UOL Notícias Internacional
 

29/12/2009

O maior temor de Teerã

International Herald Tribune
Selig S. Harrison
A maior ameaça aos aiatolás e generais que controlam o Irã não vem do movimento de oposição democrático, que luta para reformar a República Islâmica, e sim de grupos separatistas cada vez mais agressivos das regiões de minorias étnicas árabes, curdas, balúchis e azeris que coletivamente compõem 44% da população iraniana dominada pelos persas.

Unidos, o movimento de reforma democrática e os insurgentes étnicos poderiam minar seriamente a República. Contudo, o movimento de reforma, como a maior parte do establishment clerical, militar e empresarial é dominado por uma elite persa arraigada que até agora se recusou a atender às demandas das minorias.

O que as minorias querem é um aumento de gastos para o desenvolvimento econômico nas regiões não persas; maior partilha dos lucros do petróleo e outros recursos naturais em suas áreas; uso livre de idiomas diferentes do persa na educação e na política e o fim da perseguição política. Alguns líderes das minorias acreditam que esses objetivos podem ser alcançados com uma autonomia regional sob a Constituição existente, mas a maior parte quer reconstituir o Irã como uma confederação mais flexível ou declarar independência.

Os EUA devem dar ajuda em dinheiro e armas para os insurgentes étnicos?

Na Casa Branca do governo Bush, travou-se um debate entre os defensores da "mudança de regime" em Teerã, que favoreciam uma ação secreta de larga escala para quebrar o país, e o Departamento de Estado que argumentava que todo apoio aberto às minorias complicaria as negociações para um acordo nuclear com os persas dominantes.

O resultado foi um meio termo, uma ação dissimulada limitada e executada por terceiros: no caso dos balúchis, as medidas foram tomadas por meio do Diretório de Inteligência Interserviços do Paquistão, ou ISI; no caso dos curdos, pela CIA em cooperação com o Mossad de Israel.

Meu conhecimento do papel da ISI se baseia em fontes paquistanesas de primeira mão, incluindo líderes balúchis. As evidências do papel da CIA em fornecer ajuda com armas e treinamento ao Pejak, principal grupo rebelde curdo no Irã, foram divulgadas por três jornalistas americanos: Jon Lee Anderson e Seymour Hersh, do "New Yorker", e Borzou Daragahi do "Los Angeles Times" que entrevistaram diversos líderes do grupo.

O líder-supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, falando na cidade curda de Bijar no dia 12 de maio, acusou o governo Obama de não reverter a política de Bush. "Infelizmente, dinheiro, armas e organização estão sendo fornecidos por americanos diretamente pelas fronteiras ocidentais para combater o sistema da República Islâmica", declarou. "Os americanos estão envolvidos em uma conspiração."

O Mossad tem contratos antigos com grupos curdos no Irã e no Iraque, estabelecidos quando os EUA e Israel queriam desestabilizar as áreas curdas do Iraque de Saddam Hussein. Agora, porém, os EUA querem um Iraque unido no qual curdos, xiitas e sunitas cooperem. O Irã também quer um Iraque unido porque teme que a cooperação entre seus próprios curdos e os iraquianos e turcos criem um Curdistão independente. Assim, a ajuda ao Pejak prejudicaria o futuro de uma cooperação Irã-EUA em Bagdá além de complicar as negociações nucleares.

Tanto os balúchis quanto os curdos são muçulmanos sunitas. Eles estão combatendo a cruel repressão religiosa xiita além da discriminação cultural e econômica. Em contraste, é xiita a maior das minorias, a dos azeris que falam turco, e o próprio aiatolá Khamenei é azeri.

Sua seleção como líder supremo foi em parte um gesto aos azeris para cimentar sua lealdade ao Irã e impedir uma campanha secreta da mesma etnia no Azerbaijão para anexá-los. Os azeris estão em posição econômica melhor do que as outras minorias, mas acham que os persas têm preconceitos contra eles. Em 2006, conflitos prolongados emergiram por dias após um jornal em Teerã publicar uma charge com uma barata que falava azeri.

A ameaça separatista de maior potencial no Irã são os árabes xiitas da província sudoeste do Khuzistão, pois produz 80% da renda de petróleo do país. Até agora, as facções separatistas árabes não criaram uma milícia, mas atacam periodicamente as instalações de segurança do governo, explodem usinas e disseminam propaganda em árabe em canais de TV por satélite de localidades diferentes fora do Irã.

Os confrontos militares mais sérios entre a Guarda Revolucionária e grupos separatistas ocorreram na fronteira curda, onde o Irã bombardeou repetidamente esconderijos do grupo Pejak em setembro de 2007. Também no Baluchistão, os guardas sofrem fortes baixas em repetidos confrontos com milícias do movimento Jundullah, que opera a partir de campos do outro lado da fronteira, nas áreas balúchis do Paquistão e do Afeganistão.

Comparados aos protestos em massa nas ruas de Teerã e Qum, os tumultos não coordenados que foram gerados por insurgentes étnicos podem parecer algo lateral. Mas se os insurgentes étnicos se unirem e se a oposição democrática forjar uma frente unida das minorias, as possibilidades de reformarem ou derrubarem a República Islâmica, agora fracas, seriam fortalecidas.

Por enquanto, o governo Obama deve avançar com o máximo de cuidado ao lidar com esta questão delicada, sabendo que o apoio ao separatismo e o engajamento com o atual regime são completamente incompatíveis.

(Selig S. Harrison é diretor do programa para Ásia do Centro de Política Internacional e autor de "In Afghanistan's Shadow", ou "Na Sombra do Afeganistão").

Tradução: Deborah Weinberg

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