UOL Notícias Internacional
 

31/12/2009

Indivíduos de classe alta são atraídos com frequência para o terrorismo

International Herald Tribune
Richard Bernstein
Em Nova York (EUA)
O fato de Umar Farouk Abdulmutallab, destinado a passar à História como o fracassado terrorista da cueca, ser oriundo de uma família proeminente e próspera da Nigéria faz com que se deseje comparar o caso dele com o do major Nidal Malik Hasan, o psiquiatra do Exército dos Estados Unidos acusado de matar 13 companheiros de farda em Fort Hood, no Texas, em novembro último.

Os dois homens vieram de famílias de classe média ou alta, frequentaram boas escolas e pareciam ter coisas bem melhores a fazer do que destruir várias vidas, além das próprias, em ações terroristas.

Ambos parecem ilustrar a observação feita por historiadores em relação a extremistas políticos violentos, desde Robespierre a Pol Pot: é mais provável que eles sejam intelectuais com um ressentimento, uma causa e uma sede de poder do que indivíduos desesperados e pobres em nome dos quais eles geralmente alegam agir.

A forma como os terroristas muçulmanos recentes encarnam essa ideia é notável. Abdulmutallab, acusado de tentar explodir uma bomba em um voo de Amsterdã a Detroit no Dia de Natal, não veio das favelas vastas e paupérrimas de Lagos, mas sim do topo da pirâmide da sociedade nigeriana. Ele frequentou a elitista Escola Britânica de Lomé, em Togo, e o University College de Londres, onde formou-se com menção honrosa em 2008.

Depois disso, aparentemente por causa de uma falsa declaração na sua inscrição para dar continuidade aos seus estudos em Londres, as autoridades britânicas não renovaram o seu visto. Ele foi aceito para um programa de mestrado em Dubai, mas disse à família que desejava ir para o Iêmen para estudar a shariah, ou lei islâmica.

Existe a crença de que indivíduos recrutados para ações suicidas são pobres e destituídos de perspectivas. Muitos de fato são, mas a maioria dos radicais muçulmanos que atacaram os Estados Unidos ou que tentaram atacar o país na última década é oriunda, da mesma forma que Abdulmutallab, da elite dos seus países. O próprio Osama Bin Laden é membro de uma família incrivelmente rica da Arábia Saudita; o seu principal assessor, Ayman al-Zawahri, era - assim como o revolucionário latino-americano Che Guevara - um médico proveniente de uma família famosa.

Embora não fizessem parte da mesma elite social que Bin Laden ou Zawahiri, os líderes operacionais dos ataques de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos eram todos de famílias de classe média em ascensão. Mohammed Atta, o principal sequestrador, estudou arquitetura e engenharia no Cairo. O pai dele era um advogado de sucesso com bons contatos que lhe permitiram obter uma vaga para o filho na Universidade Técnica de Hamburgo, onde ao que parece ele aderiu como voluntário à causa jihadista.

Um outro líder operacional dos ataques de 2001, Ziad Jarrah, veio do Líbano, onde o seu pai era uma autoridade graduada do governo no setor de previdência social e a mãe uma professora. A família dele não o mandou para uma escola muçulmana, e sim para um colégio particular e cristão em Beirute, porque estava mais interessada em ajudá-lo a prosperar do que a estimular as suas atividades religiosas.

Ainda não está claro se o major Hasan, o acusado no massacre de Fort Hood, seria um terrorista islâmico clássico. O que se sabe é que ele era um muçulmano de classe média alta influenciado por pregadores radicais do Oriente Médio. Os seus pais, imigrantes palestinos, tinham um restaurante fino no Estado de Virgínia. O major Hasan formou-se em bioquímica na Universidade Virginai Tech, estudou medicina com as despesas pagas pelo Exército dos Estados Unidos e fez residência em psiquiatria no Centro Médico Walter Reed do Exército.

A única exceção a esse padrão é a pessoa que, sob outros aspectos, mais lembra Abdulmutallab: Richard C. Reid, o terrorista do sapato, cuja tentativa de explodir um avião em 2001 foi, da mesma forma que ocorreu no caso de Abdulmutallab, frustrada por aquilo que pareceu ser um misto de incompetência e de ação rápida por parte dos outros passageiros.

Reid, filho de pai jamaicano e mãe inglesa, cresceu às margens da sociedade britânica e, ainda novo, passou a praticar pequenos crimes de rua e a usar drogas. Ele tornou-se muçulmano na prisão, e, depois que foi libertado, caiu sob a influência de pregadores muçulmanos radicais como Abu Hamzi al-Masri, que foi condenado no Reino Unido em 2006 por fazer apologia do assassinato e do ódio racial.

Embora as suas origens sociais sejam muito diferentes, Reid e Abdulmutallab acabaram seguindo rotas incrivelmente similares, encontrando sentido na prática do islamismo e a seguir viajando para regiões infestadas pela Al Qaeda: Reid foi para o Afeganistão quando Osama Bin Laden mantinha campos de treinamento naquele país, e Abdulmutallab rumou para o Iêmen, que atualmente é considerado pela comunidade de inteligência dos Estados Unidos um grande centro de recrutamento e treinamento da Al Qaeda.

Reid admitiu para investigadores norte-americanos que contou com auxílio técnico para fazer a sua bomba, e parece improvável que Abdulmutallab, de 23 anos, contasse com o conhecimento necessário para ter acesso ao material para fabricação da bomba sem uma ajuda similar.

O fato de que tantos combatentes jihadistas são oriundos da classe média não significa que a pobreza que aflige diversos países islâmicos - e o contraste com a riqueza muito mal distribuída em algumas dessas sociedades - não desempenhe um papel como alimentador da fúria e do desespero muçulmanos. É claro que desempenha.

Mas é também sinal de fúria e desespero - e do culto paranoico e exagerado que enxerga os Estados Unidos como o Grande Satã - o fato de que, com tanta frequência, jovens com boas perspectivas na vida estejam dispostos a sacrificar-se em nome daquilo que transformou-se em sua causa.

É positivo o fato de as duas mais recentes tentativas de explodir aeronaves terem sido realizadas de forma amadora. Conforme muitos especialistas dizem, isso poderia indicar que a Al Qaeda é muito menos temível do que geralmente se acredita. Mas outros candidatos a mártires poderiam estar aprendendo com os erros de Reid e de Abdulmutallab, de forma a desfechar ataques mais efetivos no futuro.

E, em relação a isso, a ABC News anunciou na última segunda-feira aquilo que pode se constituir no aspecto mais preocupante do caso Abdulmutallab. O rapaz teria dito aos investigadores do FBI que há muitos outros como ele sendo treinados no Iêmen - e que eles estão prontos para atacar.

Tradução: UOL

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