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10/12/2009

Países menores ameaçam abandonar a conferência do clima

International Herald Tribune
James Kanter
Em Copenhague (Dinamarca)
É um dos paradoxos cruéis da mudança climática o fato dos países na linha de frente do aquecimento global estarem entre aqueles com menor peso político na conferência das Nações Unidas que teve início nesta semana, em Copenhague.

Conferência do Clima COP15

  • Reprodução


Mas esses países menores têm uma arma potencialmente poderosa para usar em sua batalha para estabelecer a agenda: abandonar a conferência.

Na terça-feira, apenas dois dias após o início desta cúpula de duas semanas que está sendo realizada aqui, um barulho cada vez mais alto emanava dos campos que representam os países altamente florestados, pequenos Estados insulares e as nações mais pobres da África de que uma demonstração de desafio pode ser necessária para voltar a atenção do mundo ao seus apuros.

A posição desajeitada ocupada por esses países foi amplificada pelo vazamento de textos concorrentes esboçando um possível novo acordo climático. As propostas, que estavam circulando entre as delegações e grupos de defesa na terça-feira, refletiam as diferenças acentuadas sobre como pagar e fiscalizar os componentes centrais de qualquer novo pacto.

Um esboço redigido pelo Brasil, África do Sul, Índia e China contrastava fortemente do apresentado pela Dinamarca, que grupos de campanha diziam seguir substancialmente as exigências dos Estados Unidos.

Antonio Hill, um consultor de clima para a Oxfam International, disse que a proposta da China e de outras grandes economias emergentes oferecia "uma visão mais equilibrada de um acordo" do que o texto dinamarquês. Mas ele disse que a proposta dos países emergentes também exige "um trabalho significativo para que possa atender às necessidades dos povos mais pobres do mundo".

Enquanto os compromissos dos maiores países em desenvolvimento, como a China e a Índia, eram apresentados nas últimas semanas, aumentando as esperanças de um acordo superando a divisão entre as grandes potências dos mundos desenvolvido e em desenvolvimento, um grupo ainda mais pobre e supostamente mais vulnerável de países está se tornando cada vez mais impaciente.

Se os países ricos fracassarem em destinar quantidades suficientes de dinheiro e não apresentarem promessas de realizar cortes mais profundos em suas próprias emissões, alertou Kevin Conrad, o emissário especial para mudança climática de Papua-Nova Guiné, "muitos países vão querer abandonar" a conferência.

Ao preservar suas florestas, Papua-Nova Guiné tem ajudado o restante do mundo a criar um ralo para absorver as emissões de dióxido de carbono, argumentou Conrad, e "nossa assistência precisa ser compensada".

Uma questão particularmente sensível nas negociações é o aspecto financeiro. Os países mais pobres estão exigindo bilhões de dólares em apoio à adoção de medidas onerosas que visam limitar a mudança climática ao longo da próxima década, assim como políticas de prazo mais longo voltadas para a segunda metade do século.

Um fracasso dos países mais ricos em oferecer valores adequados "criaria um contexto bastante emocional para Copenhague que, se não tratado com sensibilidade, poderá descarrilar o encontro de cúpula", alertou Achim Steiner, o chefe do Programa Ambiental das Nações Unidas, em uma entrevista no fim de semana.

As diferenças entre os países ricos e pobres são nítidas nas negociações.

O gabinete lotado e repleto de coisas de Lumumba Stanislaus Di-Aping, o diplomata sudanês que fala em prol do Grupo dos 77 países em desenvolvimento, é minúsculo em comparação ao café da União Europeia, com sua imensa tela de televisão, e ao centro americano, exibindo apresentações multimídia barulhentas e coloridas sobre as supostas realizações americanas para redução das emissões de carbono.

Para Di-Aping, a conferência do clima de Copenhague é uma oportunidade que acontece só uma vez em cada geração de promover projetos-chave que podem se transformar em centenas de bilhões de dólares em ajuda e contribuir para transformar suas economias e sistemas de energia. Além disso, o dinheiro é necessário, ele e outros dizem, para ajudar países como o seu a se adaptarem às condições mais difíceis que já estão enfrentando.

A escassez de fontes de alimentos devido à destruição de terras produtivas e áreas de pasto devido à mudança das condições climáticas, ele disse, ajuda a fomentar guerras em seu país, como em Darfur.

Ele ficou particularmente insatisfeito com o plano apoiado pelo responsável da ONU para mudança climática, Yvo de Boer, para que os países ricos doem US$ 10 bilhões por ano entre 2010 e 2012.

Ele descreveu a oferta como um "suborno" totalmente inadequado, que torna a mudança climática "menos importante do que a crise financeira", que ele argumentou que já custou aos países do G20, incluindo os Estados Unidos, cerca de US$ 1,1 trilhão em fundos emprestados para escorar instituições financeiras em dificuldades e ressuscitar o crescimento econômico.

"Dez bilhões de dólares não vão comprar caixões suficientes para os cidadãos dos países em desenvolvimento", disse Di-Aping.

Ele identificou a disputa em torno das finanças como uma das várias "questões de boicote" potenciais em Copenhague. Ele disse que os países ainda não chegaram a esse ponto e que na noite de terça-feira, em uma coletiva de imprensa, ele previu que os países do G77 provavelmente não abandonariam as negociações em Copenhague, agora que chegaram a um estágio tão avançado.

Um abandono anterior pelos países africanos, nas negociações em Barcelona, ele notou, serviu para aumentar a consciência das pessoas sobre suas queixas e ajudou a aumentar a pressão sobre os negociadores.

Mas outros disseram que questões significativas ainda precisam ser resolvidas, o que ainda pode causar uma ruptura.

A meta em torno da qual o debate climático gira é uma tentativa de manter o aumento médio das temperaturas globais em não mais do que 2º C acima dos níveis pré-industriais.

Mas Dessima M. Williams, a embaixadora de Granada na ONU, em Nova York, e presidente da Aliança dos Pequenos Estados Insulares, disse que seu grupo busca uma meta ainda menor.

"Nós temos muitos peixes aparecendo mortos, o que prejudica nossa indústria pesqueira, e nossos recifes de coral estão morrendo, e isso afeta nosso mercado de turismo", disse Williams.

Ela também notou que os furacões no início desta década, que foram particularmente ferozes, foram associados por alguns pesquisadores aos mares mais quentes, e que a economia de seu país ainda não se recuperou dos estragos.

Williams não disse se um abandono das negociações faz parte de sua estratégia, apenas que "nós temos que considerar nossas opções".

Ressaltando a tensão sobre os limiares de temperatura, um grupo de manifestantes marchou pelo centro de conferência gritando "suicídio em 2 graus!" na noite de terça-feira.

Os países menores em Copenhague também se sentem intimidados pelos organizadores da conferência, e não demorou muito para o início da briga - liderada por Conrad, de Papua-Nova Guiné.

Na segunda-feira, durante a sessão de abertura da conferência, Conrad interrompeu de forma barulhenta o que supostamente seria um detalhe processual - a leitura das regras- para dizer que queria fazer uma mudança.

Connie Hedegaard, a dinamarquesa que preside a conferência, encorajou Conrad a apresentar posteriormente a questão. Mas ele pressionou insistentemente sua campainha, forçando Hedegaard a aceitar considerar o assunto nesta semana.

No final, argumentou Conrad, sua meta era impedir os Estados Unidos e outros grandes países a forçar a conferência a chegar ao que ele teme que seria um acordo mínimo.

"É melhor aceitar a falta de um acordo ou um acordo ruim?" perguntou Conrad. "É uma decisão que precisará ser tomada."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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