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12/12/2009

De ícone a estilo de vida, o marketing de Bruce Lee

International Herald Tribune
Mark McDonald
Em Hong Kong (China)
Albert Einstein, morto em 1955, está ganhando US$ 10 milhões por ano. John Lennon, US$ 15 milhões. Elvis, US$ 55 milhões. Marilyn Monroe, US$ 8 milhões, mais ou menos o mesmo que Andy Warhol.

Artistas, celebridades e cientistas enrugados mortos podem gerar rendas substanciais para as fundações criadas pelos seus herdeiros por meio de acordos de vendas e comércio. Marilyn vende anéis de cortinas, Warhol, sandálias de dedo, Elvis, doces - as possibilidade são ilimitadas e grosseiras.

Não é isso que Shannon Lee deseja para o seu pai, Bruce Lee, o artista marcial indômito que morreu em 1973, aos 32 anos, apenas uma semana antes do lançamento do seu primeiro filme de Hollywood, "Enter the Dragon" ("Operação Dragão").

Shannon Lee, 40, uma ex-atriz que mora em Los Angeles, tinha apenas quatro anos de idade quando o pai morreu. Elas diz que as suas memórias dele são fugazes.

"Eu gostaria de ter mais memórias", diz ela recentemente, enquanto saboreia chá verde em um café de Hong Kong. "Tenho visões e imagens. Imagens breves".

Shannon, que se autointitula "a guia" para o "legado" do seu pai, recentemente deu início a um projeto para reconstruir a imagem dele no mercado global. Ela chama isso de "relançamento da marca, como ela era".

Shannon Lee diz que essa marca geral atualmente US$ 2 milhões por ano, e ela espera elevar essa cifra para US$ 5 milhões, "uma base decente".

Porém, como só existem um poucos filmes de Bruce Lee, não há muito o que relançar. Nenhum dos filmes deles é controlado pela fundação, e todos foram copiados e pirateados de forma tão ampla que até mesmo os DVDs oficiais são vendidos por apenas US$ 2 em Hong Kong.

Bruce Lee nasceu em São Francisco, mas cresceu na condição de um garoto das ruas de Hong Kong acostumado a uma vida dura. Ele treinou artes maciais obsessivamente e aperfeiçoou o seu próprio estilo de Kung Fu. A seguir, três filmes produzidos em Hong Kong fizeram dele um superastro na Ásia.

O grande sucesso de "Enter the Dragon", aliado à morte do seu astro, tornou Bruce Lee famoso no mundo inteiro. Nos Estados Unidos, o filme foi incluído no Registro Cinematográfico Nacional da Biblioteca do Congresso e classificado de um clássico norte-americano. Bruce Lee recebeu uma estrela na Hollywood Walk of Fame (Calçada da Fama) e foi considerado pela revista "Time" uma das cem pessoas mais influentes do século 20.

A sua celebridade aumentou devido aos boatos e às teorias conspiratórias sobre a sua morte. Alguns dizem que ele morreu nos braços da sua amante após uma overdose de drogas. Outros sugerem que ele foi vítima de uma ação mafiosa assassina ou que sucumbiu a uma maldição cármica. O inquérito oficial determinou que a morte dele foi provocada por inchação cerebral após uma reação adversa a um analgésico comum chamado Equagesic.

Quase quatro décadas depois, Bruce Lee continua sendo nitidamente um ícone da cultura popular global. Rebecca Yau, a gerente de marketing da firma Fortune Star, que é proprietária dos primeiros filmes de Bruce Lee feitos em Hong Kong, diz que todos os filmes dele ainda vendem bem. Ela afirma que um conjunto de discos Blu-ray embalados em uma caixa será lançado em breve.

Porém, no decorrer dos anos a Bruce Lee Enterprises gerou, comparativamente, rendimentos minúsculos sob a direção da viúva de Bruce Lee, Linda Lee Caldwell. Houve pouca fiscalização do uso da imagem e do nome de Bruce Lee. A empresa sequer era dona do nome de domínio na Internet www.brucelee.com.

A última casa dele em Hong Kong foi transformada em um motel de alta rotatividade. Nos últimos meses, o bilionário que era dono da casa a doou à cidade, e existem planos para criar um pequeno museu nela.

Shannon Lee esteve em Hong Kong no mês passado para examinar os trabalhos submetidos em um concurso de designs para o museu, embora a fundação Lee não esteja vinculada ao projeto.

"O nosso objetivo é construir o Museu de Ação Bruce Lee nos Estados Unidos", diz ela. "Será provavelmente em Seattle, onde Bruce Lee morreu e está sepultado".

Shannon Lee passou a envolver-se mais com a preservação do legado do pai há dez anos, e a sua mãe passou para ela o controle da Bruce Lee Enterprises. O principal objetivo dela é agregar a filosofia, a forma física, a ambição e a ética de trabalho de Bruce Lee em um conceito comercializável.

"Nós vemos Bruce Lee como um estilo de vida", explica Shannon Lee.

Ela foi aos tribunais para retirar o nome de domínio na Internet de um empresário que o havia comprado anos atrás, e que utilizava o portal para negócios que não tinham nenhum vínculo com Bruce Lee.

O novo website, inaugurado em outubro último, inclui alguns dos escritos de Bruce Lee, uma biografia autorizada, um blog e uma loja virtual com a tradicional coletânea de camisetas, pôsteres, livros, calendários, ímãs de geladeira, bugigangas e papeis de parede.

Shannon Lee também exigiu os direitos de licenciamento do seu pai do Universal Studios, que durante anos foi o proprietário.

"Eles concediam licenças esporadicamente, mas pareciam passivos", conta Shannon Lee. "Nunca houve uma ação enérgica e ativa por parte deles".

Em julho de 2008, a fundação firmou um contrato com uma companhia chamada GreenLight para negociar os "direitos de personalidade" de Bruce Lee - o seu nome, imagem e assinatura. A companhia também concede os direitos relativos a celebridades como Einstein, Steve McQueen e Johnny Cash.

Não está bem claro, no entanto, até que ponto o Bruce Lee CelebriDuck - um patinho de borracha "de coleção", que custa US$ 11,99 - ou os abajures de Bruce Lee, no valor de US$ 49, ajudaram a manchar o legado de um orgulhoso e destemido artista marcial.

Uma biografia televisiva de 50 episódios foi recentemente exibida na China, tendo sido licenciada para a rede estatal CCTV. E foi fechado um contrato nos Estados Unidos para um documentário de duas horas no History Channel chamado "How Bruce Lee Changed the World" ("Como Bruce Lee Mudou o Mundo").

A equipe de Shannon Lee também criou uma companhia de produção, a LeeWay Media, para criar um novo "conteúdo". Um desenho animado está em produção, além de um videogame, e Shannon diz que um filme gerado por computador estrelando o seu pai é uma dos seus maiores desejos.

Chul Shin, um produtor sul-coreano, tentou firmar um contrato com a fundação para produzir esse filme.

"Há projetos que você faz por dinheiro, e outros por paixão", diz Michael Sheehy, um ex-agenciador de talentos de Los Angeles que é assessor de Shin. "Para nós este é um projeto de paixão. Seria uma história extremamente tocante que honra o legado de Bruce Lee".

Sheehy diz que o contrato não foi firmado porque a fundação desejava uma parcela excessiva do controle criativo. Ele classificou as exigências contratuais de "impossíveis", e disse que o estúdio não as aceitaria.

Shannon Lee reconheceu a seriedade da abordagem de Shin, mas disse ter ficado insatisfeita com os roteiros que leu. Além disso, os testes dos efeitos especiais pareceram ser rudimentares.

"Temos que ter cuidado ou acabaremos tendo nas nossas mãos um filme horrível do qual todos rirão", explica ela. "A tecnologia não estava suficientemente avançada. Só agora ela está chegando perto".

Em uma calçada à beira-mar em Hong Kong, que não fica longe da antiga casa de Bruce Lee, há uma pequena estátua do astro em posição de luta. Em uma recente tarde de domingo, centenas de turistas, a maioria da China continental, posaram para fotos, alguns brincalhões, outros solenes, a maioria deles nitidamente apaixonada pelo ídolo.

"Eu não interesse em Bruce Lee e nem na indústria de artes marciais, e acho tudo isso meio ridículo", disse Tom Caughlin, um turista australiano. "Mas é fascinante ver pessoas se reunirem em torno da estátua. Todas essa gente. É fantástico".

Riva Hiranand contribuiu para esta matéria.

Tradução: UOL

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