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16/12/2009

Tentando construir a paz por meio dos esportes

International Herald Tribune
Rob Hughes
Logo serão 95 anos desde a trégua do dia de Natal, quando tropas britânicas e alemãs deixaram suas trincheiras na frente ocidental perto de Ypres, na Bélgica, para um jogo improvisado de futebol na Terra de Ninguém. Eles trocaram presentes como uísque, geleia, cigarros e chocolates. Eles enterraram seus mortos. Eles chutaram uma bola improvisada de feno amarrado. E depois a mortandade recomeçou.

Os esportes jamais farão uma contribuição mais duradoura à paz mundial?

A noção de que podem dar essa contribuição -porque mesmo com todas as divisões de raças, religiões e credos usamos as regras do jogo- uniu 440 delegados de 85 países e 47 governos no terceiro fórum internacional para Paz e Esportes em Monte Carlo, no qual eu discursei, no mês passado.

O fórum, fundado por Joel Bouzou, penta-atleta olímpico francês, é uma união de mentes, um poço de boas intenções. Une afegãos e paquistaneses, israelenses e palestinos, astros dos esportes e pessoas travando uma guerra contra a pobreza e doenças na África e na América Latina.

A organização de Bouzou tem projetos no Burundi, Costa do Marfim, Timor Leste e outros lugares onde órfãos dos dois lados de recentes guerras jogam futebol e outros esportes. Alguns não têm os requisitos básicos para sonharem em sair da pobreza por meio do esporte porque perderam membros em explosões. Mesmo assim, jogam e, quando competem, param de desconfiar do outro.

Então o lema "esporte, não a guerra" não é apenas uma ideologia de sonhador.

Quando se assiste, como eu, a alegria do futebol jogado em campos de trânsito em Serra Leone logo após a guerra civil, duas coisas são chocantemente aparentes: quando jogam, e jogam duro no mesmo campo de terra, os jogadores veem o outro lado daqueles que foram doutrinados a odiar. A segunda coisa impressionante é quantos deles usam camisetas dos astros favoritos ou gritam seus nomes nas partidas.

Algumas vezes, esses astros se importam e fazem algo com sua fama mundial. Quatro dias antes do Natal, serão vendidos ingressos para um jogo no qual Zinedine Zidane e Ronaldo representarão o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, contra um time de Benfica no mês que vem.

O jogo, no Estádio da Luz em Lisboa no dia 25 de janeiro, vai marcar o sétimo ano consecutivo em que Zidane e Ronaldo, dois vencedores de Copa do Mundo, participam da "Partida contra a pobreza". Zidane está aposentado e Ronaldo ainda tem uma esperança remota do Brasil chamá-lo para integrar a seleção na quarta Copa do Mundo.

A renda da partida anual, que uma vez se aproximou de US$ 1 milhão (em torno de R$ 1,8 milhão), é destinada a reduzir a pobreza e combater o HIV/Aids. Ronaldo, do Brasil, hoje com 33 anos e pai de uma criança nascida no dia de Natal, ainda está marcando gols para o Corinthians de São Paulo. E alguns ainda o veem como um menino no corpo de homem, resgatado das ruas pelo esporte.

Se as partidas que ele e Zidane organizam e jogam uma vez por ano parecem distantes dos perigos da guerra, há muitas pessoas notáveis que se aproximam das zonas de risco.

Anders Levinsen foi jogador profissional do futebol dinamarquês e leva seu esporte, por meio da organização não governamental que ele chama de "Cross Cultures", a áreas de recente conflito.

Ele lidera um grupo de voluntários com 10.000 treinadores e 40.000 coordenadores em áreas de conflito onde o ódio permanece após as bombas e tiros. Seus técnicos avançam por onde as tropas de paz da ONU são recebidas com suspeita.

"Eles têm medo dos capacetes azuis. Mas o que os esportes conseguem fazer é ativar as crianças. Algo acontece quando jogamos futebol juntos. Leva tempo no Líbano, Iraque, Costa do Marfim ou Macedônia, mas, cedo ou tarde, você encontra um ambiente seguro -sem bandeiras, nem mesmo a insígnia dos patrocinadores. Você precisa que as crianças saibam que você não está com os militares, mas ao mesmo tempo necessita da permissão dos militares. Então o jogo rompe barreiras, que em alguns casos são mais do que diferenças étnicas", disse Levinsen.

Sarah Fane não foi anunciada no fórum, mas sua história não é menos notável. Ela é médica, mãe de quatro filhos em uma vila inglesa tranquila. Ela fez uma visita de trabalho ao Afeganistão e não conseguiu dar as costas às mortes por doenças curáveis e à falta de escolaridade.

Ela começou sua própria obra de caridade, "Afghan Connection" para construir escolas em meios rurais, as quais financia parcialmente por meio do críquete.

O jogo agrada aos afegãos e a médica persuadiu o clube de críquete de Marylebone, que costumava dirigir o críquete inglês, a patrocinar o treinamento para meninos que poderiam entrar para a seleção do Afeganistão.

O exemplo da médica indica que o Reino Unido não apenas envia soldados para morrer no Afeganistão. E não é a única iniciativa baseada no esporte.

Quando você se pergunta se há auto-ajuda entre as pessoas em lugares devastados, Kuki Gallmann mostra que há. Ela é autora italiana e mora nas montanhas do Quênia desde 1972. Quando a inquietação entre as tribos do vale Rift se tornou matança étnica em 2008, Galmmann agiu. Ela recrutou pessoas do lugar para abrirem um espaço. Depois de arrumarem tudo, tiveram que recomeçar, pois elefantes pisotearam o terreno.

Finalmente, o sonho dos Jogos das Terras Altas em Laikipia reuniu 1.200 atletas em uma variedade de esportes. "Quando as pessoas jogam, elas olham nos olhos das outras, veem que são iguais", disse ela em Monte Carlo. "O esporte funciona".

É uma longa distância entre o vale Rift e Monte Carlo, paraíso fiscal dos ultra-ricos. Mas Bouzou e seu patrocinador príncipe Albert II, outro Olímpico, acreditam que a paz é sustentável enquanto a vontade de jogar for cuidadosamente mantida.

Não necessariamente os tiroteios têm que recomeçar após o Natal.

Tradução: Deborah Weinberg

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