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05/12/2009

Reflexões sobre a primeira década dos anos 2000

International Herald Tribune
Anand Giridharadas
Quando passam marcos do calendário, por mais arbitrários que sejam, eles induzem reflexão. Nós olhamos para trás com um sentimento de incredulidade diante de tudo o que aconteceu no que parece um instante. Nós espiamos para o futuro temível, que se aproxima rapidamente. Nós catalogamos, esquematizamos e fazemos listas.

A criação de listas para o final da primeira década dos anos 2000 está a pleno vapor. Pelo menos nos Estados Unidos, que adoram ordenar prioridades, nos é dito quais foram as celebridades mais importantes, os líderes cruciais, os magnatas mais corruptos. Mas quando essas celebridades e líderes sumirem da memória, qual será o legado de ideias da década?

O que segue, graças a vários interlocutores reflexivos, é um esboço reconhecidamente rudimentar de uma breve história das ideias dos anos 2000.

O fim do excepcionalismo
O Ocidente, especialmente os Estados Unidos, percebeu nesses anos que sua preeminência e distinção podem acabar. Clérigos que habitam em cavernas e esquadrões insurgentes da ralé travaram uma guerra contra as grandes potências ocidentais, frequentemente compensando em brutalidade o que careciam em poder de fogo sofisticado.

Vigor e energia pareceram se transferir para o Terceiro Mundo ressurgente, que começou a exportar não apenas coisas, mas também inovações como um carro de US$ 2 mil. Os políticos ocidentais se viram prometendo encontrar empregos que outros países não poderiam fazer por menos; cada vez menos deles foram encontrados.

Parceria público-privada
O propósito do público e do privado tornou-se indistinto. Os governos de todo o mundo terceirizaram responsabilidades públicas - no caso dos Estados Unidos, até a guerra - para empresas privadas, enquanto as empresas privadas se voltaram para os cofres públicos para socializarem seus riscos. Em George W. Bush, os Estados Unidos tiveram seu primeiro presidente MBA. Seu antecessor, Bill Clinton, deixou os serviço público para ganhar milhões, fazendo mais para combater a Aids por meio de organizações privadas do que como presidente. Um empreendimento social, misturando lucro e instintos de fazer o bem, se transformou na vocação preferida das elites globais educadas.

O dogma do mercado saturou o antigo mundo socialista, onde os governos impuseram o capitalismo de cima para baixo. Uma nova cultura de consumo ético ofereceu a promessa de servir finalidades públicas por meio de consumo privado.

A classe fusion
Se identidades políticas definiram décadas anteriores, abrangência de identidades definiram esta. A tradicional fuga de cérebros se transformou em circulação de cérebros, à medida que os imigrantes dos países em desenvolvimento passaram a ir e vir entre seus países de origem e adotados. Os Estados Unidos elegeram um homem birracial cujos parentes atuais falam alemão, cantonês, francês, hebraico, ibo, indonésio, luo e suaíli.

Os escritores que conquistaram os prêmios e as imaginações eram produtos, e narradores, do espaço intermediário: Jean-Marie Gustave Le Clezio, Junot Diaz, Jhumpa Lahiri, Orhan Pamuk.

As palavras de Nathaniel Hawthorne, canalizadas por Lahini, se tornaram um hino: "A natureza humana não florescerá, da mesma forma que uma batata, caso seja plantada e replantada por uma série de gerações no mesmo solo esgotado".

O choque de paroquialismos
Enquanto a classe fusion trocava beijos no ar, o paroquialismo também floresceu, oferecendo a promessa do retorno a um passado mais simples, frequentemente imaginário ou ilusório. Foi o paroquialismo daqueles que travaram a jihad e o paroquialismo daqueles que contra-atacaram, líderes que não podiam pronunciar "Iraque" ou "Afeganistão", mas acreditavam poder mudá-los.

Foi o entusiasmo de políticos orgulhosamente paroquiais, de Sarah Palin nos Estados Unidos e os eurocéticos ou os contrários ao Islã do outro lado do Atlântico, até Evo Morales na Bolívia. O mundo pareceu destinado a ser conduzido por uma nova leva de potências, lideradas pela Índia e a China, de uma inclinação mais paroquial, menos interessadas do que o Ocidente, para o bem ou para o mal, em direitos e injustiças transcendentes ou nos assuntos de outros países em geral.

Virtualmente anônimos
A década tem um marco: a população humana se tornou de maioria urbana pela primeira vez, definida cada vez menos pelos laços fortes da sociedade provinciana e cada vez mais pelo anonimato da cidade. O anonimato também prosperou no lugar de trabalho, com o crescimento da terceirização, que picou grandes tarefas como fabricar um iPod em pedaços minúsculos, realizados em diferentes países por colegas que poderão nunca se encontrar.

Essa conectividade virtual silenciosamente se tornou comum por todo o mundo. Nós nos tornamos à vontade com a busca virtual por companheiros, as reuniões virtuais de negócios, os amigos virtuais, a negociação virtual de swaps de crédito. O anonimato se tornou humano.

Viva agora, pague depois
Hipoteca foi uma palavra importante da década, mas não apenas o substantivo, mas também o verbo hipotecar. Os anos 2000 envolveram de tantas formas um presente financiado pelo futuro. O futuro financiou um arquipélago de endividamento de Dubai até a Islândia. Os pobres do mundo aprenderam, com muita celebração, a fazer uso de microversões dos empréstimos que viciaram os ricos.

Algumas das novas empresas mais impressionantes da década apresentaram valorizações imensas no presente baseadas em esperanças futuras, não lucros no presente. Aumentou a consciência de que os níveis de consumo humano do presente representavam uma imensa redistribuição de renda das gerações futuras para a nossa.

A verdade é social
Os seres humanos sempre se perguntaram o que torna algo verdadeiro. Nós imaginávamos a verdade com base no que os antigos escreveram, no que nossos ancestrais acreditavam, no que experimentos que podem ser repetidos estabeleciam.

Mas a verdade se tornou social - verdade é o que nós coletivamente pensamos que é, com as verdades mais importantes sendo aquelas a nosso respeito. A ideia é de uma informação produzida profissionalmente, neutra e paga sobre situações não relacionadas àquelas vividas pessoalmente. Blogs, YouTube, Facebook, crowd-sourcing, Wikipedia e LonelyGirl15 preencheram o vácuo.

Fatos públicos e privados trocaram de lugar: o primeiro pareceu dar à luz uma nova geração. O exibicionismo se tornou uma ética popular. "Sim, Você", disse a revista "Time" quando "você" foi eleito a pessoa do ano na metade da década. "Você controla a Era da Informação. Bem-vindo ao seu mundo."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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