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11/12/2009

A dor de cabeça de Obama no Japão

International Herald Tribune
Roger Cohen
O presidente Obama tem um problema com o Japão. Sei que não é uma questão que o mantém acordado à noite. Mas quando os laços dos EUA com seu mais importante aliado asiático são ameaçados em questões de segurança em vez de semicondutores, o mundo deve estar mudando.

É certo que o Japão está. Os japoneses votaram pela saída do tradicional Partido Democrata Liberal que dominou o país por mais de meio século, e declararam guerra à burocracia que azeitou os negócios e o prestígio daquele longo domínio. Com isso, estão adotando uma nova visão do poder que escreveu sua Constituição e subscreveu suas premissas: os EUA.
  • Jason Reed/Reuters

    Parceria O presidente dos EUA, Barack Obama, posa ao lado do primeiro-ministro japonês Yukio Hatoyama, durante uma entrevista coletiva em Tóquio, no Japão. Obama terá dificuldades com os tradicionais aliados do Oriente. O Japão confiável agora é um Japão irrequieto. Está falando em uma "parceria igual", ou seja, menos subserviente



Como resultado, há problemas. O Japão confiável agora é um Japão irrequieto. Está falando em uma "parceria igual", ou seja, menos subserviente. A aquiescência deu lugar à discussão.

Acho isso normal na medida em que o Japão passou por uma mudança política tão dramática em sua forma quanto qualquer demolição pós-Guerra Fria de um status quo dominado por um único partido defendido pelos EUA.

Ainda assim, os problemas entre as duas maiores economias do mundo estão se provando inesperadamente agudos. Os ministros aqui balançam a cabeça e resmungam "realmente ruim". Diante disso, Obama e o primeiro-ministro Yukio Hatoyama, que levou o iniciante Partido Democrático à vitória em setembro, têm muito em comum, inclusive a mudança. A inimizade não era inevitável.

Os dois líderes assumiram seus cargos levados pelo mal estar da classe média com a queda na renda e a insegurança no emprego. Os assalariados japoneses e os trabalhadores americanos tiveram uma década ruim.

Os dois líderes agem no centro, apesar de inclinações e ideais mais à esquerda. Os dois enfrentam a tarefa de ajustar as expectativas de seus países a um mundo no qual seu poder relativo está se erodindo. Verdade que Obama é um sujeito de fora, enquanto Hatoyama descende de uma dinastia política como os Kennedy (e é herdeiro da fortuna dos pneus Bridgestone). Contudo, as preocupações em comum poderiam ter superado as diferenças de origem e criação.

Em vez disso, a confiança foi dissolvida mais rapidamente do que "wasabi" em molho de soja. A gota d'água foi o futuro da base aérea Marine na ilha de Okinawa, no Sul, onde o povo é contra o barulho alto, o crime e a poluição associados à presença militar norte-americana. A questão mais profunda é mais complexa: o crescente desconforto japonês com a dependência de Washington, cujo símbolo mais visível são os 37.000 soldados americanos no país.

Hatoyama deu voz a esse desconforto. Ele prometeu em campanha maior assertividade, questionando o acordo de 2006 de transferência da base aérea de Futenma para um local prístino no norte da ilha (os ambientalistas de seu partido estão incensados), sugerindo que a base deve ser retirada da ilha ou até do Japão. Ele também falou de rever a Constituição, cujo artigo nono nega ao Japão um exército pleno.

"Encaramos a aliança dos EUA com o Japão muito seriamente, é o coração de nossa política externa, apesar de Hatoyama ter falado anteriormente de uma aliança sem bases permanentes, e isso um pouco confundir nossos amigos americanos. Agora acredito que Hatoyama não pensa que devemos expulsar as tropas americanas -nunca, de forma alguma", disse Akihisa Nagashima, vice-ministro de defesa.

Dúvidas, contudo, foram semeadas do lado americano. Elas se multiplicaram com mal entendidos. Quando o presidente esteve aqui no mês passado, Hatoyama pediu que houvesse confiança, e Obama disse que com certeza, mas nunca esclareceram em torno do que. Para Hatoyama, seria o futuro da aliança. Para Obama era a implementação do acordo de Okinawa de 2006 de US$ 26 bilhões (cerca de R$ 50 bilhões).

Essa foi uma pequena ambiguidade desastrosa. Agora todo mundo está infeliz. Um grupo de trabalho de alto escalão na base Marine, anunciado por Obama, descarrilou.

Minhas conversas aqui sugerem que Hatoyama não tomará uma decisão final por meses, talvez não antes das eleições da Câmara alta em julho, que podem liberá-lo de seus parceiros de coalizão de esquerda.

Richard Armitage, ex-vice-secretário de Estado que vem correndo pela cidade, é apenas a expressão mais visível da impaciência norte-americana compartilhada por Obama.

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"Não posso mudar a situação política aqui", disse Nagashima, referindo-se à raiva em Okinawa e à pressão da coalizão sobre Hatoyama. "Realmente quero que nossos amigos norte-americanos aceitem isso e trabalhem conosco apesar dessas dificuldades."

É um bom conselho. Tendo demorado mais de 90 dias para tomar uma decisão para o Afeganistão, Obama não pode chamar Hatoyama de indeciso. Ele assumiu as rédeas depois de mais de cinco décadas de domínio do LDP. Ele precisa de tempo -e as sugestões de um escândalo de financiamento de campanha não o estão ajudando.

As forças mais profundas por trás da vitória de Hatoyama e do imbróglio de Futenma são essas. O Japão, como a Alemanha, quer superar a tutela americana. Diferentemente da Alemanha, contudo, está em uma parte do mundo onde perdura o vestígio da Guerra Fria -a Coreia do Norte com armas nucleares- e a China em ascensão com seu exército em expansão fica logo ao lado.

Em suma, a necessidade da aliança Japão-EUA é real, mesmo que o desejo de libertação dos japoneses de suas manifestações mais humilhantes esteja crescendo. Isso me diz que todos devem respirar fundo. A impaciência norte-americana deve ser contida, assim como os excêntricos que pregam a "fraternidade mundial" no partido de Hatoyama. Seja flexível sobre Futenma, mas firme no imperativo estratégico que lida os EUA e o Japão.

Tradução: Deborah Weinberg

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