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12/12/2009

Sonhos olímpicos terminam com um acidente

International Herald Tribune
Christopher Clarey
Os atletas de downhill ganham a vida em velocidades extremas, de forma que não causa surpresa seus sonhos olímpicos também acabarem mais rapidamente do que a maioria.

Quando John Kucera, o campeão mundial do Canadá, levou um tombo na neve durante uma prova da Copa do Mundo em Lake Louise, no mês passado, ele sabia antes mesmo de seu corpo parar que sua chance, única na carreira, de competir em casa nas Olimpíadas de Inverno em Vancouver tinha acabado.

O americano T.J. Lanning teve o mesmo tipo de compreensão brutal ao deslizar para a rede de segurança em Lake Louise, após sua queda no dia anterior.

"A primeira coisa que você sente é uma dor muito grande, como tenho certeza que também aconteceu com John", disse Lanning. "Mas imediatamente você pensa: 'Sério? Um sonho ser arruinado dessa forma?' Você se dedica tanto. Você pensa toda noite nas Olimpíadas. Você pensa nela o tempo todo, porque se trata do sucesso supremo, na minha opinião, em qualquer esporte de elite. É um palco global, a única vez a cada quatro anos em que o mundo todo está assistindo ao que você faz. No restante do tempo ele não dá a mínima."

É difícil imaginar alguém assistindo às imagens do erro de Lanning, o que ele finalmente conseguiu fazer nesta semana, e não se envolver emocionalmente. Ele perdeu o controle na seção mais veloz do percurso, a mais de 120 quilômetros por hora, após o que ele chamou de uma série de ocorrências "casuais".

As consequências foram particularmente ruins, com a perna esquerda de Lanning forçada a posições que nenhuma perna esquerda é feita para suportar. "Era como se fosse uma boneca de pano", ele disse.

A primeira reação deste observador foi dar as costas à tela de TV. Eu dei as costas de novo quando Lanning atingiu a cerca, se esforçando lentamente a sentar e gritando em agonia.

Ele deslocou seu joelho esquerdo, basicamente rompendo todos os quatro ligamentos. Apesar de não estar ciente naquele momento, ele também tinha fraturado o pescoço. O helicóptero chegou logo, o levando ao hospital e para longe de sua meta olímpica. No dia seguinte, outro helicóptero veio buscar Kucera, uma das maiores esperanças do Canadá de medalha em Vancouver, antes de quebrar sua perna esquerda na prova de slalom em Lake Louise.

"Se não quisesse me machucar, eu seria um jogador de badminton ou algo assim", disse Kucera, que aparentemente não assiste muitas partidas de elite de badminton (é um esporte bem mais explosivo do que seus praticantes de quintal podem imaginar).

Com as Olimpíadas de Inverno se aproximando em fevereiro, planos olímpicos são regularmente cancelados a esta altura do ano. Os cortes nas listas de atletas são feitos; decisões difíceis são tomadas. Provas qualificatórias são perdidas; lágrimas são derramadas. Mas há algo particularmente chocante na brusquidão das oscilações de humor que os esquiadores alpinos devem suportar.

Em um momento, eles estão se inclinando em uma curva e sentindo-se, por necessidade, supremamente confiantes. No seguinte, eles estão sendo arremessados na direção de um grande problema, que potencialmente pode ameaçar suas vidas ou acabar com suas carreiras.

"A única forma de vencer é se você se lançar de cabeça desse forma", disse Lanning. "Quando você está no momento, você nunca pensa a respeito das consequências, e é por isso que são pessoas raras, obviamente. É por isso que há apenas algumas poucas pessoas no mundo capazes de fazer o que fazemos."

E os poucos que o fazem às vezes pagam um preço devastador, de Ulrike Maier, a estrela que morreu durante um prova em 1994, e Silvano Beltrametti, o atleta de downhill suíço que ficou paraplégico após uma queda em 2001, até Matthias Lanzinger, um austríaco que teve parte de sua perna esquerda amputada após uma queda no ano passado.

Também há Daniel Albrecht, o suíço que sofreu lesões cerebrais durante uma queda em um treino em Kitzbuhel no ano passado e posteriormente colocado em coma induzido por quase três semanas pelos médicos. Ele talvez esteja a poucos dias de uma volta surpreendente e próximo de correr de novo em Beaver Creek.

Lanning disse que pensou em Lanzinger e em outras baixas do esqui enquanto estava sentado na neve, sofrendo, em Lake Louise. Ele realmente deve amar o esporte para continuar se colocando em risco.

Com apenas 25 anos, ele já sofreu um grande número de lesões, mesmo para um esquiador. A lista inclui ruptura dos discos na coluna, um problema no tornozelo direito e uma ruptura de menisco. Em janeiro, como Albrecht, ele sofreu um acidente em Kitzbuhel, com sua queda ocorrendo durante o salto de Hausberg próximo da linha de chegada.

Lanning atravessou duas cercas de segurança antes de parar na última com um ligamento anterior rompido no seu joelho direito. Agora, no mesmo ano, ele sofreu algo ainda mais severo no seu outro joelho.

Ambos os seus joelhos e seu pescoço necessitaram de cirurgia na clínica Steadman-Hawkins, no Colorado. Lanning, que recebeu alta na terça-feira, ficará com o pescoço imobilizado e andando de muletas por cerca de seis semanas, antes de passar por uma segunda cirurgia no joelho.

"É sempre muito mais fácil lidar quando é apenas uma coisa", ele disse. "Eu já sofri lesões de joelho, mas nunca tão graves quanto esta, mas o lance do pescoço, não poder olhar para baixo, não poder me sentar facilmente ou ficar confortável na cama, deitado de lado. Isso certamente é difícil, e certamente ficará ainda mais com o passar do tempo."

Kucera, também com 25 anos e um histórico mais curto de lesões, soava mais otimista em meio à situação difícil. "Quando cai, eu estava deslizando pela encosta e ciente de que minha perna tinha quebrado. Eu fiquei em paz com a situação ali mesmo", disse Kucera em uma coletiva por telefone na semana passada.

"Esquiar é um esporte divertido. É um esporte perigoso e ferimentos são uma realidade. Para mim, quando percebi que ficaria de fora da temporada, eu deixei de pensar a respeito. Eu aguardo por uma boa recuperação, voltar a trabalhar e em fazer meu retorno."

Há muitos outros na mesma situação, incluindo a austríaca Nicole Hosp e o francês Jean-Baptiste Grange, que não corre os grandes riscos de competir em eventos de velocidade. Grange, campeão da Copa do Mundo de slalom no ano passado, ouviu um estalo atrás de seu joelho direito durante a primeira passagem no slalom gigante em Beaver Creek, Colorado, no domingo passado.

Diferente de Lanning e Kucera, ele ainda podia caminhar, mas sabia que algo estava muito errado. Ele abandonou a segunda tentativa e posteriormente anunciou que a temporada estava encerrada para ele, se submetendo a uma cirurgia para reparar o ligamento rompido, apesar de continuar esquiando com o problema ser uma opção.

"Eu tenho 25 e as Olimpíadas de 2014 e 2018 são possíveis, então prefiro não correr o risco de tentar competir em nas Olimpíadas de Vancouver com uma perna só", disse Grange ao jornal francês "L'Equipe". "Seria possível, mas é algo para pessoas em final de carreira, o que não é meu caso. Havia muito mais riscos em esquiar assim de novo, de forçar ainda mais e arrebentar tudo."

Lanning não teve essas opções. Sua temporada acabou, mas ele irá às Olimpíadas de Inverno de qualquer jeito. "Eu gostaria de ir. Raios, meus pais compraram ingressos e tudo mais, então se eles não quiserem usá-los, eu vou."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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