UOL Notícias Internacional
 

22/12/2009

O declínio do Ocidente

International Herald Tribune
Therese Delpech
O "declínio do Ocidente" é um tema explorado por aqueles que querem expressar ressentimento, desejo de vingança ou franca hostilidade. Este é o caso da Rússia, apesar da arte e da cultura russas serem consideradas parte integral do patrimônio Ocidental; da China, que está esperando seu momento histórico com impaciência mal disfarçada; e do Irã, o auto-proclamado bastião de uma missão para disseminar o islamismo pelo mundo. Independentemente do mérito do fraco argumento, os que propagam este tema merecem ao menos uma concessão: é construído sobre uma aversão crescente ao mundo Ocidental continuar tendo um importante papel na história.

Mas esses críticos ignoram algo igualmente importante: o declínio é um dos maiores temas da cultura ocidental, desde os "O Trabalho e os Dias" de Hesíodo, no alvorecer da civilização grega, até o mais conhecido, apesar de medíocre trabalho de Oswald Spengler do início do século 20 ("O Declínio do Ocidente"). O tema do declínio atravessa nossa história como um refrão incansável, que não é baseado em medo de mudança, pois a mudança de fato foi consideravelmente acelerada pelo Ocidente, mas no medo da queda. Isso não se baseia simplesmente em nossa herança judaico-cristã: antes da queda dos anjos maus do cristianismo, já havia a queda dos titãs na mitologia grega. Nos dois casos, os herdeiros dessas histórias carregam a memória de perda irremediável.

As variações filosóficas ou literárias sobre este tema são inumeráveis. Em "Timeu" de Platão, a degeneração progressiva da criação só tem fim pela intervenção divina. Em "Paraíso Perdido", John Milton retrata a batalha dos anjos em termos tão aterrorizantes que Bernard Brodie usou-os para a introdução de um de seus livros sobre a bomba atômica. Doze anos antes de Spengler, Andrei Bely usou uma visão muito mais forte do que o autor germânico -o fogo no início do século 20 que está começando a consumir o mundo todo: "Os eventos aqui estão chegando ao ponto de fervura. Toda a Rússia está pegando fogo. O incêndio está se espalhando para toda parte. A angústia da alma e a tristeza do indivíduo se fundiram com o luto nacional e produziram um horror escarlate gigantesco."

Imagens de um futuro radiante para a humanidade são apenas epifenômenos na cultura ocidental. Na maior parte, esse futuro, proclamado por revolucionários, termina catastroficamente, como testemunhou amplamente o século passado.

Autores ocidentais, mesmo os frequentemente citados por suas frases entusiasmadas sobre a história, carregam uma dose sólida de pessimismo. Immanuel Kant, por exemplo, cujo projeto de paz perpétua nós tão prontamente elogiamos, declarou que nada reto pode ser feito a partir da madeira contorcida da humanidade.

Essa é uma conclusão que os europeus nunca conseguiram transmitir aos americanos, cujo Jardim do Éden parece estar sem um ator crucial: a cobra. Essa ausência é especialmente evidente no governo Obama, que estende seus braços para todos os laos, sem medo de tempestades ou correntes perigosas de ventos de inverno. O presidente americano deveria reler Herman Melville, um dos maiores autores que os EUA produziram.

É certo que há um risco óbvio no tema do declínio: o desânimo diante de todo empreendimento humano, ou pior, uma forma de complacência com a queda. A pessoa pode se comiserar no declínio -tanto público quanto privado- e até encontrar certo conforto ali: se as coisas são assim, o que podemos fazer?

A força do tema, contudo, continua na introspecção e na reflexão, nos permitindo medir erros e julgar a apatia ética para a qual o mundo escorregou. As nações que se recusam a explorar seu passado nunca alcançarão a maturidade histórica.

Talvez aí os países ocidentais tenham uma verdadeira superioridade sobre a China e a Rússia, depois de décadas tentando compreender o abismo no qual mergulharam. Até hoje, os europeus estão conscientes de estarem "no meio das ruínas de uma grande tempestade", como escreveu Balzac sobre os sobreviventes da Revolução Francesa.

Apenas a reflexão e a memória nos darão o poder de ver o potencial de novas catástrofes em meio à violência e à desorientação de nossos tempos e constituem o primeiro passo para evitá-las. Se os massacres anteriores são tabu, como podemos condenar os de hoje? Se os elos entre Pequim e Pol Pot são censurados nos julgamentos do Khmer Vermelho; se não há um esforço sério para avaliar o número de vítimas da Revolução Cultural na China; se os arquivos do Gulag ou da guerra na Tchetchênia ainda são protegidos e algumas vezes escondidos pelas autoridades russas, o que podemos esperar da atitude desses países em relação aos futuros massacres?

Com certeza, a introspecção, apesar de necessária, não é suficiente. O mundo Ocidental ainda tem problemas espinhosos para confrontar: o desaparecimento progressivo de grandes questões que incendiavam nossas mentes resultou em uma vida intelectual estreita -assim como a possibilidade de alcançar novos horizontes aumentou consideravelmente graças aos meios modernos de comunicação. A vingança do sagrado com a volta estrondosa da religião em suas formas mais violentas e destrutivas, apontando para um vazio espiritual em nossas sociedades é outro grande desafio que até agora não encontra outra resposta além de armas.

O trabalho mal está começando nesses temas no Ocidente. Mas a dádiva da memória dos povos, assim como dos indivíduos, é o início de qualquer cura psicológica. Daí a importância do tema do declínio. Este não tem como objetivo perpetuar uma cultura em seu anoitecer e muito menos alardear a chegada do "século asiático" sem grande reflexão. O que isso significa para uma região geográfica tão ampla? E quem pode prever o que de bom ou ruim essa chegada trará?

O futuro pareceria menos profundamente desestruturado se tirássemos conclusões de uma simples verdade: os que têm os melhores instrumentos para fazer a história também são os que têm a maior consciência de seu caráter trágico. Os grandes desastres do século 20 são parte de nossa herança. Somos criaturas do declínio e do abismo, sedentas por renascimento e salvação. Muitas nações se reconheceriam neste espelho.

(Therese Delpech é diretora de estudos estratégicos da Comissão de Energia Atômica da França e pesquisadora do Centro de Estudos Internacionais e Pesquisa. Este ensaio foi traduzido do francês pelo "International Herald Tribune".)

Tradução: Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    1,30
    3,231
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h20

    -1,28
    75.413,13
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host