UOL Notícias Internacional
 

18/12/2009

A opção da inércia para lidar com o Irã

International Herald Tribune
Roger Cohen
Eu espero que os autores de políticas para o Irã em Washington e na Europa estejam lendo histórias a respeito daquele ano que mudou o mundo, 1989. Eu espero que sim, porque chegou a hora de não fazer nada a respeito do Irã. Como Timothy Garton Ash escreveu a respeito do ano em que a Europa foi libertada, "nos nove meses decisivos, desde o início da mesa redonda de negociações na Polônia, em fevereiro, até a queda do Muro em novembro, a contribuição dos Estados Unidos foi principalmente aquilo que não fizeram".

Essa inação foi refletida na cautela e cálculos do primeiro presidente Bush. Seu efeito foi privar os linhas-duras em Moscou de um bode expiatório americano para a agitação no Leste Europeu, permitindo que os eventos revolucionários seguissem seu curso.
  • Frank Franklin II/AP

    Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, visita a planta nuclerar de Natanz, onde 4.500 centrífugas produzem 80 quilos de urânio enriquecido por mês


A principal diferença entre Moscou, 1989, e Teerã, 2009, é que a República Islâmica ainda está pronta a abrir fogo. As principais semelhanças são óbvias: ideologias cansadas; regimes e sociedades marchando em direções opostas; e uma disseminação da dissensão dentro do aparato de poder e entre a oposição.

Sim, a República Islâmica ainda não chegou a uma renúncia gorbachoviana da força. Ela ainda não está aberta a ceder, apesar dos pedidos por moderação de clérigos proeminentes e agora, ao que parece, de alguns altos oficiais do exército. Ela ainda está, nas palavras do líder da oposição, Mir Hossein Mousavi, enviando a Guarda Revolucionária e a milícia Basiji à caça de "sombras na rua".

Eu não sei por quanto tempo essa situação pode perdurar. Qualquer um que disser que sabe qual será o futuro iraniano está mentindo. Mas parece claro que o "relógio político" agora superou o "relógio nuclear".

O Irã vem trabalhando em um programa nuclear há cerca de quatro décadas. O Paquistão foi do zero a uma bomba em aproximadamente um quarto desse tempo. Colocando de lado o objetivo ainda sujeito a debate deste empreendimento iraniano (ambiguidade nuclear ou um artefato nuclear de fato?), não será no meio da atual turbulência política que Teerã obterá um avanço significativo. A inércia é sempre forte no sistema com muitas cabeças do Irã. No momento, ela está mais forte do que nunca - daí a confusão risível, tempestuosa, sobre um possível acordo para exportação do urânio pouco enriquecido do Irã.

Tudo isso me diz - minto, grita: não faça nada. É o estender de mão do presidente Barack Obama que abalou um regime que considerava a retórica americana de eixo do mal fácil de explorar. Após um pouco de dificuldade, Obama também encontrou o ponto certo, ao combinar a distensão com um apoio tranquilo aos direitos universais. Note o artigo feminino neste trecho de seu discurso de aceitação do Nobel da Paz: "Em algum lugar hoje, neste mundo, uma jovem manifestante aguarda pela brutalidade de seu regime, mas tem a coragem de continuar marchando". Eu vi essas mulheres ensanguentadas marchando em Teerã em junho e nunca as esquecerei.

A causa delas seria auxiliada com a suspensão da marcha para sanções "debilitantes" contra o Irã. A recente aprovação pela Câmara da Lei de Sanções ao Petróleo Refinado para o Irã, cujas sanções são voltadas às empresas estrangeiras que vendem petróleo refinado ao Irã, é nefasta. O deputado Howard Berman, que apresentou o projeto de lei, está terrivelmente errado quando diz que ela empoderará a política para o Irã do governo Obama. Ela na verdade minará essa política.

Assim como sanções por parte do chamado "P5+1" - Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha. Quando perguntado onde está o "porrete" no Irã, minha resposta é que o porrete é a sociedade iraniana -a efervescente pressão reformista que vem dos jovens com alta escolaridade e das mulheres corajosas do Irã.

Seria um tragédia Obama enfraquecê-los. As sanções agora fariam exatamente isso. Ninguém as apreciará mais do que um regime que poderia novamente apontar para a "potência arrogante" que tenta colocar o orgulhoso Irã de joelhos. A Guarda Revolucionária, que controla os canais sofisticados para contornar as sanções existentes, se beneficiaria. A China e a Rússia pagariam com um pouco mais do que falsa retórica.

Como escreveu Elizabeth Shakman Hurd, da Universidade do Noroeste, "os Estados Unidos estão empoderando os dissidentes com seu silêncio".

Sanções representam um pensamento binário cansado a respeito do Irã, o velho paradigma do Ocidente contra o barbarismo que predomina desde que o Islã político triunfou na revolução de 1979, como uma reação religiosa à modernidade imposta pelo Ocidente. A realidade iraniana, como venho argumentando desde o início deste ano, é muito mais complexa. Um dos principais slogans dos manifestantes no Irã é "Deus é Grande" - dificilmente um chamado secular às armas. Esses reformistas estão em sua maioria procurando por um meio termo combinando fé e democracia.

O Ocidente não deve responder com a marreta das sanções, cuja mensagem é "do nosso jeito ou nada". Ele deve é entender finalmente a política sutil do Irã ao tomar emprestado uma lição iraniana: a inércia.

Quando o Muro de Berlim caiu há duas décadas, Francis Fukuyama previu famosamente "a universalização da democracia liberal Ocidental como a forma final de governo humano". No Irã agora, muitas das forças de 1989 estão presentes, mas a busca dos reformistas não é por algo ocidental. É mais por uma ideia de 1979, uma política pluralista local, não-secular e não-teocrática.

Obama, ele mesmo de identidade híbrida, deve mostrar seu entendimento dessa ânsia histórica por não fazer nada. Isso permitirá que o relógio político iraniano corra ainda mais rápido.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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