor do Instituto Polonês-Alemão em Darmstadt.

Na Polônia, apesar das suspeitas em relação à Alemanha e a Rússia, o governo de centro-direita de Tusk adotou uma relação mais pragmática para com a Rússia em comparação a seu predecessor, o nacionalista-conservador Jaroslaw Kaczynski, que se recusou a lidar com o Kremlim. Essa abordagem também assinala uma mudança da Polônia, de uma posição de lealdade atlanticista para outra mais ativa dentro da UE.

Radek Sikorski, ministro de Exterior da Polônia, está por trás dessas mudanças. Ele acredita que a Polônia tem melhores chances de segurança energética e maior influência política sobre seus vizinhos do leste, incluindo a Ucrânia, Belarus, Moldova e Rússia, se trabalhar dentro da UE.

"A Polônia está empreendendo medidas práticas, e como hoje em dia nós temos maior importância na Europa do que costumávamos ter, podemos conquistar muito mais", disse Sikorski num discurso no mês passado para a fundação independente Stefan Batory em Varsóvia. Acima de tudo, "o estímulo à modernização e à democratização pode, a seu tempo, ter implicações geopolíticas", acrescentou.

A Polônia já fez um esforço para dialogar com a Rússia. Os dois países estabeleceram recentemente um Instituto Polonês-Russo conjunto para estudar o assassinato de milhares de oficiais poloneses em 1940 na floresta de Katyn sob as ordens de Stalin. A Comissão Intergovernamental para Cooperação Econômica também foi reativada. Em resumo, disse Sikorski, "estamos elevando nossas relações com a Rússia para os padrões europeus, garantindo benefícios tangíveis. Estamos envolvidos na construção de uma parceria estratégica entre a Europa e a Rússia."

Este é um objetivo altamente ambicioso. E mostra que a seriedade da Polônia em estender as mãos à Rússia pode, com o tempo, talvez até mesmo reverter a percepção da Rússia de que a Polônia lidera o terreno antirusso dentro da UE. Isso também poderá se traduzir em melhores relações entre Bruxelas e Moscou, se a Alemanha apoiar a abertura da Polônia.

"Nossas relações com a Alemanha são cruciais, especialmente no que diz respeito a estabelecer a política da UE para com a Rússia", disse Grzegorz Gromadzki, especialista em política internacional na Fundação Batory. "Mas os alemães também sabem que precisam da Polônia para que a UE possa construir uma relação de longo prazo com a Rússia", acrescentou.

A Alemanha ainda tem de responder à abertura da Polônia para a Rússia e o novo papel do país na UE. Se ela fizer isso construindo uma nova aliança com a Polônia, poderá até mesmo igualar o que a reaproximação franco-germânica fez pela Europa depois de 1945. As consequências disso para a Europa reunida podem ser muito vastas.

Tradução: Eloise De Vylder

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